Por Joana Darc Venancio Em Brasil Atualizada em 15 OUT 2018 - 11H15

Dia do professor: Pela Esperança, há o que comemorar!

O Dia dos Professores é comemorado desde 15 de outubro de 1827, quando foi decretado o Ensino Elementar no Brasil por Dom Pedro I. O Decreto instituiu a criação das escolas de primeiras letras e deliberou sobre várias questões relacionadas à educação, aos professores, às práticas pedagógicas e aos conteúdos a serem ensinados.

Em 1947, o sistema escolar tinha um semestre muito extenso, o que fazia com que os professores ficassem estafados por trabalharem direto e sem folga. Foi neste contexto, que um grupo de docentes, liderados pelo professor Samuel Becker, organizou um dia de descanso, lazer e entretenimento na escola. O dia da confraternização ficou marcado para o dia 15 de outubro. Foi uma bela festa entre professores e alunos. Um dia de descanso para amenizar a estafa. Todos contribuíram, levando guloseimas para o lanche.

Esse dia de confraternização passou acontecer todos os anos. No entanto, em 1963, foi decretado pelo Presidente João Goulart, o feriado do Dia do Professor. O Decreto Federal 52.682, de 14 de outubro de 1963, legislou: “Para comemorar condignamente o Dia do Professor, os estabelecimentos de ensino farão promover solenidades em que se enalteça a função do mestre na sociedade moderna, fazendo participar os alunos e as famílias”.

Após 70 anos do primeiro dia dos Professores e 54 anos do decreto, ainda convivemos com a situação de estafa dos professores. Ouvindo e consultando a eles, pessoalmente ou pelas redes sociais, encontrei professores necessitados de refazerem as energias, o encantamento, a disposição e a esperança. Ao serem indagados, fica clara a dificuldade de responderem se há ou não o que comemorar no Dia dos Professores. Muitos são os fatores que levam dizer não e muitos também são os fatores que levam dizer sim. No entanto, as respostas, sendo sim ou não, a duas questões, são intensas. A primeira: os professores reconhecem que têm uma bela e singular missão! A segunda: Os professores também reconhecem que estão assoldados pelo desencanto e pela desesperança!

Quais os motivos para o desencanto e para a falta de esperança? A banalização da profissão, a desvalorização salarial, jornada dupla (ou tripla), a indisciplina dos alunos, a falta de apoio social... Muitos professores estão abalados emocionalmente e caem no estresse e na desesperança que os jogam na depressão. Alguns professores não conseguem lidar sozinhos com tais situações e se esgotam. Muitos diagnosticados com Síndrome de Burnout. Sem resgatar a esperança, o vazio interior se estabelece e aniquila a disposição.

O Papa Bento XVI, na Carta à Diocese e à cidade de Roma sobre a tarefa urgente da formação das novas gerações (2008), ensina: “(...) alma da educação, como de toda a vida, só pode ser uma esperança certa. Hoje a nossa esperança está sendo insidiada, traída de muitas partes e corremos o risco de nos tornarmos, também nós, como os antigos pagãos, homens 'sem esperança e sem Deus neste mundo', como escrevia o apóstolo Paulo aos cristãos de Éfeso (2, 12). Precisamente daqui nasce a dificuldade, talvez mais profunda, para uma verdadeira obra educativa: na raiz da crise da educação está, de fato, uma crise de confiança na vida.

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Apesar de toda angustia que têm com sua própria condição, é a realidade do aluno um dos grandes dilemas dos professores que acreditam no seu papel e lugar. Eles lidam, todos os dias, com realidades humanas muito tristes. Os alunos são carentes de muitas coisas no campo material, emocional, afetivo. Os professores, conscientizando-se e envolvendo-se com a realidade específica do aluno, deparam-se com a incapacidade diante de tais sofrimentos e se desestruturam por não conseguirem dar conta da mudança desta realidade.

Sendo o cenário de sua atuação tão conflituoso e complexo, os professores, no imediato da análise passional, podem responder que não há o que comemorar. No entanto, em meio às trevas, há luz. Ao compreenderem que têm uma bela e singular missão, os professores iluminam as próprias trevas e alimentam a chama que ainda fumega. “Não esmagará a cana quebrada, e não apagará o pavio que fumega, até que faça triunfar o juízo” (Is 42, 3).

