Por Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R Em História da Igreja Atualizada em 21 SET 2017 - 09H40

História da Igreja na América Latina: Apresentação das verdades cristãs

PÁGINAS DE HISTÓRIA DA IGREJA NA AMÉRICA LATINA  
Parte - 24

A Apresentação das Verdades Cristãs 

Quando os portugueses e espanhóis chegaram ao que hoje se convencionou chamar de América Latina aqui encontraram povos que nunca tinham entrado em contado com a fé cristã. Esses povos vindos da Europa traziam consigo aquele Ideal de Cruzada, ou seja, é preciso expandir a fé, dilatando o Reino de Cristo.

Mas aqui logo de cara encontraram uma série de dificuldades. A questão era profunda: Como apresentar aos povos indígenas as verdades cristãs. 

Foto de: reprodução. 

Monumento

Alguns povos pré-colombianos ergueram pirâmides
maiores que as do Egito, palácios ricamente decorados
e observatórios astronômicos sofisticados,
tudo sem usar ferramentas de metal. 

O ritmo doutrinal do anúncio evangélico

A primeira dificuldade foi encontrada em relação à mentalidade que os europeus trouxeram consigo. Na maioria das cabeças daquele tempo havia a concepção de que os índios eram pouco capazes, bestiais e sub-humanos quase próximo de um estado próprio das feras. Além de tentar romper com esta ideologia, logo apareceu uma segunda dificuldade que foi a de traduzir a mensagem cristã em termos que fossem facilmente compreensíveis. A maneira de entender dos índios exigia termos e expressões concretas, bem diferentes do que se falava e se ensinava na Europa.

A terceira dificuldade ligada à primeira foi a concepção de que todas as tradições religiosas dos povos aqui encontrados eram idolátricas e criação do demônio. Por isso, os índios foram obrigados a romper com toda a sua tradição. Por causa disso, durante muito tempo persistiu o sincretismo. Ao mesmo tempo que se introduziam na fé cristã, adoravam os seus deuses às escondidas.

Outras dificuldades ainda apareceram como o caráter apologético e dogmático da doutrina cristã. Paralelo a isso, as Juntas e os Concílios orientavam sobre que medidas tomar para criar condições dogmáticas: Aos missionários era necessário ensinar a fé, criando raízes profundas para a doutrina cristã através das escolas e colégios e na atividade direta com os povos que fossem encontrados e “civilizados”.

Na maioria das vezes, no ritmo doutrinal do anúncio evangélico primeiro negava-se os falsos deuses (idolatria) e depois apresentava-se o Deus verdadeiro, bom e misericordioso, Jesus Cristo e a Igreja. 

Deuses astecas
Muitas vezes para que os índios aceitassem as verdades cristãs deviam romper com toda a sua tradição religiosa. 

Método Pedagógico

O método pedagógico usado nas escolas, colégios e nas tribos conquistadas era o da autoridade, ou seja, apresentava-se uma determinada verdade sem necessidade de muitos argumentos. O argumento maior era a própria realidade e a vida do missionário. O argumento principal vinha sempre da apresentação das Sagradas Escrituras e da revelação de Deus. Os missionários apresentavam-se a si mesmos como enviados e como mensageiros de Deus.

Mesmo que aqui nas terras da colônia não se encontrassem os considerados inimigos da fé como as igrejas protestantes que cresciam na Europa, a catequese e a pregação tinham como características a mentalidade apologética, a antropomorfização de Deus, a preocupação com a salvação eterna e a apresentação das exigências morais do cristianismo.

Mas o trabalho da catequese devia ser uma constante retomada, pois quase sempre a recaída nos antigos cultos era constante e a influência dos feiticeiros e dos sacerdotes do culto praticado pelos indígenas permaneciam. Assim como havia acontecido na Europa, em tempos das invasões dos germânicos, onde buscava-se converter os reis e chefes das tribos em primeiro lugar, aqui também buscava-se converter os caciques na segurança de que os demais das tribos os seguiriam.

Os Concílios Provinciais também se pronunciaram com frequência sobre a questão da idolatria e outros.

Havia da parte dos missionários uma forte preocupação com os problemas morais como a poligamia, o incesto, a prática dos sacrifícios humanos e as guerras tribais. 

Catecismo e outros instrumentos pedagógicos de ensino da fé

Uma das obrigações fundamentais dos curas indígenas era o ensino da Doutrina Cristã. Por isso eles eram chamados de Doutrineiros.

As Doutrinas eram todas as estruturas ideológicas que a Igreja ministerial organizava para informar intelectualmente e formar existencialmente o povo cristão em todos os seus seguimentos. Elas deviam assistir todos os indígenas por bem ou por mal e às vezes se usava castigos e açoites com os renitentes. 

catequeseAlunos do primeiro colégio do Brasil, na Bahia, em 1551. Algumas vezes crianças já catequisadas eram trazidas de aldeias vizinhas para apressar o aprendizado. 

Basicamente o catecismo cristão era feito de duas formas: A mensagem cristã era passada adiante na forma oral como a pregação, sermões, conferências. A catequese era feita ainda por formas escritas como a redação de catecismos e manuais. Mas, em ambos os casos se usava frequentemente de fórmulas que eram repetidas à exaustão.

Aqui também se encontravam algumas dificuldades comuns a todo o trabalho missionário como a existência das línguas desconhecidas e a falta de recursos.

O primeiro catecismo na América foi composto em 1546, sendo elaborado em duas versões: Castelhano e língua nahuatl. Seu autor foi o Frei Alonso de Molina.

O primeiro vocabulário destinado a ser usado na catequese, traduzindo os termos e conceitos cristãos para a linguagem indígena só foi impresso em 1555 e composto pelo mesmo frade.

Esses primeiros catecismos eram simples adaptações dos catecismos europeus, com traduções e cópias, faltando originalidade. A princípio havia uma variedade muito grande e só em 1566, com a aparição do catecismo de Trento, que haveria uma unificação.

Os Concílios Provinciais trataram de impulsionar a elaboração de catecismos e, no Peru ainda em 1944, se usava o catecismo de Concilio de Lima III (1583). Das ordens religiosas foram os franciscanos e dominicanos que usaram de maior criatividade na catequese.

Em geral havia duas sessões de catequese para as crianças, uma cedo e outra à tarde, com duração média de até duas horas. Nos "povos de visita" que ainda estavam num processo de atração, onde não havia religiosos residentes se nomeava um fiscal responsável pelo ensino religioso.

Aos poucos vão sendo sentidos alguns avanços pedagógicos na catequese como o uso de gravuras e pinturas, o teatro ou os autos sacramentais, muitos deles compostos pelos próprios indígenas. Neste campo ganhará um realce e uma importância muito grande a música sacra, sendo que os jesuítas terão a primazia neste campo da utilização dos recursos pedagógicos mais avançados adaptados à catequese.

Padre Inácio Medeiros
Missionário Redentorista
Mestre em História da Igreja   
pela Universidade Gregoriana  

Escrito por
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R. (Arquivo redentorista)
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R

Redentorista da Província de São Paulo, graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma, já trabalha nessa área há muitos anos, tendo lecionado em diversos institutos. Atua na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da Província de São Paulo.

Seja o primeiro a comentar

Os comentários e avaliações são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site.

0

Boleto

Anterior
Próximo
Reportar erro! Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou
de informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:

Por Pe. José Inácio Medeiros, C.Ss.R. , em História da Igreja

Obs.: Link e título da página são enviados automaticamente.