Por Marcus Eduardo de Oliveira - Jornal Santuário Em Artigos

Preocupação com o social

Para incorporar a preocupação social no conjunto das análises econômicas, a dinâmica do crescimento da economia, por exemplo, deve ser pensada “por dentro”, e não “por fora” das fronteiras de um país.

Na essência, esse crescimento que deve ser endógeno e não exógeno; e, ademais, tem de preparar o caminho rumo ao desenvolvimento. Para tanto, devem ser priorizados os capitais social e humano de dentro do território nacional, canalizando recursos via poupança doméstica, evitando recursos externos que sopram a favor dos ventos da especulação e da volatilidade.

Essa é basicamente a ideia defendida pelo economista e diplomata chileno Oswaldo Sunkel que formulou o conceito de “desenvolvimento a partir de dentro”, ou seja, respeitando e levando em conta as idiossincrasias próprias de cada lugar, de cada povo, com suas necessidades e peculiaridades básicas.

Para aqueles que se identificam com esse jeito de pensar a atividade econômica, resta dar mais validade à seguinte prédica: a vida só faz sentido quando dela fazemos uma ferramenta capaz de transformar o mundo em que vivemos.

Dentro dessa perspectiva, a economia – ciência humana com um forte compromisso social - não pode se furtar a essa prerrogativa, até mesmo porque essa ciência surgiu para transformar para melhor a vida das pessoas, erradicando, de forma prioritária, todo e qualquer tipo de desigualdade.

A desigualdade que aqui queremos mencionar é justamente “aquela” que diminui para zero qualquer chance dos mais necessitados de obterem uma melhoria nas condições de vida, a partir do momento em que uma pessoa fica completamente privada da falta de alimentos.

Os números dessa desigualdade, portanto, com reflexo explícito nas condições de vida dos mais necessitados são, per si, perversos e dolorosos. Vejamos em detalhes a questão da fome, de longe provavelmente a mais abjeta situação de desigualdade a que um ser humano pode estar exposto.

Concernente a isso, parece ser senso comum a argumentação corrente de que “não existe falta de alimentos, mas sim falta de acesso à comida”.

Os números relativos à fome no mundo são os seguintes: a cada cinco segundos, uma criança de menos de 10 anos morre de fome. No mundo, 56 mil pessoas morrem de fome por dia. É simplesmente aviltoso constatar que o número de mortes no mundo, por ano – e todos os anos, sem intervalo –, corresponde a 1% da população do planeta. Acrescenta-se a isso mais 1 bilhão de pessoas que “sobrevivem” permanentemente subalimentadas.

Recente relatório da FAO (Fundo de Alimentação e Agricultura da ONU) sobre a fome mundial mostra que o número de vítimas cresce ano a ano, mas que a agricultura de todos os países industrializados e os que estão em estágio de desenvolvimento poderiam alimentar normalmente, com uma dieta de 2,2 mil calorias por dia, algo como 12 bilhões de pessoas.

Logo, diante desses dados, uma criança que morre de fome hoje em qualquer parte do mundo é, na verdade, “assassinada” pelo sistema. A morte em decorrência da fome, diante desse caso, não pode ser tipificada como morte natural. Isso é um massacre criminoso, organizado.

No mundo, ao todo ronca de fome 1 bilhão de estômagos vazios. Desse contingente de pessoas (jovens, idosos, pobres e miseráveis) que passam fome, 180 milhões (quase um Brasil inteiro) são crianças (menores de 10 anos de idade). Dessas, 11 milhões são sepultadas todos os anos. É o massacre organizado se fazendo presente.

Enquanto ainda nos bastidores da política internacional se discute meios para proporcionar ajuda monetária aos incompetentes banqueiros internacionais, o mundo continua contabilizando milhares de mortes vítimas da fome.

Não obstante a isso, enquanto os dentes afiados dos especuladores agem livres, leves e soltos nas praças financeiras em busca das maiores taxas de juros e da valorização de commodities, corpos de inocentes vão tombando ao chão pela falta de acesso à água potável e pela crônica desnutrição a que são vitimadas.

Um único exemplo disso: só na Somália, as Nações Unidas estimam que 3,9 milhões de pessoas estejam passando fome, o que equivale à 40% da população local (dados de 2011).

No entanto, bastaria menos de 0,5% do PIB mundial para acabar de uma vez por todas com essa sandice chamada fome e desnutrição.

Já que quase sempre se cogita a criação de um Fundo de Estabilidade Financeira, por que então não se cogitar também a criação de um Fundo de Amparo à Fome e a Desnutrição?

Já que há quase que assegurado um Mecanismo de Estabilidade para salvaguardar bancos e banqueiros, por que ainda ninguém pensou em “assegurar” de igual modo um Mecanismo de Moralidade para decretar, de uma vez por todas, o fim da pobreza e da miséria no mundo?

Marcus Eduardo de Oliveira é economista especializado em Política Internacional

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