De 6 a 17 de novembro, o Papa Leão XIV realizará sua primeira viagem apostólica à América do Sul, com passagens pelo Uruguai, pela Argentina e pelo Peru. O roteiro inclui dez cidades e revela diferentes dimensões da missão do Pontífice: anunciar a fé em uma sociedade secularizada, promover a paz e a unidade em meio às divisões e fortalecer a presença da Igreja junto aos mais pobres.
A escolha dos destinos também tem significados particulares. No Uruguai, Leão XIV encontrará uma sociedade em que a religião ocupa pouco espaço nas instituições e na vida pública. Na Argentina, visitará a terra natal de seu predecessor, o Papa Francisco, que não conseguiu realizar uma viagem ao país durante seu pontificado. Já no Peru, retornará à nação onde viveu décadas importantes de sua trajetória como missionário e bispo.
A viagem foi anunciada pela Santa Sé após o Papa aceitar os convites dos chefes de Estado e das autoridades eclesiásticas dos três países. Em cada etapa, a expectativa é que sua presença fortaleça as comunidades católicas e abra caminhos de diálogo com toda a sociedade.
A primeira etapa da viagem será no Uruguai, de 6 a 8 de novembro. Leão XIV passará por Montevidéu, Paysandú e Florida, em um país que apresenta uma realidade religiosa diferente daquela encontrada na maior parte da América Latina.
A separação entre Igreja e Estado foi estabelecida constitucionalmente em 1918. Ao longo do tempo, a religião perdeu espaço na vida pública, e diversas celebrações tradicionalmente cristãs passaram a receber denominações laicas. A Semana Santa, por exemplo, é conhecida oficialmente como Semana do Turismo.
Esse contexto, porém, não significa que os uruguaios tenham abandonado a busca espiritual. Em entrevista ao Vatican News, o sociólogo da religião Néstor da Costa explicou que muitas pessoas continuam acreditando em Deus, embora não participem regularmente de uma comunidade religiosa ou não se identifiquem com uma Igreja.
É justamente nesse cenário que a visita do Papa ganha significado. A expectativa é que sua presença ajude a aproximar a Igreja das pessoas, especialmente dos jovens, e favoreça o diálogo entre a fé e a sociedade contemporânea.
O desafio da evangelização está em compreender as novas gerações, escutar suas inquietações e encontrar caminhos para acompanhá-las. A visita também poderá ampliar o reconhecimento do trabalho social realizado pelas comunidades católicas, sobretudo no cuidado com as pessoas vulneráveis.
Leão XIV encontrará, portanto, uma Igreja chamada a renovar sua presença missionária sem ignorar as características culturais do país. A expectativa é que sua passagem ajude a redescobrir a dimensão espiritual da vida e abra novas possibilidades de diálogo, inclusive com aqueles que não professam a fé católica.
De 8 a 11 de novembro, Leão XIV estará na Argentina, país onde nasceu Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco. Durante seus 12 anos de pontificado, Francisco não conseguiu visitar sua terra natal, apesar da expectativa que existia em torno dessa possibilidade.
A chegada de Leão XIV terá, por isso, um significado especial para os argentinos. A viagem permitirá que o país receba um Pontífice em um contexto marcado pela memória de Francisco e pela expectativa de ouvir uma mensagem de esperança para o futuro.
A escolha da Argentina também se relaciona com a missão de promover a paz, o diálogo e a unidade. Segundo o padre Alejandro Moral, agostiniano que acompanhou Robert Prevost durante 12 anos à frente da Ordem de Santo Agostinho, a sociedade argentina convive com polarizações e feridas provocadas por conflitos e divisões.
Em entrevista ao Vatican News, o sacerdote destacou que Leão XIV conhece essa realidade e costuma convidar as pessoas ao diálogo. Para ele, a presença do Papa poderá ajudar os argentinos a caminhar juntos, buscando o bem comum e o que é melhor para o país.
