Por Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R Em História da Igreja Atualizada em 21 JAN 2020 - 13H53

Quando a revolução religiosa acirra ainda mais os ânimos do Irã


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Até 1979, o Irã era um dos maiores aliados dos Estados Unidos na região considerada extremamente estratégica pelo fato de abrigar a maior parte das reservas mundiais de petróleo.

Naquele ano, o país sofreu a Revolução Islâmica, que resultou na deposição do Xá (imperador) Reza Pahlevi e na posse do aiatolá (chefe religioso) Ruhollah Khomeini como líder máximo do país.

Grupos de esquerda que eram a favor da nacionalização do petróleo, organizações islâmicas e movimentos estudantis apoiaram a rebelião contra o regime pró-americano da dinastia Pahlevi. Isso significaria uma volta aos valores fundantes do islamismo em seus aspectos mais extremos.

Cresce o fundamentalismo religioso e político

Com os Xiitas no poder o Irã deixou de ser uma monarquia alinhada com o Ocidente para se tornar uma espécie de ditadura fundamentalista islâmica. O fato de a população ser de maioria xiita (islâmicos radicais) explica a maciça adesão à revolução, pois Khomeini defendia a expansão da revolução, o que criou atritos com outras nações do Oriente Médio, onde predominava o ramo sunita do islamismo.

Leia MaisO Irã atualUma história marcada por conflitos e guerrasDa civilização Persa ao irã atual : Compreendendo a crise entre Estados Unidos e IrãEle criticava abertamente os EUA, acusando-os de corromper os valores islâmicos. Nas palavras do próprio Khomeini, os Estados Unidos passaram a ser denominados de “o Grande Satã”.

A revolução iraniana concentrou ainda mais as contradições do desenvolvimento histórico do país, em especial na sua fase moderna e contemporânea, como semicolônia dos imperialismos russo e britânico, no século XIX e na primeira metade do século XX, e do imperialismo americano, depois da Segunda Guerra Mundial.

Para compensar a perda do Irã, os EUA se aproximaram do país vizinho, o Iraque, porque precisavam de uma forte base no Oriente Médio. Os Estados Unidos armaram e apoiaram Sadam Hussein que depois se voltaria contra eles. A partir daí a história nos é bastante conhecida, com vários episódios que ganharam destaque na mídia mundial.

Primeiro veio a expulsão da Família Pahlevi do país, ainda em 1979. Em 04 de novembro de 1979, estudantes invadiram o complexo da Embaixada dos EUA em Teerã e fizeram 52 funcionários reféns. A situação durou 444 dias e selou de vez o fim da amizade entre Estados Unidos e Irã.

Para complicar a situação a Guerra Irã x Iraque acontecida nos anos de 1980, com forte motivação no fundamentalismo religioso e na presença dos EUA no Oriente Médio, além da histórica diferença entre os dois países gerou imenso prejuízo e ceifou milhares de vidas. O conflito terminou no dia 20 de agosto de 1988, sem vencedores, sendo um fato histórico que ajuda a entender importantes conflitos posteriores no Oriente Médio, como a Guerra do Golfo (1991) e da Guerra do Iraque (2003).

Mas antes disso, um navio militar americano derrubou um avião de passageiros iraniano com destino a Dubai, nos Emirados Árabes provocando a morte dos 274 passageiros e dos 16 tripulantes. E há outro acontecimento macabro conhecido como Irã-Contras.

Desde então, o Irã vem se consolidando como uma potência da região, graças à indústria do Petróleo, rivalizando com a Arábia Saudita que é aliada dos americanos, apoiando grupos armados e fundamentalistas em países vizinhos.

A Guerra do Golfo aconteceu quando o Iraque invadiu o vizinho Kuwait. Com a operação chamada de “Tempestade no Deserto” iniciada em janeiro de 1991, os Estados Unidos libertaram o Kuwait num processo muito rápido. Depois, a partir do atentado de 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos invadiriam o Iraque em 2003, como suposta e motivação de “combater o terror” e lá estão até os dias de hoje num atoleiro que não tem fim.

Em 2014, com a ascensão do Estado Islâmico, os conflitos se intensificaram na região. Militantes extremistas tomaram o controle de grande parte do norte iraquiano, incluindo Mossul, a segunda maior cidade do país, que só foi retomada em 2017.

Eleição de Trump e acirramento das tensões

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No mais recente desdobramento das tensões entre os dois países, o presidente dos EUA Donald Trump decidiu dar sinal verde à operação com drones que resultou na morte do general iraniano Qasem Soleimani no aeroporto internacional de Bagdá, no Iraque. Ele era considerado um herói nacional no Irã e foi enterrado como mártir.

E os desdobramentos desta crise que tem, obvio, interesses políticos do presidente dos EUA que busca a sua reeleição em novembro, com as consequências inclusive para o Brasil é o que estamos presenciando agora.


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É importante lembrar que o presidente Trump tem entre os seus maiores apoiadores e financiadores os componentes do forte lobby da indústria armamentista do país que muito lucrarão com esta crise.

Patrimônio artístico e cultural

Os muitos testemunhos do esplendor e riqueza do Império Persa ainda existentes, marcado pelo patrimônio artístico e cultural que é constituído por obras de arte, arquitetura e artes figurativas serão colocados em sério risco caso os conflitos com os americanos se acentuem, com bombardeios e destruição, assim como aconteceu em outras regiões com a ocupação do Estado Islâmico.

Isto porque os persas se notabilizaram pelas suas artes, com suas esculturas decorativas e a arquitetura monumental de seus palácios e jardins. E tudo o que restou da grande civilização do passado é considerado um Patrimônio da Humanidade.

Escrito por
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R. (Arquivo redentorista)
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R

Redentorista da Província de São Paulo, graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma, já trabalha nessa área há muitos anos, tendo lecionado em diversos institutos. Atua na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da Província de São Paulo.

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