Temos o que comemorar?
Alguns depoimentos podem manter o pavio acesso e iluminar os professores que estão desanimados

“Há mais alegria por uma ovelha que é encontrada do que pelas outras 99 que ficaram no rebanho.
As raridades em meio às tempestades é motivo suficiente pra comemorar.
 Nós professores temos o Melhor Mestre...”
(Prof. Rivelino de Sousa Oliveira)

“Sim. A resistência que representamos!
Somos a última barricada à barbárie”.
(Profª Sandra Maria Pinheiro Ornellas)

“Temos sim, apesar dos pesares. Ainda existem profissionais dedicados e conscientes da sua profissão, independentemente de ser ou não valorizados.
A minha homenagem mais do que especial, vai a Helley de Abreu Silva Batista, professora da creche, que após um ataque cruel perdeu a vida para salvar dezenas de crianças. 
Mesmo com o corpo queimado ela voltava para dentro da creche com o intuito de salvar mais vidas” .
(Profª Carmelita Cruz)

“Temos que comemorar a esperança de que ainda conseguimos fazer a diferença e que sem nós, a sociedade estaria pior.
Comemorar é acreditar que mesmo que seja difícil, ainda faz a diferença e pode ser o exemplo de boas atitudes na sociedade.
Mesmo que não consigamos atingir todos, mudamos pelo menos um e que estará fora da violência no mundo” .
( Profª Julia Cristina Nascimento Bravim)

“Se, sobrevivemos até aqui, temos o que comemorar sim e muito!
Aleluia, porque a luta continua!”
(Profª Tatiana Monteiro Farias)

“Temos muitas coisas que não nos levam a comemorar,
mas temos a vida, a esperança em Cristo de que um dia muitas coisas irão mudar, o que nos leva a comemorar.
Sou feliz por ter a vocação de ser uma educadora”.
(Profª Regina Martins Rodrigues)

“Não podemos desacreditar.
Dedicamo-nos: esta luta é nossa. Amamos a profissão”.
( Profª Luana José dos Santos Borges)

“Temos sim! O amor, a paciência, a sabedoria.
Nós professores temos uma meta no começo do ano, que é chegar ao final e descobrir que conseguimos atingir o objetivo.
Só felicidade e agradecer a Deus!”
(Profª Zita Mônica Variz)

“Sim, nossa resiliência em manter-nos na proposta de sermos mais do que as circunstâncias nos permitem realizar.
Não podemos nos quedar diante do descaso público.
Quem tem de se envergonhar são os governantes, que passaram por salas de aula e aprenderam com seus professores a fazerem o que é certo.
Comemoremos por nós mesmos, nossa lida não é vã.
Não ignoremos toda a problemática que há no contexto educacional e gritemos, reclamemos, denunciemos, mas jamais deixemos de fazer o que precisa ser feito.
 A profissão de professor é honrosa e honrada.
Um dia, seremos reconhecidos, mais do que com palavras, mas com o devido salário, condições e apoio do Poder Público da Sociedade e na Unidade e União entre nós”.
(Professor/Pastor Claudio Da Glória Santos)

Leia MaisEducação para a Verdade e para a EsperançaFormar pessoas sólidas: o grande desafio da EducaçãoEducação Afetiva: “façais também vós”É pertinente lembrar que o contexto que envolve os professores é o mesmo que envolve toda a sociedade. Estamos passando por crises econômicas e políticas, mas também vivenciamos uma grave crise ética e moral. Uma crise de valores e de desencantamento, da ausência da esperança.

O Papa Francisco, na Audiência Geral, de 20 de setembro de 2017, disse: “... O mundo caminha graças ao olhar de tantos homens que abriram frestas, que construíram pontes, que sonharam e acreditaram; mesmo quando ao seu redor ouviam palavras de escárnio (...) Os homens que cultivaram esperanças são também aqueles que venceram a escravidão e levaram melhores condições de vida sobre esta terra. (...) E cada dia, peça a Deus o dom da coragem. Lembre-se que Jesus venceu por nós o medo. Ele venceu o medo! O nosso inimigo mais difícil não pode nada contra a fé”.

Assim como na origem do Dia dos Professores, é preciso buscar alternativas para que os professores sejam aliviados do fardo. Não do fardo de ser professor, pois não é fardo, mas benção! Porém, aliviar o fardo de ser desumanizado e de ver minimizada sua honrosa profissão.

Como Santa Tereza D’Ávila, a Grande Doutora da Igreja e Padroeira dos Professores, possamos nos lembrar uns aos outros na hora da angústia e da falta de esperança:

“Nada te perturbe, nada te assuste, tudo passa. 
Deus não muda. A paciência tudo alcança. 
Quem a Deus tem nada lhe falta. Só Deus basta!”


Escrito por
Joana Darc Venancio (Redação A12)
Joana Darc Venancio

Pedagoga, Mestre em educação e Doutora em Filosofia. Especialista em Educação a Distância e Administração Escolar, Teóloga pelo Centro Universitário Claretiano. Professora da Universidade Estácio de Sá. Coordenadora da Pastoral da Educação e da Catequese na Diocese de Itaguaí (RJ)

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