Registro de Terezinha de Jesus, a Tatá (ao centro) e Maria Mendes e Regina Maria na Rádio Aparecida. Foto: Rádio Aparecida.
A cultura das radionovelas se traduz como importante elemento da história do rádio no Brasil. Em seus 75 anos, a Rádio Aparecida criou e transmitiu grandes produções do gênero, encantando os ouvintes com narrativas envolventes e emocionantes.
A primeira radionovela brasileira é datada da década de 40. “Em busca da Felicidade” foi produção da Rádio Nacional. Na era de ouro do rádio, as radionovelas foram fundamentais para que a história do rádio brasileiro se configurasse. Elas estimulavam a imaginação dos ouvintes e projetaram uma série de atores que, posteriormente, migraram para a televisão. Em meados dos anos 60 e 70, com a chegada da televisão, o formato chegou ao fim e foi para as telas.
Tatá e as radionovelas na Rádio Aparecida
Na Rádio Aparecida, um grande nome dessa trajetória foi Iris de Castro Rosa, pseudônimo da famosa locutora Terezinha de Jesus, mais conhecida como Tatá. Ela escreveu dezenas de radionovelas, transmitidas, sobretudo, no horário da tarde, após a Consagração a Nossa Senhora.
“As radionovelas, de acordo com citação do livro ‘Rádio Aparecida 50 anos de história’ do Missionário Redentorista, Padre Gilberto Paiva, foi outro grande sucesso da Rádio Aparecida. Segundo a apresentadora Teresinha de Jesus Rosa Dias, a Tatá, por volta de 1956, as novelas já faziam muito sucesso entre os ouvintes. Naquela época, os textos eram comprados de autores do Rio de Janeiro, como Mário Lago, Aldo Madureira e Ivani Ribeiro, e interpretados por atores da própria Rádio. A partir de 1959, todas as novelas passaram a ser produzidas pela Tatá. (...) Tatá escrevia, pelo menos uma vez por ano, histórias que narravam a vida de santos da Igreja Católica”.
Algumas radionovelas ressaltavam o amor e fé a Nossa Senhora em produções como “Nossa Senhora - Rainha do Brasil” e “Nossa Senhora Aparecida - Mensagem de Fé e Esperança” que contam, com emoção, detalhes sobre a história de bênçãos e graças da Padroeira do Brasil. Outras são histórias românticas que tocavam os corações e envolviam os ouvintes que não queriam perder um só capítulo.
A produção das radionovelas exigia atenção e dedicação e por isso, uma grande equipe se dedicava na produção deste conteúdo que marcou a era de ouro do rádio no Brasil. O formato atravessou décadas, repercutindo até o início dos anos 90. Por volta dos anos 80 as produções decaíram e começaram a ser exibidas em ocasiões especiais. Durante a Semana Santa, por exemplo, por muitos anos, os ouvintes acompanhavam “Jesus, a terra, a cruz e o céu”, novela adquirida pela emissora, que iniciou veiculação entre as décadas de 60 e 70 e foi remasterizada pro digital no início dos anos 2000. Além de grandes sucessos que contavam até histórias de santos, havia também impacto direto na sociedade.
