Por Eduardo Dalabeneta Em Espiritualidade

Simplesmente Edith Stein

Foto de: reprodução

Uma das fotos mais realistas de Edith Stein tirada durante a época que viveu em Espira

Uma das fotos mais realistas de Edith Stein
tirada durante a época que viveu em Espira, na Alemanha.

Nestes dias do mês de agosto existe uma constelação de pessoas fascinantes que testemunham a fé de modo emblemático: Rosa de Lima, Lourenço, Clara de Assis, Afonso Maria de Ligório... Neste dia 9 de agosto fazemos memória de uma mulher que pouco a pouco vai se tornando mais conhecida dos brasileiros: Edith Stein (ou Teresa Benedita da Cruz).

A vida de Edith Stein é como uma imensa tapeçaria: muitos são os fios que juntos trançados dão forma e revelam seu rosto fascinante e muitos são os “nós” que registram as suas decisões e escolhas que nos desconcertam.

Nascida em 12 de outubro de 1891, em Breslau, Alemanha (atual Woclaw, Polônia), numa família judia, ingressa na universidade em 1911 num tempo que poucas mulheres empreendiam estudos universitários. Ocupa-se primeiramente com filosofia/psicologia, história e germanística. Seu interesse pela filosofia levou-a para Gotinga (1913) ao encontro de Edmund Husserl, um importante filósofo da época e fundador da Fenomenologia. Se já era impressionante o fato de ir à universidade, ela ousa ainda mais se doutorando em Filosofia com Husserl, em 1916, com a tese O problema da empatia. Procura em seguida ser professora universitária, mas todos os seus pedidos são negados pelo fato de ser mulher.

Nesse período participa vivamente da vida de seus colegas de estudos e fica impressionada com o testemunho de fé e de profunda autenticidade destes, num tempo em que sua vivência de fé judaica havia desaparecido e a questão de Deus lhe era indiferente. Estes testemunhos a impulsionaram novamente ao mundo da fé a ler vários autores cristãos (Agostinho, Inácio de Loyola).

Por causa desses testemunhos, dessas leituras e de sua autêntica busca da verdade, Edith faz uma profunda experiência de Deus (1921) e ingressa na comunidade cristã católica em 1922. Passa a estudar Santo Tomás de Aquino e outros filósofos católicos e trabalha como professora no Colégio Santa Maria Madalena das irmãs dominicanas em Espira. Ainda outra vez intenta seguir com a carreira universitária, mas outra vez recebe “não”. Começa a dar aulas no Instituto de Pedagogia Científica em Münster em 1932.

Com a ascensão do Nazismo, onde todos de origem judia foram retirados dos cargos públicos, Edith foi obrigada a abandonar essas aulas. Ingressou no carmelo descalço de Colônia em 1933 segundo um antigo desejo, desde o dia de sua conversão quando leu a biografia de Teresa D’Ávila, e em 1938 faz sua profissão perpétua com o nome de Teresa Benedita da Cruz. Com o avanço do Nazismo na Alemanha, foi transferida para o carmelo de Echt, na Holanda (invadida também em 1941). Em dois de agosto de 1942, Edith Stein foi presa dentro do Carmelo e levada para o Campo de Concentração de Auschwitz-Birkenau juntamente com sua irmã Rosa.

Nesse período, o Nazismo iniciou os testes para o assassinato por meio de asfixia e sufocamento. Para isso, usaram duas pequenas casas no meio de uma floresta no campo de concentração de Birkenau (a pequena casa branca e a pequena casa vermelha). Acredita-se que Edith e sua irmã morreram sufocadas na pequena casa branca e seus corpos foram lançados numa vala comum em seguida. Em 1962, iniciou-se o processo de beatificação, que se concretizou em maio de 1987 com a celebração presidida por São João Paulo II. A canonização de Edith Stein deu-se a 11 de outubro de 1998, em Roma.

Ruínas da pequena casa branca onde Edith Stein e sua irmã morreram.
Ruínas da pequena casa branca onde acredita-se que Edith Stein e sua irmão morreram sufocadas. 

O rosto que aparece nesta tapeçaria mostra que Edith Stein é ainda um mistério porque escapa dos modelos tradicionais de mulher, de professora, de pesquisadora, de religiosa consagrada, de santidade. Dizemos ser um mistério porque são diferentes os caminhos que fazem as pessoas se aproximarem dela: Edith Stein tem o dom de fascinar e cativar as pessoas, sejam elas cristãs ou não, estudiosos, pesquisadores, mães, pais, jovens,...

E porque ela atrai tanto?

Se pusermos os títulos, a santidade, a sua intensa biografia, seus trabalhos como auxiliar de Husserl e professora, as mais de cinco mil páginas de seus escritos agudos, rigorosos e profundos entre parênteses, sobra diante de nós simplesmente Edith Stein e seu olhar, um olhar que não fica preso na superfície, mas que avança à profundidade, que nos ajuda a tomar consciência da nossa singularidade e ensina que devemos viver em comunidade... Ela é alguém a quem temos coragem de dizer: “Ela é minha irmã!”. Quem se aproxima dessa mulher vai descobrindo pouco a pouco que o sentido da vida está em olhar nos olhos (os steinianos são aqueles que aprendem olhos nos olhos!) e que esta decisão põe-nos em marcha no labirinto da vida até chegar ao Mistério.

Essa simplicidade de Edith Stein é desconcertante nesse nosso tempo onde buscamos e pretendemos “juntar” o máximo possível e nos sufocamos com tantas dispersões e penduricalhos: é preciso “perder” para “ganhar”!

Eis o seu conselho e que ele seja nosso alimento espiritual neste dia:

Sei muito bem que isso pode parecer para alguns um desejo radical demais. Na prática significa para a maioria dos que começam uma mudança na vida interior e exterior. E isto é o que precisamente deve ser! Em nossa vida temos de abrir espaço para o Salvador eucarístico, para que Ele possa transformar nossa vida em sua. Será isso pedir demais? Se temos tempo para tantas coisas supérfluas, para ler muitos livros, revistas e diários sem muita utilidade, para passarmos horas nos Cafés, quinze minutos ou meia hora de conversas na rua [...] Da satisfação própria de um ‘bom católico’ que cumpre com suas obrigações, que lê um bom jornal, que faz escolhas certas, porém, que sempre faz aquilo que gosta, há ainda um longo caminho para começar a viver nas mãos de Deus, com a sensibilidade de uma criança e a humildade de um publicano. Sem dúvida, quem começou a andar nesse caminho jamais o abandonará (Edith Stein, O mistério do Natal).

Eduardo Dalabeneta
Graduado em Teologia pela Faculdade Dehoniana, Taubaté/SP e com formação filosófica pela Faculdade São Luiz, Brusque/SC; Professor no UNISAL – Centro Universitário Salesiano de São Paulo – Pio XI, São Paulo/SP, e na Faculdade Dehoniana, Taubaté/SP; Mestre em Teologia pela PUC-SP com uma dissertação sobre o tema “O pensamento litúrgico de Edith Stein”; Doutorando em Filosofia na UNIFESP - Universidade Federal de São Paulo com uma tese sobre a origem da palavra na filosofia de Edith Stein; Membro do grupo de pesquisa "O pensamento de Edith Stein" na UNIFESP e do "Grupo de trabalho - Edith Stein e o Círculo de Gotinga" da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia.

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