Um dos grandes desafios enfrentados por diversos países da Europa e pelo Japão, hoje, é o rápido envelhecimento de sua população com o consequente fenômeno da solidão.
De forma muito acelerada vem acontecendo a transformação do modelo tradicional de família nuclear e a transição para uma sociedade bem mais individualista, em que as pessoas vivem sozinhas e muitos não se preocupam com a vida os demais.
Há pelo menos três décadas, o Japão vem registrando uma queda acentuada na população rural, à medida que jovens deixam vilarejos e pequenas cidades do interior em busca de melhores oportunidades educacionais e, posteriormente, de emprego nos maiores centros urbanos.
Até algumas décadas no passado era perfeitamente normal uma pessoa viver em um lar com várias gerações da mesma família, mas esse tipo de arranjo familiar hoje é raro e praticamente inexistente nas cidades.
Em geral, as pessoas agora vivem em altos edifícios, com muitos apartamentos ou em condomínios verticais, mantendo uma relação superficial com os vizinhos.
Antes, as pessoas viviam em comunidades onde as casas tinham áreas abertas ao redor, tinham quintais onde se podia plantar e colher flores e hortaliças, onde as crianças podiam brincar juntas, soltas nas ruas, e os vizinhos se encontravam todos os dias. Uma pessoa conhecia as outras e, se alguém precisasse de algo, sempre tinha algum tipo de apoio disponível.
Essas comunidades agora ficaram para trás, resistindo com poucos moradores jovens. Os idosos estão cada vez mais isolados e muitos acabam vivendo e morrendo sozinhos.
Uma senhora caminhando
O fenômeno da solidão
Mais de 70 mil idosos japoneses morreram completamente sozinhos em 2025 e mais de 20 mil somente foram encontrados 8 ou 10 dias depois. Os analistas indicam que esteja acontecendo uma “epidemia de solidão" no país, com o crescente aumento do número das chamadas "mortes solitárias", uma referência àqueles que morrem totalmente isolados.
Essa questão se tornou tão comum que ganhou até um termo próprio, "kodokushi", e já representa quase 5% do total de mortes no Japão.
Os idosos representam a maioria das mortes solitárias, embora as estatísticas incluam adolescentes e pessoas na faixa dos 20 anos. O aumento tem alimentado o debate sobre solidão e isolamento no Japão contemporâneo, mas suscitam também debates sobre formas de solucionar a questão.
Iniciativas para combater reclusão de idosos
A conexão humana é essencial para a saúde mental, pois os seres humanos são relacionais, precisando estar com pessoas ao seu redor, de conversar e interagir.
O fenômeno das mortes solitárias é um problema sério que precisa ser enfrentado com urgência, sobretudo, à medida que a população do país segue envelhecendo. Paralelo a isso, tem aumentado o índice de tentativas de suicídio no país e problemas de saúde mental também ocorre agora entre crianças e adultos.
Uma senhora tocando seu instrumento musical
Somente mudanças na legislação não resolve o problema, pois mesmo que sejam criadas leis especiais e estruturas especializadas, com equipes treinadas para entrar em contato com pessoas que vivem sozinhas e ajudá-las a se sentirem parte da comunidade, um desafio é o rompimento do estigma em torno do problema, incentivando os idosos a aceitarem ajuda, mesmo que desejem manter a independência.
Outra iniciativa é a criação de associações de moradores que acompanham vizinhos em situação de vulnerabilidade, além de eventos para socialização de idosos, cafés voltados a pessoas com demência ou outras condições relacionadas à idade.
Esperança após o desastre
O alerta sobre essa situação cresceu especialmente após o desastre natural de 2011, com o terremoto seguido do tsunami que devastou grandes áreas da costa norte do Japão.
Em 11 de março daquele ano, a cidade costeira de Ishinomaki foi atingida pelo maior terremoto já registrado no país, seguido por uma série de tsunamis que também afetaram a usina nuclear de Fukushima. O tremor e as inundações destruíram grande parte da cidade. Milhares de pessoas morreram, empresas e casas foram arrasadas, e grande parte da infraestrutura local, incluindo os sistemas de transporte, simplesmente desapareceu.
No mês seguinte, os idosos começaram a ser socorridos sendo levados de carro até bancos, hospitais, a prefeitura e os poucos supermercados que restaram. Iniciativas voluntárias se transformaram depois em ação social.
A maioria das pessoas, idosas ou portadoras de alguma deficiência, precisam de apoio para se locomover. Muitos perderam membros da família, sendo obrigados a viver sozinhos e têm pouco contato com outras pessoas na maior parte do tempo.
Uma mulher conduzindo entrevistas com idosos
É importante lembrar que, a realidade do envelhecimento da população, a diminuição do número dos que formam as categorias mais jovens da sociedade também já chegou ao Brasil, talvez com números ainda menores, mas é uma realidade que precisa ser enfrentada o mais cedo possível, para minorar as suas consequências.
Entre 2000 e 2024, cerca de 110,7 mil escolas rurais foram extintas no Brasil, o que representa um desmonte severo na educação do campo, levando ao encerramento de instituições que muitas vezes eram o único espaço público e de integração das comunidades locais. Pequenas escolas rurais ou localizadas em vilas e povoados são fechadas e os alunos são transferidos para centros urbanos maiores, gerando longas jornadas em transportes e, muitas vezes, evasão escolar por causa da redução do número de alunos no campo, seguramente devido aos fatores acima apontados.
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