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A íntima relação entre Economia e Teologia

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economia, meio ambiente, teologia_shutterstock

Fotos: Shutterstock

O teólogo e professor Jung Mo Sung, em “Teologia e Economia – Repensando a Teologia da Libertação e Utopias” (*) no prefácio à terceira edição dessa obra, pontua que: “Tudo ou quase tudo gira em torno da economia e se justifica em termos econômicos. O valor da vida de uma pessoa é medido em termos de seu sucesso econômico, assim como, em muitas igrejas, o sucesso econômico também passou a ser critério para ‘medir’ as bênçãos recebidas pelos fiéis e pela própria igreja”.

O professor Sung contextualiza, em âmbito geral, algo que, por vezes, passa despercebido por alguns teólogos e economistas sociais: a íntima relação que existe entre a Economia e a Teologia. Tal relação ganha maior proeminência à medida que tomamos ciência que, tanto a Economia quanto a Teologia, nasceram (enquanto corpo de conhecimento) para compreender e encontrar alternativas para as desigualdades sociais e também espirituais existentes no mundo.

Esse sentimento, em particular, é reforçado por Gustavo Gutierrez – célebre teólogo peruano, autor do clássico “Teologia da Libertação – Perspectivas”, obra de 1971 -, quando atesta que “ (…) a teologia, enquanto reflexão crítica cumpre uma função libertadora do homem”.

Eis porque é necessário promover, ainda nas palavras de Gutierrez, (…) a libertação econômica, social e política, e a libertação que leva à criação de um homem novo numa sociedade solidária”. Ora, tais pressupostos (libertação e criação de um homem novo, desprovido dos vícios inerentes aos sistemas excludentes) embasam, ao menos, dois tipos alternativos e contemporâneos de se fazer e pensar a economia social. Esses dois tipos são a Economia Solidária (ES) e a Economia da Comunhão (EdC) – a partir de um de seus elementares pressupostos: a cooperação-partilha.

 

"Procurar derrubar o paradigma dominante que sugere que crescimento econômico seja visto como sinônimo de progresso"

Convém reiterar aqui que, a partir da constatação desses tipos de economia que envolve a prática da solidariedade, é possível encontrar resposta afirmativa à tentativa de se promover sociedades mais justas e humanas. Para isso, é fundamental pensar e refletir numa melhor relação entre Teologia e Economia, uma vez que ambas podem (e devem, contudo) ser usadas para a promoção da igualdade social e do resgate aos mais necessitados.

A relação entre Teologia e a ação econômica somente se tornará fecunda mediante o entendimento de que é preciso ter claro o estabelecimento, em definitivo, da necessidade dos homens se libertarem. As amarras impostas, impedem, sobremaneira, o homem de prosperar. Essas amarras significam, grosso modo, dependência e submissão. Ninguém, estando submisso e/ou sendo dependente de algo, ou de alguém e ainda de um sistema qualquer consegue evoluir, prosperar.

É por isso que a necessidade de libertação está contida, por exemplo, nos pressupostos da Teologia da Libertação, a partir da opção que essa faz preferencialmente em torno da busca pela erradicação dos males da pobreza. A necessidade de promover a libertação do homem oprimido também está presente na ação econômica quando, por meio de políticas públicas, tende a facilitar o caminho ao desenvolvimento; afinal, o desenvolvimento traz embutido consigo a promessa de libertar o homem moderno. Não por acaso, Amartya Sen, destaca o “Desenvolvimento como Liberdade” (Development as Freedom).

No entanto, a teoria econômica ainda deverá evoluir o bastante para ensinar os teóricos insensíveis e mecanicistas dessa ciência social a incorporar como objetivo e fundamento principal da macroeconomia – a promoção da igualdade social. Outro ponto não menos importante nessa necessária evolução da teoria econômica é procurar derrubar o paradigma dominante que sugere que crescimento econômico seja visto como sinônimo de progresso. Como em vários casos, a estupidez anda de mãos dadas com a cegueira intelectual de alguns; por isso ainda não há clareza suficiente para enxergar que crescimento econômico diz respeito apenas à dimensão quantitativa da produção econômica, ao passo que desenvolvimento permeia a ideia central de incorporar no mercado a massa marginalizada, numa dimensão qualitativa. Enquanto o crescimento tem um aspecto puramente econômico, o desenvolvimento apresenta um perfil social.

Cabe, portanto, à Economia, nesse pormenor, criar um novo futuro para o homem. Disso provém a necessidade de estabelecer um humanismo econômico que promova a conexão entre a Teologia – que defende a libertação do homem – com um sistema econômico includente que ponha esse homem livre dentro da atividade produtiva. O homem, sendo ele o construtor de sua história, deve saber fazer uso das ciências – principalmente as sociais – para facilitar sua ascensão, tanto material (com critérios e parcimônia), mas, principalmente, espiritual, embasada, de preferência, no nobre sentimento da cooperação. Disso decorre a necessária simbiose que aqui estamos defendendo, a exemplo do professor Sung, em obra citada, visando estreitar os laços da Teologia com os da Economia. Para isso, urge construir algo mais: é preciso edificar um sistema econômico qualitativamente diferente do atual. Um sistema econômico que puxe o crescimento da economia respeitando a natureza, direcionando suas benesses para consolidar a busca do que realmente importa: o desenvolvimento econômico, social conjugado a um equilíbrio ambiental.

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A economia não pode continuar estimulando um sistema que condiciona os homens da atualidade a terem algo mais, mas, sim de serem mais. Na verdade, aqui estamos fazendo alusão a um desenvolvimento que seja capaz de ser “o novo nome da paz”, parafraseando assim o papa Paulo VI, em sua encíclica Populorum Progressio.

Quanto à Teologia, nessa mesma linha de contextualização, é importante frisar que essa se inscreve com força maior quando afirma, em definitivo, sua luta em defesa das comunidades carentes. Ao fazer isso, a Teologia está praticando um modo de economia social, principalmente quando reitera a necessidade da comunhão e cooperação entre os mais necessitados.

Esse tipo de economia social praticado pela teologia humana e caritativa visa, unicamente, levantar do chão o homem ali derrubado pela miséria, sabendo ser esse uma vítima potencial das constantes e crescentes injustiças econômicas. No que toca aos termos da Economia, é forçoso enaltecer ainda que somente alcançando o desenvolvimento social e humano – e nada mais – conseguir-se-á tornar o homem livre.

Conquanto, cabe reiterar que, essa liberdade aqui defendida como peça-chave da Teologia e da Economia, em certo sentido, se consolida ao assumir o compromisso de colocar as pessoas em primeiro lugar, e de fazer com que a economia e a teologia sirvam as pessoas, e não o contrário.

É importante não perder de vista que as aspirações tanto da economia social quanto do pensamento cristão, essencialmente é o de resgatar as pessoas para a vida; para uma vida plena, sem injustiças ou amarguras. Na essência dessa ação, espera-se que esses dois modos de pensar cumpram, de fato e de direito, as palavras de Jesus, proferidas um dia antes de sua crucificação: “Que todos sejam um só”.

colunista marcus eduardo de oliveira

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