Por Alexandre Santos Em Notícias

Concílio Vaticano II transformou Igreja Católica

“Quero uma Igreja pobre para os pobres.” Essa foi uma frase que marcou o início do pontificado do Papa Francisco, eleito em março do ano passado. Curiosamente, a mesma frase foi dita por São João XXIII, antes de convocar o Concílio Vaticano II, que está completando 50 anos.

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Em 1958, a Igreja sofria pela morte de Pio XII, que havia tido uma atuação importantíssima, sobretudo no pós-Segunda Guerra Mundial. Escolheram o cardeal Ângelo Roncale, já idoso e experiente o bastante para realizar um papado de transição. Porém João XXIII surpreendeu a todos, convocando o Concílio e dando início a uma grande revolução no seio da Igreja.

Segundo o autor do livro As Janelas do Vaticano II – A Igreja em diálogo com o mundo (Ed. Santuário), o teólogo João Carlos de Almeida, SCJ, o pontificado de João XXIII foi breve, mas intenso. “Ele teve a coragem de convocar o Concílio Vaticano II, colocando a Igreja no coração do povo. Depois, as teses reformistas do Concílio foram aprofundadas por seu sucessor, Paulo VI”, argumenta. Para padre Joãozinho, o Concílio foi tão revolucionário que até hoje, 50 anos depois, ainda precisa ser compreendido. “O Papa Francisco diz que as reformas do Concílio ainda não foram totalmente assimiladas. Já Bento XVI afirma que existe um concílio virtual, que ficou famoso na mídia, e o Concílio real, que ainda precisa ser aplicado”, cita.

De acordo com o padre Ronaldo Mazula, cmf, as mudanças sociais, culturais, políticas e religiosas ocorridas nos séculos XIX e XX foram alguns dos principais motivos para a convocação do Concílio. “Eram necessárias uma renovação e adaptação da Igreja Católica às chamadas questões modernas”, afirma.

A primeira sessão do concílio começou no dia 11 de outubro de 1962, encontrando ainda algumas resistências. Menos de um ano depois, a morte de João XXIII gerou um momento de crise. O Papa Paulo VI deu continuidade ao concílio, que teve mais três sessões e durou até 1965.

O Concílio produziu quatro constituições, oito decretos e três declarações. Entre os documentos conciliares mais famosos estão Lumen Gentium (sobre a identidade e missão da Igreja), Dei Verbum (sobre a Revelação Divina), Gaudium et Spes (sobre a Igreja no mundo), Sacrosanctum Concilium (sobre Liturgia), Unitatis Redintegratio (ecumenismo e diálogo cristão), Ad Gentes (missão da Igreja) e Inter Mirifica (sobre os Meios de Comunicação Social).

Tempo de mudanças

Segundo o padre Mazula, após o Vaticano II, surgiu uma Igreja com maior participação dos leigos na ação eclesial e maior presença nas questões sociais. “Valorizou-se mais a opção religiosa pessoal, fortaleceram-se as novas teologias. Após a fase dos totalitarismos, da II Guerra Mundial e com as frustrações do predomínio do racionalismo, surgiu uma renovada espiritualidade com vários movimentos”, explica.

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Pe. Ronaldo Mazula

Padre Ronaldo Mazula: "Eram necessárias uma
renovação e adaptação da Igreja Católica
às chamadas questões modernas"

A reforma gerou uma Igreja mais plural e inculturada, mas não livre de problemas. Dificuldades de diálogo interno, além de processos de clericalização e de resistência às propostas de abertura do Vaticano II. Alguns teólogos acusam o Papa João Paulo II de ter ajudado a conter o avanço das transformações geradas pelo Concílio. Padre Joãozinho discorda. “A principal premissa do Concílio é o diálogo da Igreja com o mundo. João Paulo II pegou um mundo em conflito, dividido entre socialistas e capitalistas, e protagonizou uma comunhão internacional”, defende.

Na opinião dele, muitos interpretaram o Concílio de um modo relativista. “Houve muita coisa boa, mas alguns valores foram banalizados. Por exemplo: muita gente imaginou que o canto gregoriano não faria mais sentido. Porém, João Paulo II escreveu um documento, mostrando que o patrimônio musical da Igreja não pode ser jogado fora. Bento XVI também diz isso. E quem imagina que Francisco vai banalizar a liturgia está muito enganado”, afirma.

Diante dos desafios gerados pela nova realidade, os sínodos dos bispos trataram de vários temas. Entre eles, justiça, sacerdócio ministerial, evangelização, catequese, penitência e reconciliação, família, vida religiosa, palavra de deus e eucaristia.

