Por Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R Em História da Igreja Atualizada em 21 SET 2017 - 09H39

História da Igreja na América Latina: O que se entendia por evangelizar?

PÁGINAS DE HISTÓRIA DA IGREJA AMÉRICA LATINA
Parte – 21
 

O que se entendia por evangelizar? 

Os europeus chegaram ao continente que hoje é chamado de América Latina em fins do século XV e início do século XVI. Aqui chegando, encontraram povos e tribos indígenas que há séculos ocupavam estas terras. Entre estes povos haviam algumas civilizações de alta cultura, comparável aos povos existentes no Oriente Médio durante a Idade Antiga. Entre eles contam-se os maias, os astecas e os incas. Outros povos estavam num estágio de civilização muito semelhante à Idade da Pedra, pois não conheciam ainda o ferro, apesar de serem muito bem adaptados ao meio em que viviam.

Primeiramente estes povos foram submetidos a um processo duríssimo de conquista e subjugação. Depois passaram a ser explorados como mão de obra abundante nas minas e nas plantações. Mas a todos devia chegar a luz do Evangelho através dos missionários que para cá vieram, sejam eles das ordens religiosas ou do clero secular.

Aqui já podemos falar dos métodos de evangelização que foram utilizados, sobretudo, no período que nós conhecemos como tempo da colonização.

povos indigenasAinda hoje a América Latina tem 852 povos indígenas que precisam ser evangelizados.

Métodos de Evangelização

Quanto aos valores da cultura indígena existiam duas correntes entre os evangelizadores. A primeira tendia a reduzir os índios a “Tabula Rasa”, recomeçando tudo do princípio, esquecendo completamente os valores de sua cultura. A segunda procurava descobrir alguns valores que fossem como que uma preparação ao Evangelho.

Alguns historiadores afirmam que os evangelizadores do século XVI tiveram mais a atitude de um exorcista do que de um bom samaritano. Porém, dentro de uma mesma ordem havia atitudes diferentes. Em geral havia uma visão pessimista do índio e depreciava-se tremendamente a sua capacidade espiritual e mesmo sua inteligência. A grande preocupação era a de prepará-los bem para receber os sacramentos, sobretudo, a comunhão. E, claro, para isso, uma das condições era a de se colocar roupa no índio para cobrir as suas “vergonhas”.

Aos poucos surgiu, entretanto, a consciência de que se devia preservar os costumes que não iam contra o Evangelho e criticava-se o atropelo e a pressa no seu processo de conversão. Porém, não podemos nos esquecer que naquele tempo evangelizar significava "europeizar", ou seja, impor as cores da cultura e da religião nos moldes bem europeus, a começar da língua latina.

Os missionários preocuparam-se bastante em suprimir as formas de idolatria, apresentando uma visão autêntica de Cristo. Neste ponto, notava-se uma grande maneabilidade em aceitar as verdades do Evangelho por parte dos índios, pois a sua receptividade era alta e também pode-se falar de sua capacidade religiosa e apostólica, pois muitos tornam-se catequistas, havendo aqueles que emigravam a outras tribos a fim de trabalhar na sua evangelização.

Por este tempo começa-se a discutir a incapacidade dos indígenas para o Ministério Sacerdotal, coisa que em parte permanece até nos dias de hoje.

E é claro que, toda a evangelização somente seria garantida por um grupo selecionado de missionários. Aqui merece realce os trabalhos das ordens religiosas, pois sua ação era muito menos comprometida com os colonizadores.

Os Concílios Provinciais do México (1555, 1565 e 1585) e de Lima-Peru (1551/52, 1567/68 e 1582/83) confirmaram as qualidades de que devia ter um bispo e os cuidados na escolha dos sacerdotes que viriam a trabalhar com os índios e quais deviam ser as suas principais qualidades. 

Foto de: reprodução. 

Igreja

A evangelização fez da América Latina um continente
genuinamente católico.

O problema das línguas

Os concílios realizados na América ordenaram que os sacerdotes deviam conhecer a língua daqueles que evangelizariam.

