"Amei a justiça e odiei a iniquidade, por isso morro no exílio." - Gregório VII
Existe um ditado popular que ainda hoje é utilizado e nele a pessoa diz: “Estou indo a Canossa!” Essa expressão nasceu em 1077.
Esse foi um dos mais significativos episódios da célebre disputa que ficou conhecida como “Questão das Investiduras”.
Naquele tempo, a Igreja enfrentava a intromissão dos reis e príncipes em sua vida interna e, além disso, bispos e abades exerciam cargos na corte imperial, descuidando de suas funções pastorais. Diversas vezes abades leigos mudavam-se para o interior das abadias com sua família e todos os seus servos.
Outro problema sério estava no fato de reis e príncipes concederem os bispados aos que mais lhes fossem convenientes. Bispados e abadias tinham uma função política. O rei nomeava o bispo, marcava os limites da diocese, convocava e presidia sínodos e concílios e construía igrejas e catedrais, chegando a sustentar os sacerdotes. Muitos bispos eram escolhidos dentre os seus parentes ou dentre os seus partidários.
Papa Gregório VII começou a se bater contra essa infiltração, a fim de livrar a Igreja da influência leiga e dos interesses dos reis, príncipes e senhores feudais.
Em 22 de fevereiro de 1076, ele publicou a seguinte bula em Roma:
“... em nome de Deus todo-poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo, e por seu poder e autoridade, nego ao rei Henrique, filho do imperador Henrique, que com orgulho inédito se levantou contra sua Igreja, o governo de todo o reino dos alemães e da Itália; abstendo todos os cristãos do vínculo de qualquer juramento que tenham feito ou devam fazer a ele; e proíbo que alguém o sirva como rei. Pois é justo que, porque ele se esforçou para diminuir a honra de sua Igreja, ele próprio deveria perder a honra que parece possuir. Finalmente, porque ele desdenhou mostrar a obediência de um verdadeiro cristão e não retornou ao Deus a quem abandonou ao se comunicar com homens excomungados, por — como é minha testemunha — desdenhar meu conselho que lhe enviei para sua salvação, e tentando rasgar sua Igreja e separando-se dela, por minha autoridade eu o vinculo com excomunhão”.
Durante a Idade Média, o conflito entre o poder secular e o poder religioso foi uma das causas das disputas políticas entre reis, imperadores e papas.
O Sacro Império Romano, herdeiro da tradição imperial romana, foi refundado por Carlos Magno no Natal de 800, causando a futura disputa pelo poder.
Em 1072, o Imperador Henrique IV fez valer seu direito real ao decidir a eleição episcopal na diocese de Milão, desobedecendo à proibição do pontífice, Gregório VII, considerado um dos maiores papas da história da Igreja, que havia reiterado a proibição da investidura laical, ameaçando o imperador com a excomunhão caso ele persistisse em seu intento.
O Imperador alemão, porém, não deu atenção à admoestação a ele dirigida pelo Papa. Gregório, que reagiu imediatamente, excomungou Henrique IV e desobrigou os súditos do rei do juramento de fidelidade, o que, na Idade Média, equivalia a desobrigar todos os súditos de seus deveres e, assim, provocar uma resistência civil generalizada.
Muitos se colocaram ao lado do imperador, mas a maioria se colocou ao lado do Papa, que obrigou o imperador a se submeter ao seu poder.
O Inverno de Canossa, ou também chamado Penitência de Canossa, refere-se ao dramático episódio ocorrido em janeiro de 1077, no qual o imperador Henrique IV, do Sacro Império Romano-Germânico, foi obrigado a se humilhar perante o Papa Gregório VII, que havia se refugiado no Castelo de Canossa, localizado no norte da Itália.
Henrique IV estava em conflito com o Papa Gregório VII a respeito da autoridade de nomear bispos, ato chamado de “investidura leiga”. O Papa excomungou, então, Henrique IV, fazendo com que os príncipes alemães ameaçassem depor o imperador.
Para salvar seu trono, Henrique IV atravessou os Alpes no rigoroso inverno, encontrando-se com o Papa no Castelo de Canossa, propriedade de Matilde da Toscana. O Papa deixou Henrique IV esperando do lado de fora dos portões do castelo, descalço e vestido com trajes de penitente, ajoelhado na neve por três dias e três noites, entre 25 e 27 de janeiro de 1077, antes de recebê-lo e perdoá-lo.
A partir de então, a expressão "ir a Canossa" passou a significar um supremo ato de humilhação ou a necessidade de “dar o braço a torcer”.
O encontro entre o imperador e o papa no rigoroso inverno de 1077 foi mediado por Matilde. Por essa razão, Henrique foi para Canossa, o reduto de Matilde, uma poderosa aliada do papado, porque Gregório lá se refugiou.
Ela era herdeira de vastos territórios e uma estrategista muito habilidosa. Sua fortaleza nos Montes Apeninos Emilianos tornou-se o palco de um dos episódios mais simbólicos da Idade Média.
No final, depois da humilhação e graças à intercessão de Matilde e de alguns outros dignitários presentes, Gregório concordou em levantar a excomunhão, perdoando o imperador. Na realidade, o imperador Henrique, que também era um excelente estrategista e manipulador, percebeu que, como diz outro ditado popular, “é melhor perder os anéis que os dedos”.
O episódio simbolicamente sanciona a supremacia moral da Igreja sobre a autoridade imperial, mas permitiu que Henrique IV voltasse ao jogo de cena sem excomunhão. Pena que a disputa entre os dois não terminaria assim: Gregório o excomungaria e o destituiria do poder novamente em 1080, mas Henrique IV invadiu Roma, saqueou a cidade em 1084 e nomeou um antipapa.
Gregório VII fugiu da cidade, refugiando-se dessa vez junto ao normando Roberto, o Guiscardo (1015-1085), na Itália meridional, morrendo depois em Salerno, em 25 de maio de 1085.
O episódio coloca também luz sobre a famosa protagonista Matilde de Canossa, chamada de a "Grande Condessa". Dotada de cultura e capacidade militar, governou seus territórios com firmeza, defendendo a Igreja e mantendo um delicado equilíbrio político.
Após esse episódio, continuou a influenciar a política italiana até sua morte, em 1115, deixando um legado de força e inteligência em um mundo dominado por homens.
Hoje, porém, o castelo de Canossa está em ruínas e pouco significa, mas o nome e a memória de Matilde permanecem como símbolos de diplomacia e poder.
O Papa Gregório sairia da luta mais forte que nunca, promulgando depois o Dictatus Papae, monumento político e religioso do século XI.
A luta contra as investiduras só terminaria com a assinatura do Concordato de Worms, entre o Papa Calixto II e o imperador Henrique V, em 23 de setembro de 1122.
Foi um compromisso pelo qual o imperador renunciou ao direito de investir os bispos com o anel e o cajado pastoral, símbolos de poder espiritual, e permitiu ao papa afirmar plenamente sua primazia sobre toda a hierarquia eclesiástica, não se submetendo mais à interferência secular.
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