História da Igreja

O Inverno de Canossa

No aniversário da morte de Matilde de Canossa, conheça o episódio que marcou a disputa entre o Papa Gregório VII e o imperador Henrique IV.

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Pe Jose Inacio de Medeiros

Escrito por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

24 JUL 2026 - 15H07 (Atualizada em 24 JUL 2026 - 16H22)

Reprodução/ Wikipedia

"Amei a justiça e odiei a iniquidade, por isso morro no exílio." - Gregório VII

Existe um ditado popular que ainda hoje é utilizado e nele a pessoa diz: “Estou indo a Canossa!” Essa expressão nasceu em 1077.

Esse foi um dos mais significativos episódios da célebre disputa que ficou conhecida como “Questão das Investiduras”.

Naquele tempo, a Igreja enfrentava a intromissão dos reis e príncipes em sua vida interna e, além disso, bispos e abades exerciam cargos na corte imperial, descuidando de suas funções pastorais. Diversas vezes abades leigos mudavam-se para o interior das abadias com sua família e todos os seus servos.

Outro problema sério estava no fato de reis e príncipes concederem os bispados aos que mais lhes fossem convenientes. Bispados e abadias tinham uma função política. O rei nomeava o bispo, marcava os limites da diocese, convocava e presidia sínodos e concílios e construía igrejas e catedrais, chegando a sustentar os sacerdotes. Muitos bispos eram escolhidos dentre os seus parentes ou dentre os seus partidários.

Papa Gregório VII começou a se bater contra essa infiltração, a fim de livrar a Igreja da influência leiga e dos interesses dos reis, príncipes e senhores feudais.

Em 22 de fevereiro de 1076, ele publicou a seguinte bula em Roma:

“... em nome de Deus todo-poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo, e por seu poder e autoridade, nego ao rei Henrique, filho do imperador Henrique, que com orgulho inédito se levantou contra sua Igreja, o governo de todo o reino dos alemães e da Itália; abstendo todos os cristãos do vínculo de qualquer juramento que tenham feito ou devam fazer a ele; e proíbo que alguém o sirva como rei. Pois é justo que, porque ele se esforçou para diminuir a honra de sua Igreja, ele próprio deveria perder a honra que parece possuir. Finalmente, porque ele desdenhou mostrar a obediência de um verdadeiro cristão e não retornou ao Deus a quem abandonou ao se comunicar com homens excomungados, por — como é minha testemunha — desdenhar meu conselho que lhe enviei para sua salvação, e tentando rasgar sua Igreja e separando-se dela, por minha autoridade eu o vinculo com excomunhão”.

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Disputa de poder

Durante a Idade Média, o conflito entre o poder secular e o poder religioso foi uma das causas das disputas políticas entre reis, imperadores e papas.

O Sacro Império Romano, herdeiro da tradição imperial romana, foi refundado por Carlos Magno no Natal de 800, causando a futura disputa pelo poder.

Em 1072, o Imperador Henrique IV fez valer seu direito real ao decidir a eleição episcopal na diocese de Milão, desobedecendo à proibição do pontífice, Gregório VII, considerado um dos maiores papas da história da Igreja, que havia reiterado a proibição da investidura laical, ameaçando o imperador com a excomunhão caso ele persistisse em seu intento.

O Imperador alemão, porém, não deu atenção à admoestação a ele dirigida pelo Papa. Gregório, que reagiu imediatamente, excomungou Henrique IV e desobrigou os súditos do rei do juramento de fidelidade, o que, na Idade Média, equivalia a desobrigar todos os súditos de seus deveres e, assim, provocar uma resistência civil generalizada.

Muitos se colocaram ao lado do imperador, mas a maioria se colocou ao lado do Papa, que obrigou o imperador a se submeter ao seu poder.

