Por Ana Alice Matiello Em Artigos

A Linguagem devocional de Santo Afonso de Ligório a Maria (parte II)

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No texto anterior abordamos elementos da linguagem devocional de Santo Afonso que conseguem comunicar o paradoxo do Cristianismo através da veneração a Maria. Não apenas a partir dos textos bíblicos, mas na própria linguagem narrativa Afonso expõe inúmeros relatos da realização atual do Cristianismo, por intermédio da Mãe do belo amor (Eclo 24,24). Já podemos compreender melhor o lugar do símbolo na linguagem devocional. Conforme as inúmeras referências simbólicas que Santo Afonso ressalta em Maria, tais como: “viu-a S. João vestida de sol”; “Maria é aquela arca feliz”; “Minha é a fortaleza, por mim reinam os reis” (Pr 8,15); “Teu pescoço é como a torre de Davi, defesa dos valentes” (Can 4,4). “Pelo que graciosamente Inocêncio III lhe chama ‘lua de noite, aurora de manhã, sol de dia’.” “Ele me põe a coberto no esconderijo do seu tabernáculo.” Entre outras referências analisaremos de que modo o conteúdo simbólico dessas passagens expressa, não o que Maria representa como mera alegoria, mas o que ela é em poder e significação.

A diferença qualitativa entre a linguagem simbólica na cosmovisão mitológica grega e na cosmovisão cristã consiste no fato de que o símbolo mitológico se comunica e se esclarece pela via da exterioridade, pois o seu sentido universal já está presente desde toda a eternidade no indivíduo (como conhecemos através da teoria da reminiscência socrático-platônica). Enquanto que no Cristianismo a linguagem se esclarece e se comunica na interioridade: “no esconderijo do seu tabernáculo”, onde ninguém é capaz de fazer com que o próximo compreenda aquilo que cada um deva compreender a partir de si mesmo, isto é, da sua relação particular com o universal. Neste caso, o universal não será mais compreendido como um conceito abstrato e impessoal do pensamento humano, mas tão concreto e pessoal que ele mesmo se torna uma pessoa, nascida de uma mulher, cujo consentimento para o mistério da encarnação é o caminho bem-aventurado da relação entre Deus e criatura.

A linguagem simbólica em ambas as cosmovisões (mitológica e cristã) é a unidade entre dois elementos em oposição: (universal-particular, infinitude-finitude, eternidade-temporalidade). Ou seja, em ambas as tradições a realidade está permeada de contradições. Por isso, ainda a propósito da devoção de Santo Afonso a Maria, analisaremos no próximo texto a partir dos elementos simbólicos do retorno de Ulisses e do mito de Ícaro, (mitologia) a diferença entre a linearidade do pensamento universal, que propõe resolver o conflito na figura simbólica do herói trágico, e a intensificação apaixonada deste conflito a partir dos elementos simbólicos ressaltados em Maria. Nela, pela via da interioridade, tais elementos são capazes de comunicarem ao indivíduo a nova possibilidade de salvação (cosmovisão cristã).

 

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