A Família Real Portuguesa foi obrigada a imigrar para o Brasil em 1808, fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte. A transferência da corte para o Rio de Janeiro que até então era a capital do Vice-Reino, fez com que o Brasil passasse de colônia a sede do império com uma série de mudanças e consequências que atravessariam décadas
A Corte Real Portuguesa no Brasil
Em 1807, Portugal se recusou a aderir ao Bloqueio Continental imposto por Napoleão Bonaparte contra a Inglaterra, pois dependia econômica e comercialmente dessa nação. Seu território foi então invadido pelas tropas francesas comandadas pelo General Junot. Com a fuga da Família Real para o Brasil, com apoio e proteção dos britânicos, buscou manter a integridade do reino português e da própria casa real.
A primeira leva era de pouco mais de 400 pessoas, mas até o fim da transferência de 10 a 15 mil pessoas navegaram para o Brasil junto com a Família Real. Essa primeira leva partiu de Lisboa em novembro de 1807, enfrentando uma viagem difícil, com comida racionada, superlotação e doenças, chegando primeiro a Salvador (BA), onde Dom João tomaria a primeira medida autorizando a abertura dos portos às nações amigas, leia-se Inglaterra, encerrando o monopólio comercial que vigorava até então.
Depois de Salvador a corte seguiu viagem se instalando no Rio de Janeiro que de uma hora para a outra virou a capital do império, com o poder português exercido pela primeira vez em uma colônia. Muita gente precisou abandonar suas casas para poder instalar os que chegavam. Na verdade, o Rio de Janeiro viveria anos de improvisação e descontentamento com a presença de tantos “forasteiros”, que não viam a hora de voltar para traz.
A presença da corte e as mudanças que aconteciam aceleraram o processo de independência, com a elevação do Brasil primeiramente a Reino Unido (1815) e, posteriormente, com D. Pedro I e a proclamação da independência em 1822, se daria sua transformação em nação “mais ou menos soberana”. A constituição do reino e a presença da Família Real no Brasil levou à criação de diversas instituições como a Biblioteca Nacional, Banco do Brasil, Jardim Botânico, Academias Militares e de Belas Artes, Faculdades de Medicina e de Direito. Outra mudança providencial foi a contratação de uma missão artística para ensinar artes no país.
Debret e a Missão Artística Francesa
Jean Baptiste Debret (1768-1848) era pintor, desenhista e professor neoclássico francês da corte de Napoleão Bonaparte. Ele veio para o Brasil em 1816, integrando a chamada Missão Artística Francesa encomendada pela Coroa Portuguesa.
Debret permaneceria 15 anos em terras brasileiras dando aulas de pintura, primeiro em seu ateliê, e mais tarde, na Academia Imperial de Belas Artes, que ajudou a fundar. Além disso, viajou por boa parte do país retratando as paisagens e costumes locais em suas aquarelas. Com isso, pode organizar a primeira mostra pública de arte no país, com o nome de Exposição da Classe de Pintura de História da Academia, acontecida em 1829.
Ele foi o primeiro a registrar a vida cotidiana no Brasil colonial com detalhes impressionantes sobre a natureza, os costumes e a sociedade do século XIX, incluindo cenas sobre a escravidão e a vida da corte.
Viagem pelo Brasil
O pintor e documentarista usou aquarelas e desenhos para criar um vasto panorama do Brasil, indo desde a aristocracia e eventos reais até a cultura indígena, a fauna, a flora e as brutais condições da escravidão, como as tristes punições no "pau de paciência".
Após retornar para a França, Debret publicou "Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil", uma obra fundamental para a compreensão do Brasil no início do século XIX.
Composta de três volumes e 26 fascículos, publicados em 1834, 1835 e 1839, a obra contém muitas ilustrações que retratam com especial cuidado o cotidiano do Brasil no século XIX. Além da preocupação social, mostrando escravos e suas atividades, a obra traz ainda acontecimentos políticos e apresenta a fauna e a flora brasileira. As ilustrações do livro são seguidas de textos que explicam cada uma delas.
Debret morreu em 1848, um tanto esquecido, numa França que estava renascendo para a república, mas seu aluno Manuel Araújo Porto-Alegre, através de um discurso de homenagem póstuma pronunciado em dezembro de 1852 no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, se tornou o primeiro seguido de muitos que não deixaram que sua memória fosse esquecida por aqui. O livro de Debret é tido ainda hoje como uma fonte insubstituível de informações sobre um período decisivo em que o Brasil emergia como nação.
Debret e os romeiros de Aparecida
Em suas muitas obras Debret também registrou a atmosfera religiosa do Brasil Império, incluindo cenas de devoção e de fé. Com isso, capturou detalhes importantes sobre a fé e o cotidiano religioso brasileiro que incluem as romarias, os lugares santos e os santuários, costumes antigos trazidos pelos portugueses ao Brasil.
As romarias equestres que acontecem ainda hoje se colocam entre as mais tradicionais de Aparecida. Esse costume ao longo dos anos se tornaria parte de sua identidade e, além de destacar a importância dos cavalos e muares em vários aspectos da sociedade da época, se tornariam símbolos de devoção como meios de locomoção dos romeiros e peregrinos.
Logo após o encontro da imagem “Aparecida”, as caravanas de peregrinos começaram a visitar a “Capela da Santa” com seus cavalos e cargueiros; pais e filhos, parentes e amigos vinham unidos no mesmo propósito de honrar e venerar a “Santinha d’Aparecida”. Por outro lado, caravanas que atravessavam as regiões centro-sul com seus cargueiros e mercadorias passavam por Aparecida, levando cada vez mais longe a sua devoção.
Como acontecia em tantos lugares. na Vila de Aparecida, então parte do município de Guaratinguetá, seus moradores se serviam dos cavalos e muares para diversas finalidades, e a história não aconteceria sem a utilização desses meios de transporte de mercadorias e locomoção de pessoas.
O pintor e paisagista Debret também passou por Aparecida, em 1827, registrando em suas aquarelas a devoção e o meio de locomoção da época. Documentando a fé e as manifestações religiosas no Brasil do século XIX, uma aquarela intitulada "Nossa Sra. D'Apparecida" mostra a devoção à Padroeira e o ambiente do culto, retratando a religiosidade da época, mesmo que não com o foco específico em "romeiros de Aparecida" como um evento isolado.
Jean Baptiste Debret se tornou, por sua capacidade de capturar a realidade social e cultural do Brasil de forma detalhada e documental, importante para a compreensão de nossa história, oferecendo imagens que, de outra forma, não teriam sobrevivido, registrando a formação de uma nação em aspectos que variam do econômico ao pitoresco, do social ao religioso. Suas aquarelas registraram, num tempo em que as fotos e vídeos ainda não existiam, as manifestações religiosas de Aparecida nos primeiros tempos da propagação da devoção em Nossa Senhora Aparecida, cerca de um século após a descoberta de sua imagem nas águas do Rio Paraíba do Sul.
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