Quanto aos Métodos de Evangelização propriamente dito:

- Diante da situação absolutamente nova, a primeira tentativa foi reeditar o método apostólico usado na Península Ibérica em todos os seus aspectos.

- Sacramentalização. No fim do século XVI as mais, importantes civilizações das Américas já estavam batizadas. Tudo se contava aos milhares porque o batismo era considerado o termômetro da fé. Um missionário chegou a afirmar que ele, num só dia, batizou 10 mil índios.

- Tanto a legislação civil, como a eclesiástica insistiam para que não se forçassem os indígenas à fé e ao batismo, mas isso quase nunca acontecia.

- Aqui também, como acontecera entre os povos germânicos da Idade Média, aconteciam as conversões e batismos de massas.

- A catequese quase sempre consistia num processo de introdução catecumenal.

- O Concílio de Trento já havia prescrito a obrigação da pregação e isso valia também para as colônias.

- Aos poucos vão se produzindo cartilhas, livros e catecismos (doutrinas), mas o Concílio do México insistiu na sua unificação para evitar confusão.

Crítica dos métodos evangelizadores

Ressalta-se a importância dos Concílios do México e Peru e do Sínodo de Santa Fé, destacando-se a necessidade de unificação e harmonização dos métodos de catequese. 

Características da Evangelização

Aos poucos cresceu muito a importância das “Doutrinas” que eram núcleos e ambientes de evangelização, quase como uma encomienda ou reducion assistida por um sacerdote. No começo havia uma reducion (aglomerado) de índios, dos quais a maioria ainda não havia recebido o batismo. Aos poucos a ação evangelizadora vai modificando-a em “doutrinas”. Ao redor existiam populações filiais que eram visitadas ao menos uma vez ao ano.

Aqui entendemos bem a função evangelizadora da liturgia e do culto. As procissões com a música das orquestras ou “bandas”, as representações teatrais, os ritos sacramentais e todo o aparato exterior atraíam as pessoas, sejam os nativos como os colonizadores. Neste momento a pregação introduzia a todos na doutrina e nas verdades cristãs.

Havia sempre o lugar central do templo nas aldeias, nos povoados e nas vilas e cidades que foram surgindo. Isso ainda hoje é característica da maioria das cidades do interior que cresceram ao redor da matriz e de sua praça.

Outro realce precisa ser feito para a importância e significado das festas religiosas, todas com o seu lado “profano”. Destas festas vão se destacando as quermesses com o leilão das prendas.

O dia e o ano são marcados pelo sentido cristão.

Importância atribuída à conversão dos caciques e dos notáveis do povo, apesar de sua ambiguidade, pois convertendo-se os notáveis, era mais fácil que o povo os seguissem.

Apesar da destruição sistemática das manifestações religiosas dos povos indígenas, surgiu a necessidade de se conhecer mais profundamente a sua psicologia e o seu mundo religioso; assim aproveita-se de sua religiosidade para a exposição da doutrina cristã.

Foto de: reprodução.

Igreja colonial

Na América Latina cultura e evangelização
andam de mãos dadas.

Promoção humana do índio

“Que primeiro aprendam a ser homens e depois cristãos”. Há muitas disposições dos concílios, bispos, e missionários, como esta citação a respeito de sua promoção. 

Questionamentos sobre o Processo de Evangelização

Aos poucos vão surgindo alguns questionamentos que, em parte, não foram de todo respondidos:

- O que se entendia por evangelizar? Quais as ideias (ideologia) de base?
- O que se pode fazer quando os evangelizados, ou melhor, aqueles a quem se destina a evangelização não querem ser evangelizados?
- Como resolver a questão do confronto entre evangelização e cultura? Na América houve inculturação?

 

Padre Inácio Medeiros, C.Ss.R.  
Mestre em História da Igreja   
pela Universidade Gregoriana  

Escreve série sobre a  
História da Igreja no Brasil  
para o A12.com

 

Escrito por
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R. (Arquivo redentorista)
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R

Redentorista da Província de São Paulo, graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma, já trabalha nessa área há muitos anos, tendo lecionado em diversos institutos. Atua na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da Província de São Paulo.

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