O ser humano sempre usou os animais em suas lutas e nas guerras. Quantas histórias relacionadas aos cavalos, cachorros, elefantes, camelos e pombos-correios nós conhecemos. No cinema também se podem encontrar diversos filmes que falam da lealdade e da coragem desses animais.
Na Itália, porém, um animal foi essencial durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), mas dele pouco se ouve falar. Trata-se das mulas, que foram uma espécie de “pau pra toda obra” do exército italiano durante a guerra.
Foram as mulas que carregaram os canhões na região dos Alpes, mas desapareceram sem que ninguém delas se lembrasse. E foram usadas até perto dos anos 1970. A mula, na verdade, foi o animal que manteve a Itália de pé.
Não aquela Itália dos cartões-postais, mas a verdadeira, cujos soldados subiam e desciam as trilhas com suas mulas, com trilhas que davam para o vazio ou dos campos dos Montes Apeninos sem estradas, das montanhas onde os veículos não chegavam, mas alguém precisava chegar.
Preparando-se para a guerra
Em agosto de 1914, quando a Itália se preparava para a Primeira Grande Guerra, o exército real, uma vez que a república seria proclamada apenas depois da Segunda Guerra (1946), possuía cerca de 250 mil mulas, perfazendo cerca de 350 mil quilos de músculos e instinto distribuídos por cada lado alpino, cada passagem, cada crista do monte.
Elas carregavam obuseiros de montanha, caixas de munição, sacos de farinha, macas com os soldados feridos e subiam onde uma carroça nem sequer tentaria. E no final da guerra, que realmente custou vidas de animais e de pessoas, das 250 mil mulas, menos de 40 mil haviam sobrevivido.
Soldados com mochilas nas costas
A grande quantidade morreu no campo, pelo frio, pelos tiros e granadas que nem o zelo de seus cuidadores conseguiam evitar. E então veio a Segunda Guerra Mundial. O Exército Real, ainda pouco motorizado, voltou a depender delas para vários tipos de serviço.
Segundo estimativas históricas, cerca de 520 mil mulas foram mobilizadas durante a Segunda Guerra Mundial, seja nos Alpes, como nos Bálcãs, na África Oriental e até na Rússia. Quase 900 mil animais foram utilizados em duas guerras, número que excede os de exércitos europeus inteiros.
Em tempos de paz
As mulas continuaram utilizadas mesmo em tempos de paz, e também nesses tempos as coisas não foram melhores. Nos anos de 1950, no profundo sul da Itália, nas regiões de Lucânia, Calábria, interior da Sicília ou nas montanhas da Ligúria, Toscana e Abruzzo, a mula continuava sendo a espinha dorsal do exército.
Ela era o único veículo que passava pelas trilhas estreitas, que sustentava o peso nos terraços, que encontrava o caminho sozinho no escuro e na neve. Não havia alternativa porque o trator não conseguiu chegar lá porque não havia estrada.
Então, em menos de vinte anos, entre o final dos anos de 1950 e meados dos anos de 1970, tudo mudou. O crescimento econômico da Itália trouxe as mudanças com os tratores de duas rodas, estradas pavimentadas até as altas altitudes.
Os censos agrícolas registraram uma queda acentuada entre 1961 e 1970. A exemplo daquilo que tem acontecido com o jegue nordestino, em algumas regiões mais de 60% dos animais de trabalho da agricultura e do exército desapareceram em quase uma década. O trabalho da mula foi dispensado.
Mulas carregando sacos e mochilas
Coisa que ninguém poderia imaginar: esse animal governou a Itália há um século. A Itália travou duas guerras sobre seus ombros. Então virou a página sem se virar. Em menos de vinte anos (1955-1975), desapareceram em silêncio, sem leis de proteção ou manchetes de jornais.
Declínio e regeneração
A história das mulas na Itália envolveu um longo processo de declínio populacional devido à modernização agrícola e militar, mas o país vive um movimento recente de revalorização cultural e novas leis de proteção animal. Enquanto a Itália contava com cerca de 485 mil mulas em 1950, hoje restam pouco mais de 5 mil animais em todo o país.
Por mais de um século, as mulas foram o símbolo máximo dos Alpini, tropas de montanha do exército. Elas carregavam armas, suprimentos e artilharia pesada por trilhas intransitáveis dos Alpes. Em 1993, o exército italiano oficialmente aposentou e vendeu suas últimas mulas em leilão, substituindo-as por veículos motorizados leves.
Os últimos animais foram salvos do abate por associações de veteranos e direcionados para atividades florestais pacíficas e cuidados veterinários na velhice. Historicamente, algumas regiões da Itália mantiveram a tradição de consumir carne equina (cavalos, burros e mulas).
No entanto, o cenário jurídico mudou drasticamente com projetos de lei severos para proibir o abate e o consumo de carne equina. Cavalos, mulas e jumentos estão sendo reclassificados juridicamente como animais de estimação.
Mula caracterizada e com mochilas para carregar
A lei prevê multas pesadas e penas de prisão para quem os abater, mas os italianos compram essa carne no mercado exterior, inclusive no Brasil. As mulas sobreviventes ganharam novas funções na zona rural italiana, focadas na sustentabilidade.
Durante o deslocamento anual de rebanhos entre montanhas e vales, mulas e burros são equipados com selas e cestos acolchoados especiais, carregando os cordeiros recém-nascidos que não aguentam caminhar os longos percursos montanhosos.
Lenhadores de regiões montanhosas centrais da Itália voltaram a usar mulas para retirar madeira de áreas de preservação ambiental. Elas atuam como "caminhões de quatro patas", substituindo tratores para evitar a destruição do solo e a poluição florestal.
Reconhecimento ou não, as mulas ainda podem ter um futuro garantido pela frente.
add_box O bombardeio da cidade de Roma e a presença do Papa Pio XII
Leão XIV alerta sobre decisões nas mãos de algoritmos
Papa refletiu sobre os desafios da inteligência artificial e das novas tecnologias para as relações humanas durante catequese sobre o Concílio Vaticano II.
Conhecendo melhor o Tibete e o Nepal
Após tragédia entre Nepal e Tibete, conheça a história, a cultura e os desafios atuais de dois povos marcados pelas montanhas do Himalaia. Leia e entenda!
Oração da Sede Saciada
Do que seu coração tem sede? A inquietação humana, como dizia Santo Agostinho, é sinal de que ainda não repousamos o coração em Cristo. Aprenda essa oração!
Boleto
Carregando ...
Reportar erro!
Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou de uma informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:
Carregando ...
Os comentários e avaliações são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site.