Por Jovens de Maria Em Comportamento

Dia da Consciência Negra: A negritude e a liberdade

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Apesar das muitas repressões ao povo negro e da imensa capacidade dos seres humanos de reinventar formas variadas de escravidão, mais de três séculos depois o Brasil continua cheio de quilombos. E comemora este 20 de novembro de como o Dia Nacional da União e Consciência Negra.

zumbi dos palmaresZumbi, líder negro do Quilombo dos Palmares, assassinado no dia 20 de novembro de 1695, teve a cabeça exposta em um poste, numa praça de Recife, para que ninguém mais ousasse liderar um quilombo ou pretendesse ajudar os escravos a serem livres. Ao invés de pôr fim às lutas pela liberdade, a morte de Zumbi, ao contrário, suscitou da parte de muitos escravos a consciência de que não poderiam deixar que a morte desse grande líder fosse inútil.

 A memória do seu martírio tornou-se incentivo para que negros, índios e brancos se unissem em torno de um projeto de igualdade humana e de um Estado cujas raças e etnias pudessem ser cidadãs de pleno direito. Até hoje essa democracia racial plena não é um direito adquirido.

O legado que nos atinge

Em um Brasil multicultural e pluralista, a maioria da população tem influência das culturas negras que formaram com outras expressões culturais o variado tecido da brasilidade.

Nesse conjunto, sem dúvida, o povo afro-descendente tem uma função própria. Ele vem de populações que, mesmo nas condições mais adversas e na pobreza mais extrema, sabe dançar a vida e expressar alegria e confiança. Quem não precisa disso? Como garantir que os filhos e as filhas das culturas afro-descendentes possam cumprir sua missão própria no conjunto da sociedade brasileira?

Nos Estados Unidos, a cada ano se lembra a memória do pastor Martin Luther King Jr., mártir da igualdade racial e do direito das minorias negras. Vários analistas salientam que a celebração anual do aniversário do reverendo Luther King ajudou muito a que os cidadãos norte-americanos descobrissem que era possível eleger um negro como presidente do país.

No Brasil, muitos setores da sociedade, vítimas do racismo disfarçado e gentil que se esconde sob o véu da democracia racial, não veem com simpatia esta luta. O próprio assunto de culturas afro-descendentes os assusta.

É preciso repetir a estes companheiros que a celebração de um dia da união e consciência negra nada tem a ver com exaltação racial ou com supremacia de uma cultura, menos ainda com revanchismo ou revolta. Ao contrário, é proposta pedagógica e litúrgica de diálogo e integração. Em várias cidades, como Rio de Janeiro, Salvador, Maceió e Recife, que tornaram o 20 de novembro feriado municipal, a educação da juventude e o ambiente de convivência social têm progredido na direção da justiça.

União e consciência

As cidades de Goiás, Pirenópolis e outros núcleos de colonização do Centro-Oeste ainda guardam muros de pedra construídos pelos escravos. Até pouco tempo, os garimpos eram mantidos por trabalhadores negros. Apesar de, aparentemente, guardar menos traços da cultura negra do que o Nordeste e alguns estados do litoral, o Centro-Oeste, ao contrário, tem uma grave dívida social e moral com relação à população negra, libertada da escravidão e posta na rua, sem indenização, nem condições para se integrar social e economicamente na sociedade brasileira. As igrejas cristãs, muitas vezes ou quase sempre, cúmplices da crueldade da escravidão, discriminaram as culturas negras e demonizaram suas religiões ancestrais.

Ainda bem que Deus é amor e não tem os mesmos preconceitos. Seu Espírito sopra onde quer e abraça todas as culturas. Por isso, Deus veio sempre encontrar seus filhos e suas filhas dos quilombos e terreiros. Num mundo sem esperança e consolação, eles se tornam, para toda a humanidade, testemunhas de que Deus é ternura e beleza. Viva o dia da união e consciência negra!

Marcelo Barrosmonge, beneditino e escritor

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