No caminho sinodal somos chamados à comunhão, participação e missão. E quando falamos em sinodalidade, é nosso dever pensar de forma horizontal, olhar para nossos irmãos e ter a preocupação em chamá-los para realmente caminhar juntos.
O trabalho da Pastoral Carcerária é uma expressão concreta de uma Igreja que caminha com o povo de Deus, sobretudo com aqueles que se encontram privados de liberdade e, muitas vezes, esquecidos pela sociedade.
O A12 entrevistou a religiosa da Congregação das Irmãs Missionárias de Cristo, formada em direito, com especialização em direitos humanos e direito penal e processo penal, a Coordenadora Nacional da Pastoral Carcerária, Ir. Petra Silvia Pfaller, que nos ajudou a compreender melhor o trabalho da Pastoral Carcerária.
“A missão central da Pastoral Carcerária Nacional é ser presença da Igreja junto às pessoas privadas de liberdade, seus familiares e também junto aos policiais penais e demais servidores do sistema prisional, testemunhando o amor misericordioso de Deus nos lugares de maior exclusão. Inspirada no Evangelho: “Eu estava preso e fostes me visitar” (Mt 25,36), sua missão se sustenta em dois pilares inseparáveis: evangelização e promoção da dignidade humana.
Evangelizar, nesse contexto, não é apenas anunciar palavras, mas tornar visível a Boa-Nova de Jesus Cristo por meio da presença, da escuta e do cuidado. Promover a dignidade humana é afirmar que toda pessoa, independentemente do crime cometido, continua sendo imagem e semelhança de Deus. À luz da Palavra “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10), a Pastoral proclama que a vida em abundância é para todos, inclusive para quem está no cárcere.
Assim, no contexto da Igreja e da sociedade, a Pastoral Carcerária é sinal concreto de uma Igreja que não abandona seus filhos e filhas mais vulnerabilizados, sendo presença amorosa e profética nos ambientes de sofrimento e exclusão.”
Ser sinodal é escutar, discernir e agir coletivamente, e é dessa maneira que a Pastoral busca aproximar-se das pessoas encarceradas, ouvir suas dores e esperanças, defender sua dignidade e promover a justiça restaurativa e a cultura de paz.
Ir. Petra explicou que a pastoral atua em diversas frentes:
“A Pastoral Carcerária compreende que justiça e paz caminham juntas. Não há paz sem justiça, e não há justiça quando a dignidade humana é violada, pisoteada. Por isso, trabalha para que o sistema penal respeite pelo menos os direitos fundamentais e para que a sociedade compreenda que encarcerar cada vez mais não resolve a violência. E por isso trabalha sem parar ‘o sonho de Deus: um mundo sem cárceres’,” explicou a coordenadora.
Ao perguntarmos quais são, hoje, os principais desafios de Justiça e Paz presentes no sistema prisional brasileiro segundo a perspectiva da Pastoral, Ir. Petra nos conta sobre as superlotações em presídios, a exclusão, a falta de investimentos em políticas sociais, entre outros pontos importantes.
“Um dos maiores desafios é a lógica de uma justiça predominantemente punitiva e vingativa, que aposta no encarceramento em massa como resposta aos problemas sociais e controle das pessoas mais periféricas e vulneráveis. O resultado é o aumento constante da população prisional, sem redução proporcional da violência. Ao contrário, o sistema superlotado e desumano frequentemente reproduz e amplia ciclos de violência.
A Pastoral Carcerária denuncia que o cárcere não ressocializa, mas aprofunda exclusões. Falta investimento em políticas sociais, educação, moradia, lazer e cultura, saúde mental e oportunidades de trabalho, dentro e fora do cárcere. Sem essas dimensões, a promessa de uma sociedade mais humana, fraterna, solidária, torna-se ilusória e inviável.
Por isso, a Pastoral Carcerária defende alternativas penais, práticas restaurativas e políticas públicas que enfrentem as causas estruturais da violência que em nosso tempo é institucional. Acredita e apoia uma justiça que reconstrua vidas e trilhe caminhos de diálogo social, valorização das pessoas como primeiro bem do tecido social.”
