Por Pe. José Inácio Medeiros, C.Ss.R. Em História da Igreja Atualizada em 27 MAR 2019 - 10H57

História da Igreja na América Latina: As reduções indígenas

PÁGINAS DE HISTÓRIA DA IGREJA AMÉRICA LATINA 
Parte – 22

Primeiramente os evangelizadores europeus aplicaram aqui na América métodos de evangelização que pouco diferiam daqueles usados na Europa, especialmente em Portugal e na Espanha. Eram métodos fundados na transmissão das grandes verdades da fé cristã e na celebração do Mistério Cristão orientados pelos sacramentos.

A prática destes métodos já consagrados na Europa enfrentou aqui muitos obstáculos, sobretudo pelas dificuldades que os missionários tinham de catequizar na linguagem dos nativos e na pouca atração que a prática religiosa exercia sobre os indígenas. Aos poucos, percebendo estas e outras dificuldades, mas especialmente procurando inculturar o Evangelho, passam a criar métodos de evangelização e de convivência muito próprias de nossa realidade. Entre estes métodos cria realce as Reduções Indígenas. 

As Reduções

As Reduções faziam parte da metodologia de evangelização e educação mais inovadora aplicada aqui na América pelos europeus. Ela foi uma iniciativa, sobretudo, dos religiosos, com especial destaque para as grandes ordens como a dos jesuítas. Este sistema de evangelização pretendia levar os povos indígenas a uma maior convivência, facilitando a sua evangelização e, ao mesmo tempo, separando-os dos colonizadores para que não tivessem contato com seus maus exemplos e se livrassem também da exploração.

Primeiramente o Sistema de Encomiendas é que tinha a função evangelizadora e educadora, mas o sistema fracassou. Pelo Sistema de Encomiendas um grupo de indígenas era delegado ou "encomendado" a um colonizador chamado de encomendero. Pelo Sistema das Reduções os indígenas de uma região eram confiados a um grupo de religiosos. A maior parte dos encomenderos via os indígenas apenas como força de trabalho. E o tratamento dado pelos religiosos era tão privilegiado que os aglomerados humanos passaram a atrair outras tribos do mesmo grupo e até de grupos diferentes.

 

"Cada redução se propunha a ser um centro de humanização dos indígenas, transformando-se em polo de evangelização, livrando-os da sanha exploratória dos espanhóis".

Cada redução se propunha a ser um centro de humanização dos indígenas, transformando-se em polo de evangelização, livrando-os da sanha exploratória dos espanhóis.

As reduções foram recomendadas pela coroa espanhola, pelas Juntas Governativas, pelo Papa Pio V e pelos Concílios Provinciais, mas apesar disso enfrentaram diversas dificuldades. A primeira delas foi a oposição das autoridades civis, temerosas do poder que os religiosos tinham sobre os índios. Depois veio a oposição dos colonialistas e encomendeiros que começaram a ficar sem mão de obra. Além disso, volta e meia os bandeirantes paulistas organizavam suas expedições exploratórias para apresar indígenas, levando-os ao trabalho nas minas e plantações de cana de açúcar.

As reduções enfrentaram até mesmo a oposição de certos bispos que ficaram reduzidos quase que a um segundo plano devido a isenção das reduções que funcionavam quase como uma Igreja autônoma. No sul da América Latina houve reduções que eram autônomas até mesmo em relação ao Estado Espanhol contando, inclusive, com uma maior população. Com isso, praticamente se justapunham duas repúblicas, a dos espanhóis e a indígena, sendo esta até mais populosa.

Foto de: reprodução.

Bandeirantes

Gravura do século XVIII, ilustrando os tropeiros e os bandeirantes às margens do rio Tietê.

 

A promoção humana nas reduções

A promoção dos indígenas se dava pelo trabalho, pois nas reduções foram introduzidas técnicas de cultivo, artesanato, construções de caminhos, pontes e aquedutos. A promoção se fazia pela educação, com a fundação de escolas, colégios e ensino das artes, sobretudo música. No campo da saúde acontecia a construção de hospitais e asilos e no setor de moradia se dava a construção especial das casas e dos aldeamentos dentro de um formato especial que previa uma grande praça ao centro e ao redor as casas dispostas de forma ordenada.

Vida comum

Nas reduções, existia uma preocupação com a vida comum. Isso se dava pela existência de uma plantação comunitária que era usada como fundo para sustentar os enfermos, viúvas e velhos.

