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História da Igreja

Quando os Papas viveram fora de Roma: o Cativeiro de Avignon

Pe Jose Inacio de Medeiros

Escrito por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

24 OUT 2025 - 15H31 (Atualizada em 24 OUT 2025 - 16H58)

Great Brut Here/ Adobe Stock

O cristianismo nasceu em Jerusalém, após Pentecostes, sendo a cidade considerada como a “Comunidade Mãe” da Igreja. Separando-se do judaísmo oficial e do templo, Pedro e os demais apóstolos se espalharam pelo mundo na missão de evangelizar. A Igreja se estabeleceu por um curto período em Antioquia, que se tornaria historicamente a segunda sede da Igreja e polo de “envio missionário”.

O cristianismo se deslocou depois para Roma, por volta do ano 60, e a cidade, apesar das perseguições, se tornou a terceira base da Igreja. Por isso, ao professar a fé cristã, dizemos que somos da Igreja “católica, apostólica, romana”.

Nesses quase 2 mil anos de caminhada, a maior parte do tempo a sede da Igreja esteve em Roma, com o Papa sendo o vigário de sua diocese. Em alguns períodos, como se deu no tempo do “Exílio de Avignon”, a sede da Igreja e a moradia do Papa estiveram fora de Roma.

Vatican Media Vatican Media A cidade de Avignon, no Sul da França, sede do papado no século XIV

Os Papas em Avignon

Avinhão ou Avignon é uma cidade localizada no sul da França, ganhando projeção porque durante quase 70 anos foi a residência dos papas.

A cidade está situada na margem esquerda do rio Ródano, no departamento de Valclusa, a cerca de 650 km a sudeste de Paris e a 80 km a noroeste de Marselha. Habitada desde o tempo dos celtas, se converteu em residência dos Papas em 1309, quando se encontrava sob governo dos reis da Sicília pertencentes então à casa governante de ascendência francesa Anjou.

Em 1348, o Papa Clemente XI adquiriu a cidade à rainha Joana I, da Sicília, permanecendo como propriedade papal até 1791, quando foi incorporada no restante do território da França pela Revolução Francesa, que confiscou muitas propriedades da Igreja, das dioceses e ordens religiosas.

Avignon era sede episcopal desde o ano 70, convertida em Arcebispado em 1476. A cidade recebeu vários sínodos de menor importância. Sua universidade, fundada pelo Papa Bonifácio VIII em 1303, alcançou grande reputação, sobretudo, nos cursos de direito, mantendo sua importância até a Revolução Francesa.

Para manter um controle mais rígido sobre o papado, o rei Felipe IV forçou a transferência do Papa Clemente V de Roma para Avignon, pois na época o Colégio dos Cardeais possuía entre seus membros muitos cardeais franceses leais mais ao rei do que ao Papa. Esse fato marca então o início do período conhecido como o Cativeiro de Avignon, onde vários Papas moraram na cidade, se submetendo à influência dos reis.

Do cisma à reunificação

A origem do chamado Cisma do Ocidente esteve ligada à disputa de poder entre o Papa Bonifácio VIII e o rei da França Felipe IV, o Belo. O rei da França determinou a cobrança de impostos sobre os bens da Igreja para aumentar os recursos de seu orçamento.

O Papa Bonifácio VIII se opôs à cobrança e ameaçou Felipe IV de excomunhão. Temeroso das consequências dessa ação, Felipe IV convocou pela primeira vez, em 1302, a Assembleia dos Estados Gerais, reunindo o clero, a nobreza e membros da burguesia representada nos comerciantes das cidades, decidindo pela cobrança dos impostos clericais, acirrando ainda mais o conflito.

Com a morte de Bonifácio VIII, em 1303, Felipe IV pressionou pela eleição de um papa francês, com os cardeais escolhendo Clemente V. Para manter um controle mais rígido sobre o papado, Felipe IV transferiu Clemente V de Roma para Avignon. Tinha início então o período conhecido como “Cativeiro de Avignon”, que durou de 1307 a 1377, e vários papas se submeteram ao poder dos reis, morando na cidade que aos poucos foi sendo embelezada e engrandecida, com a construção, por exemplo, do Palácio Pontifício e outras instalações.

O Cisma do Ocidente levou a uma sucessão de papas paralelos nas duas cidades, um em Roma e outro em Avignon, até 1417. Por outro lado, a duração da permanência dos Papas em Avignon se deve também à disputa de poder entre os vários reinos europeus. O imperador do Sacro Império, o rei da Inglaterra e o conde de Flandres apoiavam o Papa de Roma. O rei da França, de Nápoles e depois de Castela, Aragão, Lorena e Escócia apoiavam o papa instalado em Avignon.

Ao todo, sete Papas dirigiram a Igreja a partir de Avignon: Clemente V, João XXII, Bento XII, Clemente VI, Inocêncio VI, Urbano V e Gregório XI, que retornou com o pontificado para Roma em 1477, morrendo pouco tempo depois.

A permanência dos Papas em Avignon representou um período de decadência para a cidade de Roma, mas enquanto o pontificado estivesse dividido, setores da Igreja e pessoas de destaque trabalhavam na busca de soluções para a crise. Um concílio se reuniu na cidade de Pisa, na Itália, em 1409-1410, para encontrar uma solução para a divisão.

O concílio decidiu pela deposição dos dois Papas existentes e escolha de um terceiro. No entanto, surgiu um terceiro Papa, já que o escolhido em Pisa não foi aceito pelos demais grupos.

A situação somente mudaria a partir de 1415, quando um novo concílio foi realizado em Constança. Os cardeais decidiram naquele momento que o Papa de Piza, João XIII, fosse deposto, o Papa de Roma, Gregório XII, renunciou e o papa de Avignon, Bento XIII, foi excomungado.

Um novo Papa foi eleito para garantir a unidade da Igreja e Martinho V foi reconhecido como único Papa em 1417, se instalando em Roma, pondo fim ao Cisma do Ocidente.

Conciliarismo

O cisma fez crescer o debate sobre a autoridade do Papa e a natureza da Igreja, com alguns defendendo a primazia do papa e outros argumentando a favor da colegialidade da Igreja. Isso fez surgir a ideia errônea do conciliarismo, doutrina que considera o concílio ecumênico como autoridade superior ao Papa. A doutrina defende que o concílio, em certas circunstâncias, tem poder sobre o Pontífice romano, inclusive para julgá-lo, condená-lo e até o depor. 

Um dos principais objetivos do conciliarismo era reformar a Igreja, centralizando a autoridade em concílios ecumênicos em vez do Papa. O movimento buscava solucionar as crises dentro da Igreja, como o Cisma do Ocidente, democratizando a estrutura eclesiástica. 

Por ser um grave erro teológico, o conciliarismo foi totalmente rejeitado pela Igreja Católica por meio de eminentes teólogos e, mais tarde, o Vaticano I reafirmaria a supremacia da autoridade papal, considerando que ele, como sucessor de São Pedro, tem autoridade plena e universal sobre toda a Igreja, sendo infalível em questões de fé quando fala “Ex-Cathedra”. 

add O legado de Papas que foram importantes também fora da Igreja

Escrito por:
Pe Jose Inacio de Medeiros
Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

Missionário redentorista que atua no Instituto Histórico Redentorista, em Roma. Graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da antiga Província Redentorista de São Paulo, tendo sido também diretor da Rádio Aparecida.

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