Segundo Ronaldo Mazula, na América Latina e no Brasil as mudanças do Concílio aconteceram com radicalidade. “Surgiu uma Igreja mais missionária, a Teologia da Libertação, a opção preferencial pelos pobres, as CEBs. As pastorais específicas foram fortalecidas nas assembleias da Conferência Episcopal da América Latina e do Caribe (Celam) em Medellín (1967) e Puebla (1979). Propagaram-se inúmeros movimentos, como os Cursilhos, o Movimento Familiar Cristão (MFC), o Treinamento de Liderança Cristã (TLC), a Renovação Carismática Católica (RCC), o Neocatecumenato, Focolares, Equipes de Nossa Senhora, etc. Naquele período também floresceram as religiões pentecostais, neopentecostais e os cultos afro-brasileiros”, relata.

O padre Mazula ressalta ainda que, entre 1960 e 1990, cresceu o número dos mártires latino-americanos: Dom Oscar Romero, Dom Enrique Angelelli, Pe. João Bosco Penido Burnier, Pe. Jósimo Tavares, Pe. Ezequiel Ramin, Irmã Doroty Stang, entre outros.

Vaticano III?

Assim como há 50 anos, este início de milênio traz inúmero desafios, como as mudanças político-sociais, a hegemonia de um modelo econômico excludente que gera o crescimento da pobreza em escala mundial, a crise de fé, o relativismo religioso, a questão ambiental, entre outros.

Internamente, os desafios não são menores: o diálogo com a modernidade e a pós-modernidade, a inculturação, a formação do clero, as missões urbana, rural e além-fronteiras; a descentralização eclesial e a valorização dos leigos, da mulher e dos ministérios; a opção concreta e mais eficiente pelos pobres; a desinstitucionalização da fé; a inclusão de grupos discriminados. Diante dessa realidade, a Igreja deve lutar pela continuidade das propostas do Concílio Vaticano II ou deve convocar de um novo concílio ecumênico?

“Ano passado ocorreu a renúncia do Papa Bento XVI, provocada por problemas internos da Igreja, e foi eleito Francisco. Surge um novo sopro do Espírito Santo e a esperança de renovação com uma Igreja mais humilde, pobre e sensível aos grandes problemas mundiais. Nesse contexto alguns falam da convocação de um novo concílio. Quem sabe o Vaticano III. A história o dirá”, questiona o padre Mazula.

Gaudium et spes, síntese da inovação conciliar

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Pe. Marciano Vidal - Reprodução

Padre Marciano Vidal: "Não se pode deixar de
reconhecer que a constituição Gaudium et spes
marcou um giro na compreensão da relação da
Igreja com o mundo"

Muitos teólogos acreditam que a constituição Gaudium et spes (GS) é o documento que melhor expressa o espírito do Concílio Vaticano II. Um deles é o padre espanhol Marciano Vidal, C.Ss.R. Para ele, na GS se manifestam concretamente, com clareza, os traços do Concílio.

Segundo Vidal, uma das principais características do Vaticano II é a pastoralidade, que ele define como sendo a compreensão e o exercício da teologia com o objetivo de transformar salvificamente a realidade concreta, sem a preocupação direta de propor dogmas.

“É a adaptação da mensagem cristã à realidade atual, sem deixar que perca o sentido original e até mesmo abrindo o horizonte dos destinatários da mensagem conciliar a todas as pessoas, mesmo que não creiam no Cristo”, explica.

Na opinião do padre, tanto enquanto gênero literário quanto em termo de conteúdo, a Gaudium et spes é algo novo na história dos concílios. “Essa constituição conciliar expressa, de forma eminente, o tom de novidade, desconhecido antes, que João Paulo II atribuiu aos documentos do Vaticano II”, afirma.

Mudança de visão

Na opinão de Marciano Vidal, a relação do Cristianismo com o mundo, especialmente em determinadas épocas, foi marcada por atitudes negativas. Por exemplo, na concepção do mundo como inimigo dos valores do espírito, o mundo enquanto oponente e, em determinados casos, como adversário do cristão, que deveria fugir do mundo.

“João XXIII já havia advertido, na encíclica Mater et Magistra, de 1961: ‘ninguém deve, portanto, enganar-se, imaginando uma contradição entre duas coisas perfeitamente compatíveis, isto é, a perfeição pessoal própria e a presença ativa no mundo, como se, para alcançar a perfeição cristã fosse necessário apartar-se necessariamente de toda atividade terrena, ou como se fosse impossível dedicar-se aos negócios temporais sem comprometer a própria dignidade de homem e de cristão’”, cita.

