Por Deniele Simões Em Jornal Santuário

Reciclagem de resíduos sólidos cresce, mas ainda é desafio

A produção de lixo no Brasil atinge a marca de 193.642 toneladas diárias. Quase 90% são coletados de alguma maneira e a recuperação de materiais recicláveis já abrange fatia considerável desse montante.

A informação consta do Cempre Review 2013, uma publicação que analisa e atualiza o panorama da reciclagem de embalagens pós-consumo no país.

Foto de: Cempre Preview 2013

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O relatório aponta que 27% dos resíduos recicláveis foram recuperados e voltaram para a cadeia produtiva em forma de matéria-prima, em 2012. O documento tipifica a coleta seletiva como pilar do mercado de reciclagem brasileiro, tendo como principais produtos o alumínio e as garrafas pet.

Um estudo divulgado pela LCA Consultoria prevê um aumento considerável do mercado brasileiro de reciclagem a partir da Copa de 2014, com benefício econômico de R$ 1,1 milhão por dia. Porém, isso só deve acontecer se 90% da população das cidades-sede da Copa passarem a contar com coleta seletiva.

De acordo com o Cempre, o gerenciamento de resíduos e a reciclagem empregam mais de 800 mil pessoas no Brasil, que separam 2.329 toneladas de resíduos recicláveis todos os dias.

A maior parte desses trabalhadores atua como catador individual, mas a criação de cooperativas tem mudado o panorama. Hoje já são 30.390 trabalhadores organizados em 1.175 cooperativas de trabalho.

Ainda com base nos dados da LCA, dos R$ 712 milhões gerados com a coleta e venda de materiais recicláveis no período avaliado. As cooperativas de catadores absorvem 7,8% desses valores.

Vantagens do alumínio

Na onda do reaproveitamento, o Brasil é líder mundial na reciclagem de latas de alumínio e, de acordo com o relatório, um dos motivos é o preço atrativo da sucata, que acompanha os valores da commodity no mercado internacional.

O coordenador de reciclagem da Associação Brasileira de Alumínio (Abal), Carlos Roberto de Morais, destaca que o Brasil recicla 97,9% das latas produzidas.

Esse índice é muito maior, por exemplo, do que os de países como Estados Unidos, onde 56% das latas são recicladas. “Mas com uma diferença: no índice brasileiro nós não consideramos as latas importadas, só as brasileiras”, adverte, lembrando que a estatística norte-americana também coloca na ponta do lápis as latinhas importadas.

Os números do Brasil são próximos de países como a Argentina e Japão, onde os níveis de reciclagem ultrapassam os 90%. Já nas nações que compõem a comunidade europeia o índice não chega a ser maior do que 70%, segundo Morais.

Foto de: sxc.hu

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Brasil é líder mundial em reciclagem de latas de alumíniol com
índice de 97,7%

Mas, por qual razão o alumínio ganha tanto destaque em comparação com outros produtos? De acordo com o representante da Abal, o primeiro fator é o alto índice de reciclagem. “O que está por trás disso é que, no tempo em que sustentabilidade ainda não era moda, a indústria de alumínio investiu em educação nas escolas”, salienta. 

Há pouco mais de 30 anos, houve toda uma preparação, gerando uma demanda pelo serviço. Isso aconteceu porque, já naquela época, havia a percepção de que ficaria cada vez mais difícil conseguir matéria-prima para a produção e o alto preço da energia também encareceria esse processo.

“A energia usada para fazer a lata a partir de material reciclado gasta 5% da energia que gastaria com o alumínio primário”, explica. Outra vantagem oferecida pela reciclagem das latas de alumínio é a economia de espaço.

“Um ano de latinha jogado em aterro sanitário seria o correspondente a mais ou menos 200 edifícios de 10 andares com quatro apartamentos por andar”, completa. E, como no processo de reciclagem a lata é compactada, isso pode representar 16 vezes mais em volume.

Além do ganho ambiental, a reciclagem das latas agrega valor social. Segundo Morais, o processo injeta na economia algo em torno de R$ 650 milhões apenas para os catadores de latinhas.

Mercado exige crescimento para atender demanda

Para Carlos Morais, a demanda por reciclagem é muito maior do que a oferta, independentemente do produto. “Hoje, se nós tivéssemos o dobro de latas de alumínio que temos no Brasil, ainda faltaria lata para ser reciclada em função da capacidade instalada para reciclagem”, avalia. Mesmo assim, o setor de reciclagem de alumínio investiu mais de R$ 100 milhões, só no ano passado.

Desde a aprovação da lei de resíduos sólidos, em 2010, muito se avançou no panorama da reciclagem. Estudos do Cempre apontam que, em 2012, coleta, triagem e processamento de materiais em indústrias recicladoras geraram faturamento de R$ 10 bilhões no país.

Espera-se uma grande expansão no ritmo do crescimento do setor, porém, é necessário que muito seja feito para que se atinja tal objetivo. “Já temos uma reciclagem de fração seca elevada, fruto sobretudo do trabalho dos catadores”, destaca o presidente do Cempre, Victor Bicca.

O executivo avalia, porém, que as prefeituras precisam, agora, acelerar o passo para responder às exigências da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PLNRS) como o fechamento dos lixões até 2014 e a inclusão dos catadores em seus modelos de coleta seletiva.

Segundo levantamento do Cempre, apenas 14% dos municípios brasileiros oferecem coleta seletiva e a maior parte dos que mantêm o serviço estão concentrados nas regiões Sul e Sudeste.

Informações divulgadas pela Agência Brasil, com base em dados do Ministério do Meio Ambiente, apontam que o Brasil ainda mantém 2.906 lixões em atividade. Além disso, das 189 mil toneladas de resíduos sólidos produzidas por dia apenas 1,4% é reciclado. A reversão desse quadro é o grande desafio do país até o ano que vem.

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