História da Igreja

Os bobos da corte: quem eram e o que faziam?

Os “bobos da corte” eram artistas e conselheiros que usavam humor e sátira para entreter e até criticar reis e nobres. Leia a matéria completa e confira!

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Escrito por Pe. José Inácio Medeiros, C.Ss.R.

18 MAI 2026 - 15H32

Bounpaseuth/Adobe Stock

Muitas curiosidades da história ainda hoje chamam atenção. Uma delas é a realidade dos “bobos da corte". Dramas de TV e produções cinematográficas ajudaram a criar uma imagem distorcida dessa figura, que na realidade, diferentemente do que o nome pode expressar, tratava-se de artistas e conselheiros (bufões) das cortes europeias medievais e renascentistas, encarregados de entreter reis e nobres com humor, música e sátiras. Eles também tinham a rara liberdade de criticar o poder, muitas vezes revelando verdades desconfortáveis disfarçadas em piadas, sendo figuras inteligentes e habilidosas, e não meros palhaços.

Os bobos da corte dominavam diversas artes como música, dança, malabarismo, poesia e improviso, podendo até servir como espiões ou mensageiros, imagem que foi popularizada pelo escritor inglês Shakespeare.

Usando do humor para criticar tanto o rei como a corte, conseguiam algo impensável para outros cortesãos, quase colocando em prática o ditado "rindo se castiga os costumes" (ridendo castigat mores).

Os Bobos da Corte ocupavam um cargo formal, recebendo salário e regalias, podendo ter acesso a segredos e missões confidenciais. Apesar da aparência cômica, ou sofrendo deformidades físicas como as vezes são representados, eram pessoas perspicazes e sensíveis, capazes de discernir o limite de suas críticas. Mas o objetivo principal de sua arte era proporcionar diversão para a realeza com piadas, sátiras e acrobacias. Eram os únicos autorizados a dizer verdades e apontar falhas sem punição imediata, sob o disfarce do humor.

f11photo/Adobe Stock f11photo/Adobe Stock Fórum romano em Roma

Origem no antigo Oriente

Apesar de haver bastante indefinição, acredita-se que os Bobos da Corte tenham surgido no antigo Egito ou no Império Bizantino, pela necessidade de entreter os faraós e imperadores, que, em épocas de guerra, não podiam frequentar grandes eventos em busca de diversão. O costume foi adotado e popularizado na Europa medieval e renascentista, com equivalentes na Roma Imperial chamados balatros.

Usavam roupas coloridas, chapéus pontudos (semelhantes a orelhas de burro) e sapatos bizarros, e muitos sofriam alguma forma de deficiência física, o que os tornava alvos fáceis para o ridículo, mas também lhes dava acesso à corte onde o entretenimento ficava por conta de sua figura. Foi na França e na Inglaterra do século XII que esses bobos ganharam seu contorno mais conhecido e popular: entreter a Corte.

Com roupas espalhafatosas, trejeitos estranhos e tons crítico e cínico, o bobo era um dos poucos indivíduos que podia criticar o rei sem necessariamente ser punido por isso.

Durante muitos anos, essa função existiu nos países europeus e a cultura pop deu ares populares ao personagem através de filmes, músicas, fantasias e muita, muita gozação. Com uma imagem marcada pela loucura e imbecilidade, esse personagem se eternizou ao longo da história.

A figura perdeu força com a centralização do poder monárquico e Iluminismo, desaparecendo gradualmente das cortes europeias por volta do século XVII, embora o arquétipo persista na cultura popular.

Brincando se pode contar a verdade

Existe um ditado popular que diz: "Brincando se pode contar até a verdade!". Isso inclui os bobos da corte, até porque eles eram os únicos na corte que podiam zombar abertamente do monarca, sem correr o risco de “perder suas cabeças”.