Essa expectativa se estende à vida social. O padre Alejandro recorda que muitas pessoas enfrentam dificuldades e precisam ser ouvidas, mesmo em regiões associadas a melhores condições econômicas. Por isso, a mensagem de Leão XIV deverá reforçar a importância da fraternidade, da solidariedade e do cuidado com quem sofre.
O roteiro inclui Buenos Aires, Córdoba e Luján, onde o Papa visitará o Santuário de Nossa Senhora de Luján, padroeira da Argentina. A passagem pelo santuário também permitirá um encontro com a devoção mariana tão presente na identidade religiosa do país.
Ao chegar à terra natal de Francisco, Leão XIV encontrará uma Igreja e uma sociedade que esperam palavras de encorajamento. A expectativa é que sua presença fortaleça a comunhão, incentive a superação das divisões e recorde que a construção de uma sociedade melhor exige diálogo, respeito e compromisso com o bem de todos.
O Peru será a última etapa da viagem, de 11 a 17 de novembro, e terá um significado pessoal para Leão XIV. Antes de ser eleito Papa, Robert Francis Prevost viveu anos importantes de sua vida sacerdotal e episcopal no país, onde chegou como missionário na década de 1980.
O Pontífice atuou nas regiões de Piura e Trujillo e, em 2015, foi nomeado bispo de Chiclayo pelo Papa Francisco. Em 2020, também assumiu a função de administrador apostólico da Diocese de Callao. Sua trajetória criou vínculos com o povo peruano, que agora o espera com alegria.
Para o arcebispo coadjutor de Cusco, Dom Lizardo Estrada Herrera, a visita representa o reencontro do Papa com uma população que conhece sua história e seu trabalho pastoral. Em entrevista ao Vatican News, o prelado afirmou que os latino-americanos sentem Leão XIV próximo de sua realidade, pois ele percorreu suas estradas e conhece sua cultura.
O retorno ao Peru, no entanto, não será apenas uma ocasião de reencontro. O país enfrenta desafios sociais importantes, como a pobreza, especialmente nas regiões andinas e amazônicas, as desigualdades no acesso à educação e à saúde, a corrupção e a polarização política.
Nesse contexto, a expectativa é que o Papa reforce a missão de uma Igreja próxima das pessoas, comprometida com os mais pobres e disposta a escutar as comunidades. Dom Estrada Herrera destacou que a presença do Pontífice poderá ajudar a Igreja peruana a permanecer unida, promover a paz com justiça e fortalecer o cuidado com a criação.
O roteiro inclui Lima, Chiclayo, Cusco e Pucallpa. A passagem por Cusco permitirá o encontro com uma região de forte tradição religiosa e devoção popular. Já em Pucallpa, na Amazônia peruana, Leão XIV encontrará missionários e representantes dos povos amazônicos, em uma etapa que dará visibilidade à realidade das comunidades da floresta.
A viagem também será uma oportunidade de valorizar a solidariedade presente entre as populações mais vulneráveis e de renovar o compromisso com a defesa da dignidade humana. Para o arcebispo, a visita poderá impulsionar a Igreja a responder aos desafios atuais, entre eles a migração, a pobreza e a corrupção, sem perder de vista a esperança e a força da fé popular.
Embora tenham realidades distintas, Uruguai, Argentina e Peru compartilham desafios que dizem respeito à missão da Igreja em toda a América Latina. A transmissão da fé às novas gerações, a superação das divisões, o cuidado com os pobres e a construção da paz estarão presentes, de diferentes maneiras, ao longo da viagem.
A viagem apostólica permitirá a Leão XIV encontrar diferentes expressões da fé e conhecer de perto as esperanças e dificuldades de cada povo. Será uma oportunidade de reafirmar a missão da Igreja de anunciar o Evangelho, acolher as pessoas e trabalhar pela paz, pela justiça e pela fraternidade.
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Fonte: Vatican News
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