Opinião

A realidade da morte e a certeza da ressureição

A morte e o que vem depois podem parecer temas incômodos, mas, para os cristãos, são essenciais: fomos criados para voltar a Deus!

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Pe Jose Inacio de Medeiros

Escrito por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

30 OUT 2026 - 07H43 (Atualizada em 30 OUT 2026 - 10H51)

Imagem: Wikimedia Commons

Por mais que o tempo passe e novas explicações científicas sejam acrescentadas, as pessoas não conseguem se acostumar com o ato final da limitação humana: A morte.

A convivência com essa realidade sempre foi desafiadora para as pessoas e, por isso mesmo, paralela à teologia católica. Ao longo dos tempos, surgiram várias formas de se representar a morte. Uma delas, a mais conhecida ainda hoje, que aparece inclusive em pinturas, filmes, livros, sujeita a brincadeiras e representações folclóricas, é a caracterização da morte como um esqueleto que traz uma foice em suas mãos.

A representação da morte

A Peste Negra ocorreu na Europa Medieval do século XIV, matando cerca de 50 milhões de pessoas. Essa pandemia causou um impacto psicológico e social tão grande e o terror das pessoas foi tão forte, talvez somente igualado com o da Pandemia da Covid-19, que passou a se refletir na arte, começando o costume de se ilustrar a morte de uma maneira mais explícita, na forma de um esqueleto representando o corpo humano após a decomposição.

A foice, por sua vez, veio do contexto agrícola medieval por ser a ferramenta usada para colher os grãos das plantações, ceifando os trigais em forma de feixes. A partir daí, passou a simbolizar a morte, “ceifando” vidas como se fossem os feixes que se recolhem nos trigais. A longa túnica ou manto negro remete às vestes associadas a funerais e rituais religiosos, reforçando visualmente a ideia de luto.

Imagem: Wikimedia Commons Imagem: Wikimedia Commons

Dois temas artísticos ajudaram muito a consolidar essa iconografia da morte e do mal que ela causa. No primeiro, os afrescos intitulados “Triunfo da Morte”, produzidos, sobretudo, na Itália a partir do século XV (1446), figuras esqueléticas avançavam sobre multidões, matando e arrastando pessoas de todas as classes sociais, enfatizando que o fator morte seria inevitável para toda e qualquer pessoa. 

Outra representação, chamada de “Dança Macabra”, difundiu-se mais a partir do século XV em murais, cemitérios e manuscritos ilustrados, mostrando esqueletos conduzindo pessoas vivas, de papas a camponeses, como se fosse uma dança, numa longa procissão rumo ao túmulo, reforçando a ideia de um destino comum. Daí, a origem do nome.

Um pouco mais tarde, no período do Renascimento, que entrou pelo século XVI, artistas juntaram em definitivo o esqueleto com a foice numa única figura, fazendo uma associação com Cronos, divindade greco-romana ligada ao tempo, que era representada por uma foice usada como metáfora para o fim de um ciclo.

A mesma ideia foi reaproveitada pela arte cristã para expressar o limite do tempo da vida humana e a necessidade da pessoa usar bem de sua vida, com todas as suas aptidões e dons, para se preparar bem para a eternidade, sem medo ou receio de um possível castigo de Deus com a condenação eterna.

serpeblu / Adobe Stock serpeblu / Adobe Stock

A representação mais conhecida da morte, formada por um esqueleto encapuzado com um manto escuro e uma foice, firmou-se no século XIX. Nesse período, a cor preta se consolidou como cor do luto, tornando-se um código visual amplamente associado à morte, usado inclusive nas vestimentas litúrgicas.

Essa representação pictórica é usada hoje em filmes e em brincadeiras, o que não deixa de ser uma forma de dar mais leveza ao supremo drama da vida humana, do qual ninguém escapa.

Os “novissimus” na Teologia Católica

“A Ressurreição de Cristo ilumina com uma luz nova estas realidades cotidianas. A Ressurreição de Cristo é a nossa força!” Papa Francisco

Na doutrina católica, que foi sendo sistematizada ao longo dos tempos, com a contribuição de grandes teólogos como São Tomás de Aquino, que tratou desse tema com rigor filosófico e teológico, principalmente no Suplemento à Terceira Parte da Suma Teológica, os novíssimos (do latim novissimum, "últimas coisas") são aquelas realidades finais que acontecerão com todo ser humano e com a humanidade como um todo após o fim de sua vida terrena.

Tradicionalmente, a teologia católica resume essa complexa e desafiadora realidade em alguns pontos fundamentais ligados à chamada escatologia cristã:

  •  Morte: Significa o fim da passagem do ser humano na terra e a separação entre a alma e o corpo que, devolvido à terra, torna-se pó novamente.
  •  Juízo: É o julgamento das ações de cada pessoa, podendo ser o juízo particular que sucede logo após a sua morte ou juízo final que acontecerá no fim dos tempos.
  •  Céu, inferno ou purgatório: ao falar do céu, a Igreja está se referindo à união plena e eterna da pessoa com Deus, juntamente com a visão beatífica e a comunhão eterna com todos os santos. O inferno trata-se da condenação ou separação eterna de Deus, escolhida pela recusa da graça recebida no dia do batismo. Por purgatório se compreende o estado de purificação final para as almas que morrem na graça de Deus, mas ainda precisam se livrar de suas imperfeições.
Imgem: Rheinisches Bildarchiv Köln Imgem: Rheinisches Bildarchiv Köln

Ao propor a realidade dos novíssimos, a Igreja não fala de realidades físicas, como se fossem lugares a serem ocupados, mas de situações que transcendem o tempo e o espaço.

Ao rezar a oração do Credo ou Ato dos Apóstolos, que sintetiza toda a doutrina da Igreja relacionada às últimas coisas, o fiel professa a certeza da ressurreição final para todo ser vivente e o fim do mundo, quando acontecerá a Parusia, entendida como o retorno glorioso de Jesus Cristo no final dos tempos. O teólogo jesuíta Teilhard de Chardin falou de “cristificação do universo”.

No momento imediato da volta triunfal de Jesus Cristo é que se dará a ressurreição dos corpos de todos os seres humanos, unindo-se novamente às suas almas. Então não haverá mais morte ou dor.

Por fim, entende-se o Juízo Final como o julgamento universal em que toda a verdade sobre a história e as obras de cada pessoa será manifestada diante de todos, sem subterfúgios.

Portanto, independentemente de qualquer representação da morte que possa ser feita, por ser sempre limitada e imperfeita, sem medo e sem temor, a melhor forma de sermos merecedores da eternidade feliz junto de Deus, vivendo eternamente na graça de sua presença, é nos prepararmos bem aqui em nossa vida, fazendo sempre “valer a pena”!

Leia também: O que a Igreja ensina sobre céu, purgatório e inferno?

Escrito por:
Pe Jose Inacio de Medeiros
Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

Missionário redentorista que atua no Instituto Histórico Redentorista, em Roma. Graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da antiga Província Redentorista de São Paulo, tendo sido também diretor da Rádio Aparecida.

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