O Inverno de Canossa

O Inverno de Canossa, ou também chamado Penitência de Canossa, refere-se ao dramático episódio ocorrido em janeiro de 1077, no qual o imperador Henrique IV, do Sacro Império Romano-Germânico, foi obrigado a se humilhar perante o Papa Gregório VII, que havia se refugiado no Castelo de Canossa, localizado no norte da Itália.

Henrique IV estava em conflito com o Papa Gregório VII a respeito da autoridade de nomear bispos, ato chamado de “investidura leiga”. O Papa excomungou, então, Henrique IV, fazendo com que os príncipes alemães ameaçassem depor o imperador.

Para salvar seu trono, Henrique IV atravessou os Alpes no rigoroso inverno, encontrando-se com o Papa no Castelo de Canossa, propriedade de Matilde da Toscana. O Papa deixou Henrique IV esperando do lado de fora dos portões do castelo, descalço e vestido com trajes de penitente, ajoelhado na neve por três dias e três noites, entre 25 e 27 de janeiro de 1077, antes de recebê-lo e perdoá-lo.

A partir de então, a expressão "ir a Canossa" passou a significar um supremo ato de humilhação ou a necessidade de “dar o braço a torcer”.

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Desfecho da disputa

O encontro entre o imperador e o papa no rigoroso inverno de 1077 foi mediado por Matilde. Por essa razão, Henrique foi para Canossa, o reduto de Matilde, uma poderosa aliada do papado, porque Gregório lá se refugiou.

Ela era herdeira de vastos territórios e uma estrategista muito habilidosa. Sua fortaleza nos Montes Apeninos Emilianos tornou-se o palco de um dos episódios mais simbólicos da Idade Média.

No final, depois da humilhação e graças à intercessão de Matilde e de alguns outros dignitários presentes, Gregório concordou em levantar a excomunhão, perdoando o imperador. Na realidade, o imperador Henrique, que também era um excelente estrategista e manipulador, percebeu que, como diz outro ditado popular, “é melhor perder os anéis que os dedos”.

O episódio simbolicamente sanciona a supremacia moral da Igreja sobre a autoridade imperial, mas permitiu que Henrique IV voltasse ao jogo de cena sem excomunhão. Pena que a disputa entre os dois não terminaria assim: Gregório o excomungaria e o destituiria do poder novamente em 1080, mas Henrique IV invadiu Roma, saqueou a cidade em 1084 e nomeou um antipapa.

Gregório VII fugiu da cidade, refugiando-se dessa vez junto ao normando Roberto, o Guiscardo (1015-1085), na Itália meridional, morrendo depois em Salerno, em 25 de maio de 1085.

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O episódio coloca também luz sobre a famosa protagonista Matilde de Canossa, chamada de a "Grande Condessa". Dotada de cultura e capacidade militar, governou seus territórios com firmeza, defendendo a Igreja e mantendo um delicado equilíbrio político.

Após esse episódio, continuou a influenciar a política italiana até sua morte, em 1115, deixando um legado de força e inteligência em um mundo dominado por homens.

Hoje, porém, o castelo de Canossa está em ruínas e pouco significa, mas o nome e a memória de Matilde permanecem como símbolos de diplomacia e poder.

O Papa Gregório sairia da luta mais forte que nunca, promulgando depois o Dictatus Papae, monumento político e religioso do século XI.

A luta contra as investiduras só terminaria com a assinatura do Concordato de Worms, entre o Papa Calixto II e o imperador Henrique V, em 23 de setembro de 1122.

Foi um compromisso pelo qual o imperador renunciou ao direito de investir os bispos com o anel e o cajado pastoral, símbolos de poder espiritual, e permitiu ao papa afirmar plenamente sua primazia sobre toda a hierarquia eclesiástica, não se submetendo mais à interferência secular.

Escrito por:
Pe Jose Inacio de Medeiros
Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

Missionário redentorista que atua no Instituto Histórico Redentorista, em Roma. Graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da antiga Província Redentorista de São Paulo, tendo sido também diretor da Rádio Aparecida.

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