Por Roberto Girola Em Artigos

Crianças expostas à sexualidade adulta

Se no fim do século XIX as afirmações de Freud sobre a sexualidade infantil escandalizaram o ambiente burguês da Viena imperial, hoje suas teorias pareceriam superadas pelos que consideram absolutamente normal a exposição prematura das crianças à sexualidade adulta. Isto seria prejudicial ao desenvolvimento psicológico normal da criança? Não abriria caminho à sedução infantil e ao abuso sexual das crianças bastante praticado em diferentes camadas sociais?

Sandor Ferenczi, um psicanalista húngaro, discípulo de Freud, escreveu um importante texto sobre a teoria da sedução infantil intitulado: Confusão de línguas entre os adultos e a criança. O simples título desta obra alerta para um paradoxo. Em tema de sexualidade a criança e o adulto falam línguas diferentes. Fazer com que a criança seja obrigada a falar a língua do adulto, a língua erótica da paixão é um tipo perverso de sedução, que “confunde” e “enlouquece” a criança ao afastá-la de sua linguagem natural, a linguagem da ternura.

Embora a criança em busca de sua autonomia, goste de “imitar” o adulto, sobretudo naquilo que o diferencia dela, no âmbito da sexualidade ela o faz usando uma linguagem que a expõe àquilo que um conhecido psicanalista francês chamava de significante enigmático. O discurso sexual do adulto é um discurso enigmático e perturbador para a criança. Embora a criança possa sentir prazer sexual, o seu psiquismo ainda não é capaz de significá-lo adequadamente nas práticas sexuais do adulto.

Os danos psíquicos envolvidos em situações de abuso sexual de crianças representam a parte mais obscura do que acontece no próprio abuso. Somente quem acompanha, no espaço clínico, pacientes que foram abusados na infância pode compreender a violência que isso representa para o psiquismo da criança e do futuro adulto, que tenderá a ver sua vida sexual inibida ou exacerbada pelo enigma do abuso.

Isso tudo pode se inscrever em uma tendência atual mais generalizada à exposição, favorecida pela explosão midiática e pelas mídias sociais, fortalecida por uma tendência dos pais a querer que seus filhos “cresçam rapidamente” e se tornem miniadultos.

Roberto Girola é psicanalista e terapeuta familiar

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