Para Vidal, é o Concilio Vaticano II, sobretudo na GS, que sela uma nova orientação da Igreja com respeito ao mundo: o diálogo. “Esta palavra adquiriu carta de cidadania católica no pontificado de João XXIII. Foi assumida e enriquecida por Paulo VI. “Muitas vezes não se tem em conta a importância da primeira encíclica do Papa Montini, Ecclesiam suam (1964), sobre o diálogo, apoiando a mudança de orientação na relação da Igreja com o mundo”, argumenta.

Relação em dois tempos

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Concílio Vaticano II - Reprodução 3

De acordo com a análise do teólogo, o coração da GS é a relação da Igreja com o mundo. Esse tema, segundo ele, é desenvolvido ao longo de todos os capítulos, como se fosse o tema de uma sinfonia. 

Contudo, Vidal aponta o capítulo quatro da primeira parte, intitulado Função da Igreja no mundo atual. Esse capítulo, segundo ele, concentra de forma especial essa orientação para o diálogo. “Depois de afirmar a relação mútua entre a Igreja e o mundo, esse relacionamento é desenvolvido em dois tempos complementares: O que a Igreja pode dar ao mundo e O que a Igreja pode receber do mundo”, reflete.

Vidal divide as contribuições da Igreja para o mundo em três eixos: o sentido e a dignidade de cada homem; o bem da sociedade humana, em suas variadas formas e em suas diversas instituições e a atividade benéfica dos cristãos, sejam leigos ou clérigos.

Aspectos inovadores

Vidal explica que o desenvolvimento do segundo tempo – O que a Igreja recebe do mundo – é mais breve. Porém, segundo ele, o conteúdo é mais denso. Para ele, só o fato do documento formular esse tema já representa uma inovação do Concílio Vaticano II. “Destaco a afirmação geral, que diz: ‘da mesma maneira que interessa ao mundo reconhecer a Igreja como realidade social e fermento da história, também a própria Igreja sabe o quanto tem recebido da história e da evolução da humanidade’, cita.

Vidal destaca ainda a inculturação do Evangelho, que foi assumida como regra de toda evangelização, o discernimento das novas linguagens e a adaptação das estruturas da Igreja aos nossos tempos. “Não se pode deixar de reconhecer que a constituição Gaudium et spes marcou um giro na compreensão da relação da Igreja com o mundo. Basta tomar nota dessa declaração de intenções que aparece no começo do documento: ‘A Igreja quer assemelhar-se a Cristo e ser testemunha da verdade, salvadora da humanidade, servidora do homem’”, conclui.

Cronologia do Vaticano II

25/01/1959 – João XXIII anuncia a intenção de convocar um concílio

25/12/ 1961 – Convocação do Concílio, através da bula papal Humanae salutis

11/10/1962 – Primeira Sessão – Início do Concílio Vaticano II

13/10/1962 – Primeira Congregação Geral

20/10/1962 – Discussão do esquema sobre liturgia

03/061963 – Morre o Papa João XXIII

21/06/1963 – Paulo VI é eleito Papa e anuncia a intenção de retomar o Concílio

29/09/1963 – Segunda Sessão

04/12/1963 – Publicação da Constituição Sacrosanctum Concilium, sobre a Liturgia

14/09/1964 – Terceira Sessão

06/10/1964 – Discussão sobre Apostolado dos Leigos

11/10/1964 – Publicação da Constituição Lumen Gentium, sobre a Igreja

21/11/1964 – Publicação dos decretos Orientalium Eclesiarum, sobre Igrejas orientais católicas, e Unitatis Reintegratio, sobre o ecumenismo

14/09/1965 – Quarta Sessão

15/09/1965 – Discussão sobre Liberdade Religiosa

21/09/1965 – Discussão sobre Igreja no Mundo

28/10/1965 – Publicação das declarações Gravissimum Educationis, sobre Educação Cristã, Nostra Aetate, sobre Igreja e religiões não cristãs

28/10/1965 – Publicação dos decretos Optatam Totius, sobre a formação sacerdotal, Christus Dominus, sobre o múnus pastoral dos bispos, Perfectae Caritatis, sobre a renovação da vida religiosa

18/11/1965 – Publicação do decreto Apostolicam Actuositatem, sobre o apostolado dos leigos, e da Constituição Dei Verbum, sobre a Revelação Divina

07/12/1965 – Publicação dos decretos Presbiterorum Ordinis, sobre o ministério e a vida dos sacerdotes, Ad Gentes, sobre a missão da Igreja, a Declaração Dignitatis Humanae e a Constituição Gaudium Et Spes, sobre a Igreja no mundo de hoje

08/12/1965 – Encerramento do Concílio Vaticano II

 

 

 

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