Ela também destacou as principais dificuldades que a Pastoral enfrenta para promover a justiça restaurativa e a dignidade humana.
“Entre as principais dificuldades estão:
A cultura 'punitivista', enraizada na sociedade e alimentada pelas redes e os meios de comunicação, por meio do sensacionalismo e preconceito.
O aumento às restrições perante a assistência religiosa, ter acesso à pessoa presa e fazer um acompanhamento religioso com dignidade, direito da pessoa presa.
A resistência institucional a práticas restaurativas.
Falta de políticas públicas que ofereçam trabalho e oportunidades a quem sai da prisão.
Escassez de espaços de acolhimento para egressos e egressas. Poucas pessoas dispostas de assumir um compromisso como agentes das Pastoral Carcerária.
Sem trabalho e oportunidades concretas, justiça e paz tornam-se frágeis. Sem uma atitude de acolhida concreta e atenção para as vulnerabilidades sociais, econômicas e pessoais por meio de políticas públicas efetivas, o compromisso da sociedade em superar desigualdades sociais, não teremos um mundo onde todo o ser humano poderá viver em paz e harmonia.”
Ir. Petra contou sobre sua experiência pessoal dentro da Pastoral e como isso moldou sua compreensão de justiça, paz e sinodalidade.
“A vivência na Pastoral Carcerária revela que justiça não é vingança, mas caminho de restauração. A escuta das histórias de sofrimento, abandono e exclusão transforma a compreensão sobre o que significa paz. Paz não é silêncio imposto, mas fruto de relações restauradas, de caminhar juntos assumindo os desafios de uma realidade complexa para encontrar meios e respostas que satisfaçam as necessidades individuais e coletivas.
Essa experiência evidencia o chamado à sinodalidade, tão enfatizada pelo Papa Francisco: caminhar juntos, ouvir todos, especialmente os que estão nas periferias existenciais. O cárcere é uma dessas periferias. Uma Igreja sinodal não fala apenas sobre as pessoas presas e seus familiares, mas caminha com eles, aprendendo com suas dores e resistências.”
A Coordenadora Nacional da Pastoral Carcerária explicou como a Pastoral coloca a escuta das pessoas privadas de liberdade no centro de sua atuação.
“A escuta é a principal ferramenta da evangelização na Pastoral Carcerária. Antes de falar, é preciso ouvir. Ao escutar, a Pastoral Carcerária reconhece a pessoa como sujeito de sua própria história. A escuta atenta permite conhecer a realidade concreta, as feridas, os medos e também os sonhos.
Somente a partir da escuta é possível iluminar a vida com a Palavra de Deus, que não é imposição, mas anúncio de esperança. Escutar é um ato profundamente evangélico e restaurativo: devolve dignidade, rompe o isolamento e constrói pontes. Esta foi a ação profético-revolucionária de Jesus: colocar a pessoa no centro, para, em seguida, assumir sua responsabilidade no presente e futuro de sua existência.
A Igreja, presente no cárcere torna-se, assim, sinal visível e amoroso de Deus, comprometida com a vida, especialmente a vida dos mais vulnerabilizados. Justiça e paz só serão efetivas quando abraçarem a dignidade humana, quando houver trabalho, oportunidades e acolhimento para quem retorna à sociedade. Sem espaços de acolhida e compromisso concreto, todo esforço se torna vazio.
A Pastoral Carcerária testemunha que a vida em abundância é promessa para todos, inclusive para aqueles que estão atrás das grades, porque Jesus nunca condenou, apenas amou até o extremo de doar a sua vida.”
A Pastoral Carcerária testemunha uma Igreja que não se distancia das periferias existenciais, mas foca na missão de evangelização e transformação no lugar em que ela precisa chegar. Nesse espaço, o exercício da sinodalidade se torna gesto profético de acompanhar, dialogar e caminhar junto. Assim, a Pastoral não apenas anuncia o Evangelho, mas também encarna seu chamado à misericórdia e à defesa da dignidade humana.
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