Mas, apesar de todo benefício, as reduções não estavam isentas de problemas como a consumo abusivo de álcool e a prostituição, gerando muitos filhos mestiços. E não se pode deixar de falar dos castigos extremos e dos maus tratos recebidos da parte de alguns missionários.

O principal exemplo que temos de reduções é aquele que existiu no sul do continente em regiões hoje ocupadas pelo sul do Brasil, parte da Argentina e pelo Paraguai, que chegou a congregar quase meio milhão de indígenas, especialmente do povo Guarani.

Origem das reduções

Os Jesuítas herdaram o Sistema de Reduções de outras congregações. Um de seus pioneiros foi o Pe. Alonso de Barzana. Em 1608 o Pe. Diego de Torres, provincial do Chile e Paraguai, executou o mandato das “Leis Novas”, organizando as reduções e livrando os índios das encomiendas. Ele recrutou missionários na Espanha e Itália e com 45 deles organizou as reduções dos Guaranis; a primeira delas surgiu em 1610.

As reduções chegaram a tomar as terras hoje pertencentes ao Brasil, Paraguai e Argentina com 650 Km de norte a sul, por 600 de leste a oeste.

População das Reduções

Elas tinham 28 mil indígenas em 1648 e 140 mil em 1732. Nos momentos de maior esplendor esta população pode ter chegado a 400 mil pessoas, maior que as províncias do Rio da Prata, Paraguai e Tucumam. Em quase 160 anos de existência chegaram a 37 reduções.

Entre as principais dificuldades enfrentadas pelas reduções notamos a infiltração e o ataque dos bandeirantes paulistas e também a oposição dos encomendeiros. Várias vezes a população quase foi extinta por pestes e epidemias.

- Os rios Uruguai e Paraná facilitavam as comunicações e os contatos. Os Jesuítas pretendiam estender uma rede de redução que ia do Paraná ao Amazonas, chegando até o Maranhão, mas foram expulsos.

Na organização social e religiosa das reduções destacavam-se como princípios a autonomia do índio em relação ao branco, a educação política e religiosa. 

Foto de: reprodução.

Planta de uma redução

Os jesuítas escolhiam lugares altos, de fácil defesa, com matas e água farta para estabelecer cada redução.

 

Disposições das Reduções

Em cada redução as construções eram uniformes, destacando a Igreja e a grande praça central muito usada para as concentrações e festas. O número de habitantes variava de mil a 7 mil, tendo uma equipe de três missionários à sua frente.

Cada redução tinha uma completa autonomia em relação às cidades e autoridades civis, bem como autonomia de uma com outra e a constituição básica era a família. Existia a produção pessoal e o projeto comum para sustentar os doentes, velhos, órfãos e viúvas. Existiam os bens particulares (terra, casa, ferramentas) e os bens comuns (instrumentos de produção e ofícios comunitários).

O comércio era também praticado e se fazia por trocas ou se vendia o excedente para suprir alguma necessidade comum. O ritmo dos dias e da vida era marcado pelo religioso com momentos de oração, calendário, festas... 

Decadência das Reduções

Foto de: reprodução.

Bartolomeu Bueno da Silva - Bandeirante

Muitas vezes, para os bandeirantes,
era mais fácil matar os padres jesuítas
e roubar deles os índios... 

No dia 27 de março de 1767, o rei Carlos III expulsou os Jesuítas de todos os territórios espanhóis. Dos 3 mil religiosos que tiveram de deixar as Américas, 450 deles estavam no Paraguai e cerca de 100 nas Reduções. Para substituí-los, cuidando de quase 50 mil indígenas, o bispo tinha apenas 10 padres. Com isso, 30 anos depois a obra das Reduções tinha se extinguido.

A expulsão dos Jesuítas das reduções durou quase um ano por temor de uma rebelião dos índios.

Os reais motivos desta expulsão encontram-se, sobretudo, na oposição dos colonizadores.

Positivamente, as Reduções são avaliados pelo esforço missionário que levou à passagem de um sistema primitivo, poligâmico ao familiar; de uma situação tribal a comunitária e de uma infraestrutura religiosa à fé vivida. O alcance do esforço educativo dos Jesuítas e o estágio alcançado pelas reduções é outro ponto avaliado positivamente. De negativo critica-se o regime excessivamente paternalista de alguns missionários onde os índios eram quase sempre e tratados considerados crianças. 

Padre Inácio Medeiros, C.Ss.R.  
Mestre em História da Igreja   
pela Universidade Gregoriana  

Escreve série sobre a  
História da Igreja no Brasil  
para o A12.com

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