São muitos os lugares de culto e devoção a Santa Maria Madalena, mulher da qual Jesus expulsou sete demônios e que passou a segui-lo como discípula fiel. Segundo os Evangelhos, Madalena esteve entre as mulheres que acompanharam Jesus e é apresentada pelo Evangelho de João como a primeira testemunha do Cristo Ressuscitado, o que faz dela uma figura ímpar do cristianismo.
E, se há um lugar onde a memória de Madalena foi cultivada, esse lugar é a França. Segundo a tradição cristã, é nesse país que se encontra grande parte das relíquias atribuídas a Maria Madalena. Nosso olhar se volta, então, para duas regiões francesas: a Provença e a Borgonha.
A Borgonha foi, por muito tempo, na Idade Média, um dos principais centros de culto a Maria Madalena. A região de Vézelay concentrou, ao redor de uma abadia dedicada à santa, um importante movimento de peregrinação, sobretudo entre os séculos XI e XIII, antes de entrar em declínio e ceder espaço à tradição de Saint-Maximin e da Sainte-Baume, na Provença.
Centro de peregrinação, a Abadia de Santa Maria Madalena, em Vézelay, chegou a ser ponto de partida de uma das rotas que levavam até Santiago de Compostela, ligando esses dois importantes destinos de romaria durante a Idade Média.
A força de Vézelay foi tanta que a abadia também se tornou referência para as Cruzadas. Em 1146, São Bernardo de Claraval pregou naquele local em favor da Segunda Cruzada.
As relíquias e o declínio de Vézelay
Em 1190, partiram de Vézelay Filipe II Augusto, rei da França, e Ricardo Coração de Leão, rei da Inglaterra, rumo à Terceira Cruzada.
Em abril de 1267, na presença de São Luís IX e de representantes eclesiásticos, as relíquias veneradas em Vézelay foram solenemente reconhecidas. O declínio do santuário se acentuou, porém, a partir de 1279, quando foram encontradas, em Saint-Maximin, na Provença, outras relíquias atribuídas a Maria Madalena.
Essas identificações, no entanto, pertencem ao campo das tradições religiosas medievais e não podem ser comprovadas de acordo com os critérios históricos e científicos atuais. O fato é que a descoberta em Saint-Maximin fortaleceu a devoção provençal e fez Vézelay perder parte de sua importância como principal destino de peregrinação ligado à santa.
Essa tensão entre tradições variadas desviou parte dos olhares da Borgonha para a Provença. Hoje, a Basílica de Santa Maria Madalena, em Vézelay, continua sendo uma lindíssima igreja e um importante destino de peregrinação, enquanto a tradição ligada às relíquias ganhou grande força em Saint-Maximin-la-Sainte-Baume.
A tradição de Maria Madalena na Provença
A Provença, região do sul da França banhada pelo Mar Mediterrâneo, tornou-se uma grande propagadora da devoção a Maria Madalena.
Segundo a tradição medieval reunida na chamada Legenda Áurea, a santa teria chegado em uma embarcação ao litoral francês junto com São Máximo, Santa Maria Jacobé, Santa Maria Salomé e Santa Sara.
Com zelo apostólico, Madalena teria percorrido toda a região provençal até se recolher a uma gruta localizada no maciço da Sainte-Baume. O nome “Baume” deriva do provençal baumo, que significa “gruta”.
Segundo a tradição do santuário, o lugar já era frequentado por cristãos no século V, quando monges começaram a se estabelecer na região. Essa presença é anterior ao fortalecimento da devoção em Vézelay.
Hoje, a gruta fica a cerca de 20 quilômetros da Basílica de Santa Maria Madalena, localizada na cidade de Saint-Maximin-la-Sainte-Baume.
A partir da hospedaria do Santuário da Sainte-Baume, o visitante percorre a pé aproximadamente 1,5 quilômetro pela floresta até chegar à gruta, que permanece sob os cuidados dos religiosos dominicanos. O percurso permite mergulhar em um inesquecível ambiente religioso e meditativo.
Seja em Vézelay, seja na Sainte-Baume, as tradições cristãs, ainda que divergentes e concorrentes, marcam o território francês como destino final de uma das mais queridas e marcantes santas da Igreja Católica.
Cercada de lendas, histórias e especulações, Madalena, discípula libertada por Cristo — e não identificada pelos Evangelhos como a mulher pecadora anônima —, será sempre venerada como primeira testemunha da Ressurreição e exemplo de toda pessoa que pode e deve converter-se aos caminhos de santidade junto de Jesus.
Seu testemunho ajuda a compreender o que podemos aprender com Santa Maria Madalena: cultivar um intenso amor a Jesus e traduzir esse amor em gestos concretos de caridade no dia a dia.
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Fonte: Mulieris dignitatem/ saintebaume.org
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