Por Pe. Antonio Clayton Sant’Anna, C.Ss.R. Em Grão de Trigo Atualizada em 26 MAR 2019 - 12H51

A Transfiguração supera a desfiguração!

Transfiguração de jesus

Homilia 2º Domingo da Quaresma - Ano C

- Lc.9,28-36 –                                     

 

Quaresma somada às inspirações da Campanha da Fraternidade Ecumênica torna-se tempo forte e oportuno de conversão no seguimento de Jesus Cristo. Aos poucos vamos subindo e nos elevando acima da rotina de nossas preocupações. Irmanados na fé, motivados pelo zelo na fraternidade, e no apelo do Jubileu da Misericórdia, contemplamos o Cristo, o crucificado e o ressuscitado! Revivemos com ele e nele a Páscoa!

Como entender a Páscoa? Jesus assumiu de modo consciente e radical o compromisso da libertação integral dos homens, todos os homens. Sentiu que sua vocação na vida vinha de Deus. Deus o chamava para realizar um projeto de amor e salvação, de liberdade e justiça, em favor principalmente dos pobres e dos humildes. Jesus intuiu este projeto como o Reino de Deus. A soberania de Deus na terra fundamentando a mais pura fraternidade.

Porém, não foi compreendido. As autoridades o rejeitaram como um subversivo, um contestador da ordem. O povo, abandonado religiosamente, queria apenas resolver seus problemas concretos e imediatos, sem crer e se comprometer com Jesus. Até mesmo o grupo dos apóstolos que tinha sido escolhido por ele, mostrava grandes dificuldades em assimilar e aceitar as verdades sobre o Reino de Deus. A conversão proposta pelo Mestre parecia-lhes muito estranha.

Então, antes de chegar à ressurreição vitoriosa Jesus passou pela incompreensão do povo, dos discípulos e pela rejeição das autoridades. Passou por um caminho de sofrimento que o levou à morte na cruz. Mas, nele, no seu amor radical, na total doação de si aos outros, Deus realizou as promessas messiânicas anunciadas pelos profetas. Jesus, o filho adotivo do carpinteiro José e de Maria, era o Messias, o Ungido de Deus, o cordeiro inocente sacrificado para lavar o pecado.

Isto é o que chamamos de “mistério pascal”. A Quaresma refaz na liturgia, no culto, nas celebrações a caminhada de Jesus para Jerusalém. A cidade simboliza o povo eleito, as instituições do Templo, já em decadência no tempo de Jesus, apontando para o fim da Antiga Aliança. Os intérpretes e estudiosos da Bíblia chamam tudo isso de: êxodo. Jesus também fez e conduziu os homens a um novo êxodo, um novo caminho de libertação e vida.  Por outro lado, trata-se da hora decisiva na vida Dele: a sua Páscoa. Nesta perspectiva está o episódio da Transfiguração no alto da montanha. Leia-o em: Lucas 9,28-36.

Jesus convidou Pedro, Tiago e João - os primeiros que ele havia chamado - e levou-os à montanha para rezar. Ele rezou! Os discípulos não, mas testemunharam uma teofania, ou seja, uma manifestação extraordinária de Deus provocada pela oração do Mestre. Houve mudanças em sua aparência humana: o rosto ficou iluminado, as vestes brancas e por instantes a glória divina envolveu Jesus enquanto a seu lado apareciam duas figuras bíblicas populares da Primeira Aliança: Moisés e Elias. Os dois representavam a Lei e os Profetas. Diz-nos o texto que os três conversavam sobre a missão de Jesus. Seu destino final seria Jerusalém. Ele faria um novo êxodo ou um novo caminho de libertação. Jesus substituiria Moisés, o líder do primeiro êxodo do povo saído do Egito. Quando este subira o monte Sinai para receber os 10 Mandamentos, sua face também se iluminara com a glória de Deus (Ex 19,16-19). Agora era Jesus quem cumpriria as profecias e as promessas do Senhor ao seu povo. Ele era o líder de uma nova aliança.

Se o primeiro êxodo fora cheio de dificuldades através do deserto, de igual modo o caminho de Jesus até Jerusalém. Passaria por duras aprovações e seria desfigurado pela morte na cruz até chegar à vitória da ressurreição. Outro detalhe no episódio é o da nuvem que envolveu os discípulos. Simboliza o seguimento com Jesus: as provações e a vitória final. Terão medo sim, envolvidos na nuvem escura do sofrimento. Mas vencerão todos os medos se souberem escutar fielmente o Filho amado de Deus. Após aquela experiência estranha os três tiveram que guardar segredo por um tempo, diz-nos o texto.  Isto significa: não chegara ainda para eles o tempo da verdadeira compreensão sobre o mistério da pessoa de Jesus.

Quanto a nós, qual a compreensão que temos sobre Ele, mais de dois mil anos depois?

Podemos dizer que estamos em melhores condições de compreender e seguir Jesus que os próprios apóstolos. Antes da ressurreição eles acalentavam sonhos de poder e prestígio. E interpretavam a Palavra de Deus conforme interesses humanos. O que fazemos hoje, depois da ressurreição? Queremos possuir uma vida nova, libertada e libertadora do pecado e das injustiças que dominam o horizonte do mundo atual? É hora de decisões. Abraçar a fé com coragem e enfrentar o caminho pascal. Viver a fraternidade. Por ela brota a vida e desabrocha a nossa missão por onde passarmos.

 

A nuvem que envolveu Maria

Até que ponto Maria tinha consciência de que o Filho de Deus-humanado em seu ventre era verdadeiramente Deus Encarnado?  O Anjo Gabriel anunciara que ele seria o Messias prometido, o Filho do Altíssimo, salvador de todo o povo. Porém, a palavra Filho de Deus na religiosidade judaica significava muitas coisas. Filho de Deus poderia ser o “povo de Israel” (Ex 4,22). O homem justo é um “Filho de Deus” (Sab 2,13 e 16). Quem observa a lei é “filho do Senhor”. (cfr. Maria, mãe da Redenção,   Schillebeeckx). A Virgem compreendeu progressivamente a missão do seu Filho. Mas, ao contrário dos apóstolos, ela superava as dificuldades porque “guardava e meditava todas as coisas em seu coração” (Lc 2,19). Que ela nos ajude quando o caminho pascal nos for difícil e incompreensível.

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