Por Anna Laura Barreto Em Notícias

22 anos: Resgatar memória da tragédia do Carandiru impõe desafios atuais

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2 de outubro de 1992. Nessa data, uma intervenção da Política Militar mudou o destino de muitos jovens presos na Casa de Detenção de São Paulo, conhecida como Carandiru. Hoje, 22 anos depois do massacre, ainda é preciso resgatar a tragédia para repensarmos o sistema e a sociedade.

Dados oficiais apontam 111 mortos, mas os movimentos sociais e os familiares dos presos contestam os números, sugerindo que mais de 250 vidas foram perdidas. Segundo o relatório da Comissão Organizadora de Acompanhamento para os Julgamentos do Caso do Carandiru, dos mortos identificados, 51 tinham menos de 25 anos e outros 35 tinham entre 29 e 30 anos, sendo que 80% das vítimas ainda esperavam uma sentença definitiva da Justiça e apenas nove presos tinham recebido penas acima de 20 anos.

Para o padre José Ferreira da Silva, da Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Aparecida (SP), a juventude da época pode até ter ouvido sobre o massacre e visto o filme “Carandiru”, mas a realidade vai além. “A gente sabe que a extensão do Carandiru continua até os dias de hoje”, ressalta.

Em entrevista, o padre comenta sobre a tragédia, coloca sua reflexão sobre a redução da maioridade penal e faz críticas: “o nosso papel cristão não é encarcerar”. Confira:

Jovens de Maria - A atual geração dos “jovens de 20 anos”, não viveu de fato o massacre do Carandiru, que nessa semana completa 22 anos. Que olhar essa juventude deve ter para repensar a sociedade daqui pra frente?

padre_pastoral_carcerPe. José Ferreira - O massacre do Carandiru foi uma vergonha pública nacional e internacional. Causou um espanto e um choque em todo o Brasil e na imprensa mundial. Primeiro, sabemos que foi um massacre de jovens, de uma forma agressiva, desrespeitosa, que Direitos Humanos de lugar nenhum se comportaria calada diante de tal atitude. E, muitas vezes, o Brasil se calou. Isso foi muito triste. Eu lamento não o grito dos maus, mas o silêncio dos bons, porque nós temos que falar por quem não fala.

A gente sabe que a extensão do Carandiru continua até os dias de hoje. Não está se massacrando só dentro dos presídios, mas também fora. Os nossos jovens estão sendo jogados para a criminalidade, jogados para as drogas, para o abuso sexual, a prostituição. Nossos jovens são manipulados, não lhe são dados o direito de escolher o caminho, estão dando-lhes um caminho que é a morte, e não a vida.

Então, eu não tenho o Carandiru como um acontecimento que acabou, mas que se prolonga até os dias de hoje.

JM – Estamos em período eleitoral, quando muito se debate a questão da redução da maioridade penal. Essa medida deve ser considerada na atual situação social?

Pe. José Ferreira - Se o Estado não consegue cuidar nem dos que estão acima de 18, quem dirá se você for reduzir a maioridade penal para 15 ou 16 anos. O que se falta no Brasil hoje é uma política de prevenção social. E sobre a prevenção social você ouviu algum candidato, algum político falar?

Ninguém fala, porque é um investimento que você tem que fazer na base da família, da criança, do adolescente e do jovem. Não é você querer consertar as consequências que já é o mundo do crime, do abandono de si próprio, da falta de estrutura que atinge a juventude.

Isso é plano político, é projeto político para dizer que a lei está punindo, está sendo severa. De que adianta ter lei e não ter consciência de como formar e preparar a sociedade para a lei? A lei não é só para punir, ela tem que educar. E o nosso papel cristão não é encarcerar, nós queremos acabar com o cárcere. E se acaba com o cárcere mudando a consciência da sociedade, mudando a atitude dos nossos políticos, que precisam ver que não é só o clamor dos crimes que vai justificar uma redução da maioridade penal, ainda mais de crimes cometidos contra a elite; porque se morrem e se matam pobre todos os dias, e não tem clamor nenhum. Mas quando é da elite, isso clama por leis mais rigorosas ou por qualquer outra atitude de imposição.

fund casaEntão, nós estamos com os olhos fechados, vendados diante de certas situações. E os próprios políticos vendam nossos olhos e acabam nos convencendo de que tudo está bom, que quanto mais você encarcerar, quanto mais tiver Fundação CASA e penitenciárias, quanto mais tiver rota na rua matando, isso é solução. Mas nós promovemos a morte ou a vida? Quando você mata o jovem hoje, que futuro de sociedade você tem para amanhã? Que futuro de Igreja você tem para amanhã? Estamos perdendo a esperança de um país.

JM – Quais os primeiros passos para se recuperar a juventude?

Pe. José Ferreira - Primeiro passo da recuperação é a quebra de preconceitos. O segundo passo é acolher. Se os setores não acolhem esses jovens que querem reaver sua vida, você está jogando ele de novo para o mundo de onde ele saiu. Se os menores infratores estão sem base familiar, nós precisamos ser essa base, a sociedade precisa ser essa base. Se nós não formos essa presença de amparar, socorrer e dar a mão, nós vamos estar jogando de novo para as mãos do tráfico, da prostituição, da própria desgraça de onde ele veio.

Nós podemos oferecer a chance da justiça, dar o que ninguém deu. Se cada fizer a sua parte, se tivermos o bom senso de cumprirmos com a nossa missão de acolher, já estamos dando o primeiro passo para uma sociedade diferente.

 

"A força dos meios de comunicação acaba alienando a cabeça da juventude"

A força dos meios de comunicação acaba alienando a cabeça da juventude. Ela induz, leva a mente ao consumismo, a exploração, à ilusão, à fantasia. A ponto de fazer com que, quem não tenha acesso a isso acabe buscando por meios que vai destruí-lo.

Precisamos de meios de comunicação sérios, porque não adianta termos meios de comunicação que destroem. Precisamos de meios que instruam, esclareçam, ajudam e conduzam a sociedade por bons caminhos.

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