Palavra do Associado

Itinerário da Paz: memória dos Santos Inocentes e súplica pela infância

Recordamos com fé os Santos Inocentes e pedimos, com Maria e José, que a infância seja protegida e a paz sustentada no mundo.

Escrito por Carmen Novoa Silva

28 DEZ 2017 - 16H22 (Atualizada em 17 SET 2025 - 09H49)

Reprodução

É costume na Espanha lembrar o dia 28 de Dezembro consagrado pelo cânon da Igreja Católica como dia dos Santos Inocentes, aquelas crianças que em Belém, segundo a bíblia, o rei Herodes mandou cortar em dois pela espada, aterrado com a ideia do recém-nascido da Manjedoura tomar-lhe o trono e assim cumprir-se a profecia de Isaías.

Assassinando os meninos de menos de dois anos, por certo um deles seria aquele a quem os reis magos, vindos do Oriente, procuravam como Rei e Salvador. Esse dia atualmente é comemorado como o dia da Valorização da Infância, como seres humanos cuja virtude ainda intocável pela mão adulta é o da inocência e da verdade sem véus. 


No dia 28 de Dezembro é escolhida uma delas e oferecem-lhe prerrogativas de autoridade. Exemplificando: O prefeito de cada cidade oferta as chaves da região e faz com que a criança tome posse simbolicamente do cargo.

Ela é selecionada por méritos no seu colégio. Investida da função, ordena e faz cumprir. Faz suas reclamações. Aponta falhas na administração. É o modo de evidenciar o crime histórico herodiano de que infantes eram despossuídos de valor.

Penso logo que isso aqui em Manaus não daria certo.

A primeira admoestação aos administradores públicos como, por exemplo, aos gastos exorbitantes com “superfluidades” logo surgiriam os acólitos para defender o excessivo gasto, a irresponsabilidade social, diante de uma parcela expressiva da população a viver em condição de miserabilidade, tendo a dieta do lixo (cascas, ossos e restos) como sua realidade cotidiana.

Na época do Menino, enquanto se executava o infanticídio, a Família de José já estava na Faixa de Gaza (essa mesma ainda tão tumultuada nos dias de hoje).

Gaza era território de Herodes, portanto, ainda corriam perigo. E José atreveu-se a adentrar no deserto rumo ao Egito à noite. Ninguém ousava atravessá-lo às horas noturnas. Saiam sempre pela manhã em caravanas. Era seguro. Mas os três foram sozinhos. No deserto. À noite.

Como enfrentaram os perigos da areia, a sede, encontrando pelo caminho — contam os historiadores — ossadas humanas e de animais mortos por esgotamento físico?

Não canso de falar que Gaza continua herodiana. Como uma maldição transpondo os séculos a dizer: “Aqui Deus-Menino não descansou em paz.”

Assim até hoje ali tudo é beligerante. A humanidade às vezes sente-se sozinha. No deserto. E à noite.


Por isso, neste primeiro dia do ano, considerado Dia mundial da Paz e da mãe de Deus (e especificamente 2015, considerado pelo Papa Francisco, o Ano da Misericórdia), cada um de nós, principalmente os manauenses, fazem o itinerário da paz.

Ali encontramos o lugar certo para exilar nossas aflições e abrigar todas as esperanças de uma Manaus-cheia-de-graça. Este poema e mais uma súplica para a contemporaneidade utilizando as figuras bíblicas da Família de Nazaré.

Intitulei-o de ITINERÁRIO DA PAZ. 

Falo: Mãe, que na fuga da fúria e espadas de Herodes,
envolvido em panos,/
apertavas contra o peito e salvavas teu mundo!
Se não for pedir muito, mãe!
(quando a humanidade retorna à barbárie).
Faz com José à frente,/
o itinerário da paz daquele Egito longínquo./
Com a segurança das mães benditas,
envolve em tecidos de luz a angústia do mundo.
Como se fora o Menino./
Aperta-o contra o peito.
Dá-lhe como benção suprema,/
o exílio do território inexpugnável de teus braços...


Fonte: Carmen Novoa Silva é Teológa e membro da Academia Amazonense de Letras e da Academia Marial de Aparecida - E-mail: novoasilva@yahoo.com.br

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