Ao longo da história alguns personagens ficaram eternizados como expressão dessa função:

Nicolau Ferriol (1479–1536). Eternizado como Triboulet, não foi um simples bobo da corte francesa. Ele se tornou o mestre da irreverência, servindo com a mesma astúcia a dois monarcas: Luís XII (1498–1515) e Francisco I (1515–1547). Sua fama atravessou séculos, com histórias repetidas em tavernas, salões e livros, sempre no limite entre realidade e lenda. Entre os episódios mais célebres está o dia em que Triboulet ousou dar um tapa nas nádegas do rei Francisco I. A fúria real foi imediata, e a ameaça de execução parecia inevitável.

O rei, contudo, ofereceu-lhe uma saída: o pedido de desculpas deveria ser ainda mais insultuoso que o gesto inicial. Triboulet, dono de uma sagacidade sem igual, respondeu sem hesitar:

- Perdão, majestade, eu não o reconheci. Pensei que fosse a rainha.

A resposta, tão ousada quanto perigosa, infringia a lei que protegia a honra da rainha. Francisco I, dividido entre o dever de punir e a vontade de rir, decidiu manter a condenação, mas concedeu ao bobo o direito de escolher como morrer. Foi então que Triboulet deu sua cartada final:

- Bom senhor, pelo bem de São Nitouche e São Pansard, patronos da loucura, escolho morrer de velhice.

O rei não resistiu. Riu-se às gargalhadas e, mais uma vez, poupou a vida do bufão, embora o tenha desterrado. Triboulet, no entanto, não morreu no esquecimento. Tornou-se personagem literário nas Crônicas Pantagruelinas de Rabelais, em “Le Roi s’amuse” do escritor Victor Hugo e, posteriormente, na ópera Rigoletto de Giuseppe Verdi. Também foi retratado em pinturas, como a de William Merritt Chase (1875), que imortalizaram a figura do bobo que ousou zombar da própria realeza.

Assim, sobreviveu Triboulet: não apenas como o bufão que fez reis tremerem de raiva e rirem de si mesmos, mas como prova de que o humor, por vezes, é a mais perigosa e a mais poderosa das verdades.

Will Somer's: foi o bobo da corte do rei Henrique VIII. Em 1535, ousou zombar da então esposa do rei, Ana Bolena, chamando-a de “uma mulher sexualmente imoral”. Chamou ainda a filha do rei, Elizabeth, de bastarda. Henrique não gostou e ameaçou matar Will. No entanto, sabe-se que Henrique o perdoou.

Os bobos tinham essa licença porque se tornavam úteis. A maioria deles era tudo menos "bobos", e sim indivíduos astutos e inteligentes que agiam como conselheiros e confidentes não oficiais.

Will Somers era conhecido pela integridade e discrição, usando sua inteligência para chamar a atenção de Henrique para questões que, de outra forma, o rei não teria percebido. Thomas Cromwell, o ministro-chefe de Henrique, o usou dessa forma para influenciar o rei em vários assuntos.

George Buchanan: era o bobo da corte do rei James VI, da Escócia. James tinha o perigoso hábito de assinar documentos oficiais sem lê-los, causando sérios problemas com essa atitude. Então George decidiu-lhe dar uma lição. Um dia, levou alguns documentos para James assinar e o rei descobriu que, ao assinar, abdicou do governo da Escócia e fez seu tolo como Rei em seu lugar. O bobo leal discretamente apontou o erro e, a partir de então, James passou a ler os documentos antes de assinar.

Muitas vezes os bobos reais eram amigos e consoladores. Nos anos de declínio de Henrique VIII, Will Somers foi a única pessoa que conseguia fazê-lo sorrir quando sentia dores. Ele também era uma das poucas pessoas em quem o rei realmente confiava e confidenciava. Will serviu Henrique lealmente até sua morte.

Alguns bobos como Robert le Pettour fizeram fortuna. Em sua aposentadoria recebeu 30 acres de terra do rei Henrique II.

.::Leia mais sobre o bobo da corte!

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