Cada vez mais vemos como nossas ações no meio digital podem impactar de forma séria a vida de outras pessoas. E é muito comum que ações polarizadas ganhem cada vez mais força e esse impacto seja ainda maior.
Nesta semana, a Universidade de Oxford divulgou um estudo que destaca a palavra do ano, que desta vez foi o termo “rage bait”, que no sentido literal significa “isca de raiva”. Que nada mais é do que “laçar a isca” indignação com intenção de provocar interações carregadas de “raiva”.
Padre Arnaldo Rodrigues, assessor da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), explicou em um artigo para o Vatican News, o que é o rage bait:
“É uma estratégia de conteúdo muito comum nas redes sociais em que alguém publica algo a fim de provocar raiva, indignação ou irritação, de propósito, para gerar engajamento rápido. A pessoa posta algo absurdo, polêmico, ofensivo ou provocativo. Esse tipo de postagem desperta raiva ou indignação, levando as pessoas a comentar, xingar, compartilhar e dizer: “olha isso!”. Ao reagir assim, o usuário acaba alimentando a circulação do próprio conteúdo que condena. O objetivo é fazer você morder a isca, reagindo emocionalmente. A raiva se torna combustível para o algoritmo e, consequentemente, gera engajamento e até lucro para quem criou a estratégia.”
Mas se temos a consciência de como essa ação acontece, por que não acabamos logo com essa cultura? A resposta está na dificuldade de lutar contra as próprias plataformas, que valorizam interações fortes e, quando publicamos algum questionamento, acusação ou algo que instiga a raiva no outro, logo o outro vai comentar e fazer a ação que o algoritmo de cada plataforma espera receber.
“O fenômeno do rage bait se tornou comum porque a lógica das plataformas valoriza interações fortes, e a raiva é uma das emoções que mais acelera a circulação de conteúdo. A lógica algorítmica é simples: se está rendendo comentários, deve ser interessante. Mas os algoritmos não avaliam se o conteúdo é bom ou destrutivo. A raiva acelera respostas, impulsiona compartilhamentos e cria um ciclo de retroalimentação”.
Tudo isso contribui para a polarização, maior compartilhamento de fake news e ainda fortalece a cultura do cancelamento. O Padre ainda explicou que, do ponto de vista psicológico, “o rage bait explora o mecanismo do negativity bias, segundo o qual o cérebro dá mais atenção ao negativo do que ao positivo”.
Já no ponto de vista da comunicação, a ação reforça uma “dinâmica performativa”, que gera uma competição entre as pessoas, para ver quem reage ou expõe seu pensamento mais rápido e consequentemente ganha mais ”curtidas”.
O assessor da CNBB pontuou também que, analisando pelo contexto eclesial e pastoral, “isso é especialmente perigoso: transforma o diálogo em confronto, a evangelização em disputa e a verdade em arma retórica”.
De acordo com o Padre, é preciso compreender que não se pode agir impulsivamente, no momento da raiva ou na sede de querer sair na frente dos outros. Enfatizando que “indignação não é discernimento”.
“O Papa Francisco afirmou que a melhor forma de combater tecnologias desonestas é incentivar o pensamento crítico. Precisamos educar para a cultura da serenidade, da análise e da verificação”.
Pe. Arnaldo reforçou que é preciso saber quem somos e como deve ser a nossa comunicação, principalmente como cristãos.
“Se o rage bait se alimenta de ódio, a comunicação cristã se alimenta de verdade, diálogo, misericórdia e responsabilidade (...) A fé, o discernimento e a empatia nos convidam a quebrar o ciclo da provocação, oferecendo uma presença diferente nas redes: uma presença que escuta e constrói pontes. Não se trata de ingenuidade, mas de compromisso com uma cultura digital mais humana e menos reativa, na qual a palavra, mesmo no ambiente online, continue sendo instrumento de vida, e não de manipulação”.
E finalizou citando as palavras de Papa Leão XIV:
“Desarmemos a comunicação de todo preconceito, rancor, fanatismo e ódio; purifiquemo-la da agressividade. Não precisamos de uma comunicação estrondosa e muscular, mas de uma comunicação capaz de ouvir, de acolher a voz dos frágeis que não têm voz. Desarmemos as palavras e ajudaremos a desarmar a Terra. Uma comunicação desarmada e desarmante permite-nos partilhar uma visão diferente do mundo e agir de modo coerente com a nossa dignidade humana.”
Fonte: Vatican News
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