Palavra do Associado

A Devoção mariana através dos séculos

Escrito por Academia Marial

01 ABR 2021 - 14H44 (Atualizada em 16 ABR 2021 - 12H37)

Priscila Ferreira Devoto no Nicho de Nossa Senhora Aparecida (Priscila Ferreira)

Estamos no primeiro século da Era Cristã seguindo o calendário Juliano. Ainda segue viva na memória de muitos os acontecimentos no Gólgota. A lembrança destes acontecimentos será escrita em grego koiné ainda no primeiro século entre os anos 64 d.c e 70 d.c no livro que vai ficar conhecido como “Evangelho segundo Marcos”.

Embora narrando os fatos, nada fala da presença da mãe do protagonista no Gólgota, a presença materna fica adormecida. O Império Romano está no seu auge e prestes a entrar para a história como palco de um dos crimes mais famosos e instigantes da antiguidade. O cristianismo está nascendo e consequentemente a Igreja Católica. Nero Cláudio César Augusto Germânico (Lúcio Domício Enobarbo), o último imperador da dinastia julio-claudiana, está em apuros e nem mesmo seus deuses será capaz de livrá-lo da acusação de um incêndio. É hora de achar um culpado.

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Tribunais romanos acusam cristãos de infanticídio, ateísmo, incesto e até canibalismo, pois dizia-se que estavam usando carne e sangue humanos em rituais macabros. São acusações mentirosas. Mas o imperador não quer saber. Precisa de bodes expiatórios para sangrarem em seu lugar. E os cristãos servem perfeitamente ao propósito. Durante sessões de tortura, os primeiros prisioneiros revelaram os nomes de alguns companheiros de igreja. Uma imensidão foi condenada, não tanto pela acusação de incendiar Roma, mas por seu ódio contra a humanidade... Nero queria aproveitar para transformar a morte daqueles a quem chamava de supersticiosos num grande espetáculo. Ofereceu os jardins do palácio para a barbárie que viria em seguida. Cristãos foram vestidos com peles de animais e entregues aos cachorros, que os devoraram. Outros tiveram pregos enfiados nas mãos para serem presos às cruzes onde ficaram, ainda vivo, até apodrecer. Por fim, o imperador romano que parecia ter um apreço incomum por incêndio, determinou que os seguidores de Cristo fossem queimados vivos – mas só ao anoitecer, porque seus corpos em chamas deveriam servir para iluminar a cidade”. ¹

Mais tarde no século, a dinastia Júlio-Claudiana, fundada por Augusto, chegou ao fim com o suicídio de Nero em 68 d.C. Seguiu-se o famoso Ano dos Quatro Imperadores, um breve período de guerra civil e instabilidade, que foi finalmente encerrado por Vespasiano, nono imperador romano e fundador da dinastia Flaviana. O Império Romano geralmente experimentou um período de prosperidade e domínio neste período e o primeiro século é lembrado como parte da época de ouro do Império”. ²

As palavras de Maria de Nazaré no MagnificatDoravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque o Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor” (Lc 1,48-49) parecem estar adormecidas diante dos acontecimentos do primeiro século assim como sua presença no Gólgota nos relatos de Marcos. Mas não será para sempre assim a presença de Maria de Nazaré. As proféticas palavras do Magnificat vão começar a se cumprir e a Virgem Mãe começará a despontar como os primeiros raios de sol no amanhecer.

O segundo século é marcado ainda pela expansão da santa igreja, mas também tempos de perseguição e martírio. Os documentos de que se tem conhecimentos são poucos, porém, já se pode notar um discreto despertar da figura da Mãe do Salvador e são os Pais da igreja que colocarão um olhar especial sobre Maria de Nazaré. Eles contemplaram com certa clareza o relacionamento existente entre Maria e Jesus. Eles falam da Virgem pois veem nela a Mãe do Deus que se encarna e se faz homem. De fato, por ser filho de Maria, Jesus é verdadeiramente homem, mas por ser eternamente gerado pelo Pai, é verdadeiramente Deus. Santo Inácio de Antioquia e São Justino falam desta figura materna em seus escritos:



Santo Inácio de Antioquia, segundo sucessor de São Pedro em Antioquia (entre o ano 107 e 110): em suas cartas, escritas no navio enquanto era conduzido preso para Roma, afirmou que Cristo é da estirpe de Davi e de Maria; verdadeiramente nasceu, comeu e bebeu; verdadeiramente foi crucificado e morreu. O evento salvífico de Cristo apoia-se na real maternidade de Maria. A concepção virginal de Jesus, seu nascimento verdadeiro e a morte de cruz são três imensos mistérios que se realizam no silêncio de Deus (carta aos cristãos de Éfeso 18,1-2;19,1-3). São Justino (+165) ... defendeu a concepção virginal de Jesus que, embora atestada no evangelho, era contestada por contemporâneos seus. Foi o primeiro a destacar o paralelo entre Eva e Maria na História da Salvação – paralelo desenvolvido mais tarde por Santo Irineu (aprox.. 202)”. ³

Data ainda do segundo século as primeiras imagens de Maria. Segundo um estudioso da Fordham University a imagem da mulher tirando água do poço e que um dia decorou o batistério de uma antiga igreja cristã em Dura-Europos, pode ser a mais antiga imagem da Mãe de Deus que se tem conhecimento.

