Por Allan Ribeiro Em Jornal Santuário

Preconceito trava adoção de crianças no país

A casa pode parecer até pequena para tanta gente, mas, em contrapartida, a generosidade do casal Silvio Roque de Oliveira Junior e Elizangela Caldas Barroca Roque não tem tamanho. É nesse espaço que eles educam e repassam valores aos nove filhos. Dentre eles, Matheus e Marcos que carregam uma história especial. São filhos de coração do casal de Brasília (DF). Eles tiveram a vida modificada há cinco anos, quando ganharam um novo lar e uma nova família.

Foto de: Arquivo Pessoal

Silvio Elizangela Familia - Arquivo Pessoal

Silvio, Elizangela e os nove filhos. Casal aguarda
nascimento de décimo filho

A decisão de Silvio e Elizangela em adotar as crianças foi quase uma gestação fora do útero. Foram nove meses de preparação para que os novos filhos pudessem integrar a família. Matheus e Marcos tinham sete e dez anos na época que foram acolhidos. Um perfil pouco comum de adoção no Brasil.

O casal, que já tinha cinco filhos, não imaginava entrar na fila para adoção. Um pouco antes do primeiro contato com as crianças, Silvio começou a abrir-se a realidade de acolher um filho adotivo. Ele e a esposa conversaram e rezaram para discernir o sentimento que tinham no coração.

O primeiro contato dos dois irmãos com a nova família foi no colégio. Miguel, um dos filhos biológicos do casal, era colega de classe de Matheus. Aos poucos, o casal aproximou-se da realidade do garoto e viu que ele não estava sozinho. Logo, também conheceram o Marcos, irmão do menino. A partir daí a família começou a envolver-se com as crianças e a abrir-se para o processo de adoção.

“Com o passar do tempo fui me aproximando mais do amigo de sala do meu filho. Sempre me preocupava com suas carências materiais, e isso não me deixava em paz. Eu precisava me comprometer mais, e fui percebendo que já crescia em mim uma relação de paternidade sobre ele. Eu não queria apenas prover o material, eu queria ser o pai dele”, conta o Silvio.

Durante o processo, o casal visitava Matheus e Marcos aos fins de semana. Primeiramente, apenas Silvio e Elisangela tiveram contato com os dois. Posteriormente, os país foram integrando os cinco filhos aos encontros.

Hoje, existem quase 6.000 mil crianças para 30 mil famílias na fila de adoção. Mas essa conta não fecha. Por entraves na escolha do perfil de uma criança, a fila permanece quase estagnada. O processo de adoção no país se torna viável apenas à minoria das crianças e adolescentes disponíveis. Com isso acaba deixando de atingir o objetivo maior, que é garantir o direito à convivência familiar para todos aqueles que dela foram privados.

Crianças acima de 2 anos, como o caso dos dois filhos de Silvio, enfrentam uma dura realidade nos processos. Muitos pretendentes acreditam que uma criança maior de dois anos não seja capaz de se adaptar à família. Um em cada quatro pretendentes admite adotar crianças com quatro anos ou mais, enquanto apenas 4,1% dos que estão no CNJ (Cadastro Nacional de Adoção) à espera de uma família têm essa idade. Outro mito é que quem adota, muitas vezes quer manter a adoção em segredo e com uma criança maior isso não seria possível.

Segundo a assistente social e professora do Centro Universitário Salesiano (Unisal), Cecília Lopes, a adoção é permeada por medos que ficam por conta do senso comum, em que se imagina que seja impossível educar crianças maiores que já tenham no inconsciente e no consciente experiências traumáticas, de abandono, orfandade e violência.

Para adotar crianças ou adolescentes, ela ressalta que é preciso controlar esses medos e desconstruir os mitos. “Os adotantes têm medo de não serem capazes de cuidar e educar dos adotados. Os adotados têm medo de futuramente serem novamente rejeitados e descartados”, diz a especialista.

Poucos casais estão abertos a acolherem irmãos, como é o caso do casal de Brasília. Esse fator costuma ser um sério entrave à saída de crianças e adolescentes das instituições de acolhimento. De acordo com as estatísticas do CNJ, é baixa a disposição dos pretendentes. Cerca de 17,5% adotaria mais de uma criança ao mesmo tempo e só um quinto gostaria de receber irmãos. “Na realidade, as crianças maiores têm dificuldades de serem adotadas por puro preconceito”, pontua a assistente social.

A adoção de membros de uma mesma família é positiva para o processo de adoção, segundo especialistas. Um irmão pode apoiar ao outro e sentir a perda inicial como menos traumática.

Essa realidade foi vivida por Silvio. Ele ressalta que no período de adaptação no novo lar dos garotos a ligação entre os dois foi fundamental para encararem como naturalidade a nova família. O pai lembra que diante de algumas dificuldades, principalmente com relação aos limites impostos, a realidade de serem dois irmãos permitia a eles a oportunidade de se refugiarem neste relacionamento.

“Com o passar do tempo eles provavam nosso amor e decisão por eles, pois diante de tanto sofrimento na vida deles era natural que testassem nossa decisão por eles. E deixando-se vencer pelo amor, foram se expondo e permitindo ser amados”, relata o pai.

A realidade da adoção no país se contrapõe ao desejo da maioria dos casais. Quase 77% das crianças possuem irmãos e a metade desses tem irmãos também à espera de uma família na listagem nacional.

Dificilmente um juizado de Infância e Adolescência decide pela separação de irmãos que foram destituídos das famílias biológicas. As chances desse perfil encontrar um novo lar são ainda menores.

Para conhecer outros detalhes do processo de adoção no país acesse: cnj.jus.br/

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