Há dias que cansam mais nosso corpo e nossa mente e falta-nos a vontade de rezar. Mas também, pode-se cair no desânimo por outros motivos, como não obter respostas de preces antigas.
Quando é difícil fazer oração, vale recordar nestas palavras de nosso Senhor: “Quando fores orar, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai que está em segredo; e o teu Pai, que vê o que está escondido, te recompensará.” (Mateus 6,6)
Jesus nos mostrou que rezar, além de proferir palavras, também pode ser recolher-se e pensar em Deus, pois aquilo que se encontra em nosso interior é por Ele conhecido. Às vezes, é justamente nesses dias que Deus mais deseja “te ouvir”, ou melhor, sondar seu coração.
Por isso, quando rezar parecer difícil, mais que obter as “palavras certas” é importante colocar-se diante de Deus, com a sua verdade.
O Papa Francisco, em uma de suas meditações durante o pontificado, exortou que devemos “rezar sem nunca se cansar”. À primeira vista, isso pode parecer contraditório, mas ele não se referia ao cansaço físico ou mental, e sim ao espiritual.
Quando tendemos a desistir de pedir a Deus auxílio nas nossas maiores causas, o Pontífice ensina que devemos ser insistentes. Deus está interessado em ouvir nossos pedidos, mas é preciso que desejemos de verdade, com determinação.
Ele lembrou aos “ansiosos” que a oração não é uma varinha mágica que, em um estalar de dedos, a graça acontece. Mas o contrário: “a oração é um trabalho: uma labuta que requer vontade, constância e determinação, sem vergonha. Por quê? Porque eu bato à porta do meu amigo”.
Às vezes, rezar se torna difícil porque esquecemos que a oração é, antes de tudo, uma relação de amizade. Segundo o Papa, uma vez que Deus é amigo, podemos dirigir-lhe uma prece constante, importuna, pois “com um amigo posso fazer isto”.
São Josemaria Escrivá também nos ensinou que a oração é lugar de amizade quando disse:
“Quando fores rezar e não vier nada à cabeça, diante de Deus diga “Senhor, não sinto nenhuma vontade de falar contigo, parece-me que estou fazendo um favor” e sentirás no fundo do seu coração como um choque, amoroso, mas forte, o grito de Deus que te diz: “Sou eu que te faço um favor, quando te chamo para conversar comigo, quando te digo que quero fazer amizade contigo”.
Por fim, para ajudar-nos a refletir na “oração como trabalho”, o pontífice ainda exemplificou com uma experiência assistida por ele:
“Eu estava em Buenos Aires, num hospital havia uma menina de nove anos com uma doença infecciosa, contagiosa, e numa semana teria morrido. Quando os médicos chamaram os seus pais, disseram-lhes: “Fizemos o possível, mas não há nada a fazer. Morrerá em duas ou três horas”. Então o pai, que era um operário — um homem simples, trabalhador — e conhecia a realidade da vida como Jesus, saiu da clínica, deixou ali a sua esposa, apanhou um autocarro e percorreu 70 km até ao santuário de Nossa Senhora de Luján. Saiu por volta das 18h00 e chegou às 20/21h00, quando o santuário já estava fechado. Mas esse homem permaneceu ali a noite inteira, diante do santuário. Agarrou-se ao portão de entrada do santuário, e a noite inteira implorou a Nossa Senhora: “Quero a minha filha. Quero a minha filha. Tu podes dar-ma”. Depois, por volta das 5/6h da manhã, voltou a apanhar o autocarro e regressou. Chegou «mais ou menos às 9h30 e encontrou a esposa um pouco desorientada, sozinha. A menina não estava ali. Pensou no pior. E a mãe, a esposa, disse-lhe: “Sabes, os médicos levaram-na para fazer outro exame, não conseguem explicar porque ela despertou e pediu para comer, e não tem nada, está bem, fora de perigo”. Isto aconteceu. Estou certo. E o ensinamento tirado deste acontecimento é que aquele homem talvez não fosse à missa todos os domingos, mas sabia rezar, sabia que quando temos uma necessidade, há um amigo que tem a possibilidade, tem o pão, tem a possibilidade de resolver um nosso problema. Por isso, «bateu à porta a noite inteira»" (Meditações Matutinas na Santa Missa celebrada na Capela da Casa Santa Marta, 2018) |
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