Por Martín Ugarteche Fernández Em Artigos Atualizada em 27 FEV 2020 - 10H15

Preciso provar a Deus que confio n'Ele?


Shutterstock/ Luis Molinero
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Para responder a esta pergunta, gostaria de falar brevemente de um livro que li  um tempo atrás e que me ajudou muito em minha vida espiritual. O livro é “Abraçou-o e o Cobriu de Beijos”, do Padre Marko Ivan Rupnik.

Ele faz uma interpretação da parábola do filho pródigo, da qual eu queria trazer para a nossa reflexão um momento em particular, quando o filho entra em si mesmo e começa a ensaiar o que irá dizer ao Pai: que não merece mais ser chamado seu filho e que, portanto, lhe pediria para aceitá-lo como um servo mais.

Redrabit/Shutterstock
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Sabemos o desfecho da história. O Pai nem sequer escuta o discurso do filho e prepara uma grande festa, porque seu filho estava morto e voltou à vida. O Padre Rupnik explica que no ensaio falido do filho pródigo se esconde, ainda, uma mentalidade que não entendeu a radicalidade da filiação que brota do nosso Batismo. Parece que o filho pródigo ainda acha que se encontra na posição de poder negociar com o Pai, de poder oferecer algo em troca, que o faça minimamente merecedor de voltar para a casa paterna, ainda que seja como um simples servo.
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Este tipo de postura do filho evidencia que, por um lado, não entendeu ainda que a filiação é um dom, um presente que ele não recebeu por algum merecimento prévio. Por outro lado, a verdade é que, considerando as coisas objetivamente, ele nem sequer merece a condição de servo do Pai.

Resumindo, nessas duas posturas implícitas no discurso ensaiado pelo filho pródigo, poderíamos dizer que ele se encontra ainda totalmente fora da lógica da filiação, da relação que o Pai tem com ele, antes mesmo que ele tivesse consciência dela.

Quiçá seja também esta incompreensão o que se encontra na base de uma pergunta como a que hoje nos ocupa. Achamos que precisamos provar alguma coisa a Deus, oferecer algo a Ele que nos torne, de alguma maneira, merecedores do seu amor de Pai (neste caso a nossa grande ou pequena confiança Nele).

Achamos, no fundo, que ainda podemos negociar com Ele de alguma forma, oferecer algo em troca do seu amor. Mas isto é algo sem sentido, que não tem nenhum fundamento na experiência. Pense na relação dos pais com os filhos. Os filhos são amados ainda quando estão no ventre da mãe. São queridos e esperados. O que eles fizeram para merecer isso? Nada.

Shutterstock/ Monkey Business Images
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São Tomás de Aquino, ao falar na Suma Teológica sobre a piedade filial, explica que se trata de uma forma imperfeita de justiça. Isto se deve ao fato de que não cumpre com a definição de justiça, que é a de dar (retribuir) ao outro o que é seu. Mas aos pais, a rigor, nós nunca poderemos retribuir o que eles nos deram: a vida.

Eles contribuem, com efeito, com a ação criadora de Deus, não só no momento da nossa geração, mas também por meio da educação desde a nossa tenra idade.

Quem nos cria e nos gera, no sentido mais profundo, é Deus: a raiz da nossa existência se encontra no amor infinito da Santíssima Trindade. Além disso, Ele nos oferece no Batismo, sem que nós tenhamos feito nada para merecê-lo, o dom da filiação. Depois do Pecado Original, Deus não oferece à humanidade um caminho para voltar à situação de Adão e Eva, mas sim algo ainda superior: sermos filhos Dele no seu Filho Amado Jesus Cristo.

Shutterstock/ Jesus Cervantes
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“A verdade é que não podemos propriamente retribuir nada a Deus, no sentido de ‘compensá-Lo’”.


O que precisamos é aceitar o dom recebido e deixar-nos amar e salvar por Ele, como filhos seus que somos. Recomendo a meditação do salmo 130, no qual o salmista expressa a atitude do humilde, que não tem projetos ambiciosos, que não eleva arrogante o seu olhar, mas que se abandona a Deus, como a criança no colo da sua mãe.

Trata-se de um exercício libertador, que não nasce de alguma fantasia ou imaginação, senão que se fundamenta no reconhecimento da nossa situação real: Deus nos criou por amor à Sua imagem e semelhança, e nos chamou, em Cristo, a sermos seus filhos adotivos, sem que nós tivéssemos feito nada para merecê-lo.

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Escrito por
martín ugarteche (Arquivo Pessoal)
Martín Ugarteche Fernández

Nasceu em Lima, Peru, no ano de 1978. É membro do Sodalício de Vida Cristã desde 1996. Desde 2001 mora em Petrópolis, na Comunidade Sodálite "Mãe da Reconciliação", onde desenvolve diversos projetos de formação e evangelização da cultura. É professor de filosofia na Universidade Católica de Petrópolis, onde leciona Ética, Lógica e Filosofia da Natureza.

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