Opinião

São José de Calasanz e a reconstrução da escola pública

Uma reflexão sobre a valorização dos professores, o discernimento eleitoral e a corresponsabilidade social na defesa da escola pública

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Escrito por Luciana Gianesini

25 AGO 2026 - 07H00

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No final do século XVI, o padre espanhol José de Calasanz caminhava pelas ruas de Roma diante de um cenário desafiador: centenas de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade, sem acesso à instrução básica.

Tocado pelas palavras do Salmo “A vós se abandona o infortunado, sois vós o amparo do órfão” (Sl 9, 35), ele tomou uma atitude histórica: fundou a primeira escola pública, gratuita e popular da Europa.

Para Calasanz, ensinar era um verdadeiro ministério de amor e transformação social. Nas Constituições da ordem religiosa que criou, deixou registrado um princípio fundamental: “Se desde os primeiros anos as crianças forem educadas na Piedade e nas Letras, obter-se-á, sem dúvida, o feliz transcurso de toda a sua vida”. Ele entendia que a educação é a via indispensável para a promoção humana.

A realidade docente e o dever do Estado

Séculos depois da intuição profética de Calasanz, a escola pública no Brasil enfrenta desafios estruturais complexos. A crise na educação não é um conceito abstrato; ela se reflete na rotina exaustiva do corpo docente, marcada pela sobrecarga e pela necessidade contínua de maior valorização profissional.

No entanto, a Carta Magna do país estabelece que garantir o suporte a esses profissionais é um dever constitucional e ético. O Artigo 205 da Constituição Federal de 1988 sinaliza com clareza:

“A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade”.

Assegurar condições adequadas de trabalho, planos de carreira estruturados e remuneração justa aos professores constitui a base para o desenvolvimento social. A fragilização do ensino público compromete o futuro coletivo.

Joa Souza/ Adobe Stock Joa Souza/ Adobe Stock

Discernimento eleitoral: cobrança consciente na esfera correta

Em períodos de debate eleitoral, as pautas educacionais muitas vezes acabam secundarizadas por discursos genéricos. A análise responsável das propostas exige avaliar a viabilidade técnica e orçamentária dos projetos apresentados: há planejamento concreto de infraestrutura? Existem metas claras para a formação contínua e a valorização do magistério?

Exercer a cidadania com maturidade requer também compreender a divisão de competências do poder público:

  • Prefeituras (Municípios): atuam precipuamente na Educação Infantil (creches e pré-escolas) e nos anos iniciais do Ensino Fundamental.
  • Governos Estaduais: respondem pelos anos finais do Ensino Fundamental, pelo Ensino Médio e pela Segurança Pública, fator determinante para um ambiente escolar estável.
  • Governo Federal (União): estabelece as diretrizes nacionais, gerencia o ensino superior público e atua no suporte redistributivo de recursos.

Compreender esse funcionamento permite que as reivindicações cidadãs sejam direcionadas com precisão à esfera governamental correspondente.

A ilusão do isolamento e o Bem Comum

Diante dos obstáculos enfrentados pelo sistema de ensino público, surgem por vezes tentativas de buscar soluções exclusivamente privadas ou de isolar os estudantes em bolhas sociais.

Embora a preocupação das famílias com o ambiente de aprendizagem seja natural, encarar a educação sob uma perspectiva estritamente individualista reduz a capacidade de transformação da sociedade.

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A Doutrina Social da Igreja recorda a centralidade do Bem Comum — definido na Constituição Pastoral Gaudium et Spes (n. 26) do Concílio Vaticano II como “o conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição”. Na mesma direção, o Papa Francisco reitera na encíclica Fratelli Tutti que “ninguém se salva sozinho”.

Desentender-se do estado das instituições públicas de ensino enfraquece o tecido social. Os impactos da desigualdade e da restrição ao conhecimento de qualidade repercutem, inevitavelmente, em toda a comunidade.

A esperança como compromisso social

O testemunho de São José de Calasanz demonstra que a educação e o zelo pelas estruturas coletivas são expressões concretas de fé e responsabilidade cidadã.

A reconstrução e o fortalecimento da escola pública no Brasil demandam uma postura ativa: votar com critério, acompanhar a gestão dos recursos públicos e assumir a corresponsabilidade pela promoção de um ensino digno e universal.

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Fonte: planalto.gov/ vatican.va/ escolapios.org

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