Na catacumba de Priscila, umas das mais antigas catacumbas de Roma, encontra-se um afresco da mariano. Este afresco é considerado a mais antiga representação da Natividade. Nele contemplamos uma imagem de Maria com o Menino Jesus sendo amamentado e ao seu lado contemplamos a figura de São JoséEsta imagem como outras encontradas nas catacumbas foram deixadas pelos primeiros cristãos que ali se reuniam para seus cultos. Entre os anos de 150 – 200 foi escrito o Protoevangelho de Tiago. O protoevangelho conta a história de Maria de Nazaré que não foi incluso nos Evangelhos Canônicos. Relata seu nascimento de Ana e Joaquim, sua estada no Templo para ser educada e o casamento com o viúvo José. Detalhes da concepção, nascimento e fuga para o Egito também são abordados no protoevangelho de Tiago.

O terceiro século ficará marcado pela presença da Oração mariana, a mais antiga oração dedicada a Virgem Maria. Como também os Pais da Igreja vão seguir falando desta figura feminina que começa a ganhar mais admiração dos primeiros cristãos.

No ano de 1927, no Egito, foi encontrado um fragmento de papiro que remonta ao século III. Neste fragmento estava escrito:
“À vossa proteção recorremos Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita!”

Esta oração conhecida, com o nome Sub tuum praesidium" (À vossa proteção), é a mais antiga oração a Nossa Senhora que se conhece. Tem ela uma excepcional importância histórica pela explícita referência ao tempo de perseguições dos cristãos (Livrai-nos de todo perigo) e uma particular importância teológica, por recorrer à intercessão de Maria invocada com o título de Theotókos (Mãe de Deus). Este título é o mais belo e importante privilégio da Virgem Santíssima. Já no século II, era dirigido à Maria e foi objeto de definição conciliar em Éfeso no ano de 431. Santo Tomás de Aquino afirma que pelo fato de ser mãe de Deus: “A Bem-aventurada Virgem Maria está revestida de uma dignidade quase infinita, a causa do bem infinito que é o mesmo Deus. Portanto, não se pode conceber nada mais elevado que ela, como nada pode haver mais excelso que Deus” (Suma Teológica 1, q.25, a.6 ad 4.). E, de acordo com o Catecismo da Igreja Católica”. 4


Orígenes (+253 ou 255) foi um dos primeiros a chamar Maria de “Theotókos” (Mãe de Deus – ano: 243). Ela é modelo do perfeito discipulado: é preciso imitar Maria a fim de que Cristo nasça em nós. 5

Basílio Magno (+379) – Em sua “Homilia sobre o Natal”, esclarece as dificuldades surgidas por causa de uma passagem evangélica (“não teve relações com ela até o dia em que deu à luz o Filho”), apoiando-se no “sensos fidelium” (a íntima percepção da alma dos fiéis), por meio do qual se exprime o Espírito da verdade. 6

Gregório Nazianzeno (389) vai destacar três aspectos cristológicos que se relacionam a Maria Santíssima sendo eles: a união hipostática, a integridade da natureza humana e a “pré-purificação” da Virgem Maria.

Um retrato em forma de lápide guardado nos museus do Vaticano datado do século III trás uma nova representação de Maria. Na cena contempla-se a visita dos Reis Magos. Maria sentada com o Menino no colo e acompanhada de José recebe a visita dos Reis Magos que trazem consigo, os presentes citados nos evangelhos da Infância. Assim Maria começa a deixar marcas pelos séculos entre seus devotos. Uma devoção que irá atravessar o tempo.

Querendo Deus, na Sua infinita benignidade e sabedoria, levar a cabo a redenção do mundo, “quando se completou o tempo previsto, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher (...), e todos recebemos a dignidade de filhos” (Gl 4,4-5). “Por amor de nós, homens, e para a nossa salvação, desceu dos céus e encarnou na Virgem Maria, por obra e graça do Espírito Santo”. Este divino mistério da Salvação nos é revelado e continua na Igreja, instituída pelo Senhor como Seu corpo; nela, os fiéis, aderindo à cabeça que é Cristo, e em comunhão com todos os santos, devem também venerar a memória “em primeiro lugar da gloriosa sempre Virgem Maria Mãe de nosso Deus e Senhor Jesus Cristo”. (LG).

CONTINUA...

Vinícius Aparecido de Lima Oliveira
Associado da Academia Marial de Aparecida
Editor-chefe do Projeto: O rosto Mariano do Brasil

Bibliografia:

1. ALVAREZ, Rodrigo – Maria: a biografia da mulher que gerou o homem mais importante da história, viveu um inferno, dividiu os cristãos, conquistou meio mundo e é chamada de Mãe de Deus – 1. ed. – São Paulo: Globo, 2015.

2. CONTEÚDO aberto. In: Wikipédia – Século I - Disponível em: . Acesso em: 08 fev 2021.

3. KRIEGER, Murilo S. R. SCJ. Com Maria, a Mãe de Jesus: mariologia para leigos / Dom Murilo S. R. Krieger. - Aparecida: Editora Santuário, 2017.

4. CONTEÚDO aberto. In: Editora Cléofas – A mais antiga oração de Nossa Senhora - Disponível em: < https://cleofas.com.br/a-mais-antiga-oracao-de-nossa-senhora/>. Acesso em: 08 fev 2021.

5. KRIEGER, Murilo S. R. SCJ. Com Maria, a Mãe de Jesus: mariologia para leigos / Dom Murilo S. R. Krieger. - Aparecida: Editora Santuário, 2017.

6. Uma leiga chamada Maria / organizado por João Carlos Almeida. – Aparecida,SP: Editora Santuário, 2019. 172 p.;14cm x 21cm.

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