“O rádio brasileiro, de uma maneira geral, e nesse contexto a Rádio Aparecida, viveram um momento de grande importância, de grande força, de grande impacto na sociedade brasileira ao longo dos anos de 1950, recordando que a Rádio Aparecida foi fundada em 1951. E um dos grandes destaques da programação da Rádio Aparecida, e de outras grandes emissoras do Brasil também, era aquilo que se chamava um grande teatro de novela, ou grande novela R.A. que se falava, que era um programa que vinha perto da consagração. Então, as pessoas paravam para ouvir a radionovela, inclusive aquela tendência de não perder nenhum capítulo, até porque, sobretudo quando a novela ia caminhando para o seu final, vinha toda aquela emoção que depois, bem mais tarde, seria retomado pelas novelas da televisão. A Rádio Aparecida primou por grandes produções que ela colocou no ar, e aí merece destaque de um confrade redentorista, Padre Marino Plentz que trabalhou na Rádio Aparecida. Ele foi produtor de novelas, escrevia os roteiros e também dirigia várias produções, além também da nossa querida Tatá. Eu me recordo que, da primeira vez que eu trabalhei na Rádio Aparecida, no final dos anos 80 e início dos anos 90, inclusive cheguei a ajudar nos efeitos especiais, porque não se tinha efeito especial gravado, digital, como nós temos hoje, mas tudo era feito no ato, era feito no momento. Também me lembro que, naquele tempo, se produziu muitas novelas baseadas em vidas de santos, inclusive, cada santo redentorista teve uma novela sobre ele, como São Geraldo, São Clemente, Santo Afonso. Me recordo também do período da Semana Santa, que era um período muito propício para a apresentação de novelas, e era muito forte, ganhava muito audiência”, explica Padre Inácio Medeiros, Missionário Redentorista, que trabalhou na Rádio Aparecida por três vezes.
Não tem como deixar de falar das radionovelas sem destacar aqueles que trabalharam na produção destes conteúdos que fizeram sucesso. Na Rádio Aparecida, trazemos aqui o nome do Sr. Roberto Moreira Pedro, conhecido carinhosamente como Cigano, que trabalhou na emissora por mais de três décadas. “A gente gravava o pessoal, colocava os locutores no estúdio para gravar, os participantes do quadro da novela. Aí gravava as vozes deles. Depois a gente montava separadamente. Na época fazíamos os efeitos manualmente, como por exemplo o barulho de chuva, trovão, ventania. Se tivesse cavalo, a gente usava o coco, e fazia o barulho do cavalo. Para a chuva, usava fita, essas fitas que a gente usava antigamente para gravação. Tempos depois surgiam os CD's com os efeitos. Aí ficou mais fácil trabalhar. Mas quando começou a novela era tudo assim. O raio, por exemplo, era uma folha de zinco que batia para fazer o barulho de raio”, conta Cigano. Ele relatou também que a cada dia eram gravados um ou dois capítulos e muitas vezes terminava de montar um episódio que ia ao ar logo na sequência.
O clima nas gravações era tranquilo e a equipe bem entrosada, uma verdadeira família. Os locutores se apoiavam, inclusive nos erros de gravação, como nos relata Cigano: “Era como se fosse uma família, viu? Era tudo tranquilo, tranquilo mesmo. Um se comunicava com o outro, se o outro errava, eles davam risada. Aí você voltava a gravação de novo, mas ninguém ficava com raiva de ninguém. Todo mundo trabalhava unido”, destacou.
Em 2021, na comemoração dos 70 anos da Rádio Aparecida, houve a produção de “Corações em Sintonia”, escrita por Tiago Matina e Angélica Cristiani, que resgatou a história da Rádio Aparecida, mostrando sua importância na vida das pessoas. De forma emocionante, a narrativa abordou o entrelaçamento de duas vidas, dos personagens e da própria emissora.
“Por isso que, quando nós celebramos os 70 anos da Rádio Aparecida, nós criamos esta novela como uma finalidade de relembrar, de fazer memória daquele tempo do rádio, as primeiras décadas do rádio, de homenagear tantos profissionais que atuaram, seja na produção, na gravação, vozes. A Rádio Aparecida tinha, na época, um cast de vozes muito aprimoradas, que trabalhavam nas grandes produções de novela. Então, foi com esta finalidade, nós compusemos uma equipe, contratamos um diretor especialista na produção de novelas, formamos uma equipe de radioatores com pessoas da Rádio Aparecida, com pessoas buscadas fora também, e na época foi um sucesso”, enfatizou Padre Inácio, diretor da emissora à época.
Ouça a Rádionovela “Nossa Senhora - Rainha do Brasil”:
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