Por Pe. José Luis Queimado, C.Ss.R. Em Igreja

Conhecendo os Evangelhos: O dom maior é o perdão

Lucas 5, 17-28

E um dia estava ele ensinando. Ao seu redor estavam sentados fariseus e doutores da lei, vindos de todas as localidades da Galileia, da Judeia e de Jerusalém. E o poder do Senhor fazia-o realizar várias curas. Apareceram algumas pessoas trazendo num leito um homem paralítico; e procuravam introduzi-lo na casa e pô-lo diante dele. Mas não achando por onde o introduzir, por causa da multidão, subiram ao telhado e por entre as telhas o arriaram com o leito ao meio da assembleia, diante de Jesus. Vendo a fé que tinham, disse Jesus: Meu amigo, os teus pecados te são perdoados. Então os escribas e os fariseus começaram a pensar e a dizer consigo mesmos: Quem é este homem que profere blasfêmias? Quem pode perdoar pecados senão unicamente Deus? Jesus, porém, penetrando nos seus pensamentos, replicou-lhes: Que pensais nos vossos corações? Que é mais fácil dizer: Os teus pecados estão perdoados; ou dizer: Levanta-te e anda? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder de perdoar pecados (disse ele ao paralítico), eu te ordeno: levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa. No mesmo instante, levantou-se ele à vista deles, tomou o leito e partiu para casa, glorificando a Deus. Todos ficaram transportados de entusiasmo e glorificavam a Deus; e tomados de temor, diziam: Hoje vimos coisas maravilhosas.

O dom maior é o perdão

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Estamos diante de uma comovente e intrigante passagem do Evangelho de Lucas. O tema mais controverso dessa perícope (trecho) nem é a cura que Jesus realiza, mas sim a novidade de ele perdoar os pecados.

Para o judeu do primeiro século, se alguém afirmasse que possuía poder de perdoar pecados, essa pessoa estaria se igualando a Deus, e mereceria a morte. Esses foram os motivos que levaram Jesus à cruz, somados aos questionamentos à estrutura social e religiosa da época.

Quanto ao ato inusitado daqueles homens de descer o paralítico pelo telhado, muito se tem questionado a respeito do conhecimento de Lucas sobre a realidade palestinense do primeiro século. Pelos estudos arqueológicos, sabemos que a maioria das casas da época, e daquela região específica, era feita de tijolos simples, rebocada com barro, possuindo chão de terra batida, e o teto era feito de madeira (bambu), coberto de palhas e plantas da região. O uso de telhas de barro cozido, como muitas casas romanas, era incomum.

Marcos, narrando esse mesmo fato, diz: “Trouxeram-lhe um paralítico, carregado por quatro homens. Como não pudessem apresentar-lho por causa da multidão, descobriram o teto por cima do lugar onde Jesus se achava e, por uma abertura, desceram o leito em que jazia o paralítico”. (Mc 2, 3-4). O verbo grego usado por Marcos é “apestégasan” (ἀπεστέγασαν), que significa “removeram o teto”. Por isso, não foram tiradas telhas, como disse Lucas, pois não era comum o uso de telhas nas casas simples daquela região, conforme dito acima.

Na versão de Mateus, o detalhe do telhado é até mesmo deixado de lado, mostrando somente a indignação dos escribas ante a atitude de Jesus em perdoar os pecados do paralítico. (Cf. Mt 9, 2-7).

Mesmo assim, como já se assinalou antes, o interesse do evangelista Lucas, mais do que mostrar a fé pela atitude daqueles homens que carregam o enfermo e o trazem pelo telhado, era o de evidenciar a diferença de Jesus com relação a outros profetas. Ele era o Filho de Deus, com poderes de curar; e mais do que isso, com autoridade de perdoar os pecados aos pecadores.

Para esse evangelista, Jesus precisava provar o seu poder de dar o perdão; e, para isso, tinha de realizar algo miraculoso. O milagre confirma o múnus do Mestre de perdoar os pecados.

Algo que nos impressiona é o desfecho do acontecimento. O paralítico se levanta, pega o leito (maca), e vai embora. Em resumo, Jesus não esperava que ele o seguisse, mas a missão daquele que recebeu o perdão e a cura era outra: glorificar as maravilhas de Deus em sua casa (terra). O leito vai com ele, pois representa a sua vitória diante dos males que o afligiam. Afinal, a primeira atitude de Jesus ao ver esse paralítico não foi a de curá-lo, mas foi a de perdoar-lhe. Assim sendo, os pecados que a tradição e a cultura lhe atribuíam eram mais pesados do que a sua própria limitação física.

E hoje? Seríamos capazes de atitudes audazes para aquecer a nossa fé? Os telhados que impedem as pessoas de chegar a Cristo são cada vez mais difíceis de serem removidos! Esse é o nosso trabalho: libertar aqueles que não têm voz nem vez, ajudá-los a remover as barreiras que os impedem de vivenciar a fé intensa em Jesus, e nos perdoarmos mutuamente! Este é o dom mais divino que Jesus poderia ter nos dado: o perdão!

Escrito por
Pe. José Luis Queimado, C.Ss.R. (Arquivo Santuário Nacional)
Pe. José Luis Queimado, C.Ss.R.

Redentorista, formado em Filosofia e Teologia. Pesquisador das Sagradas Escrituras e História. Acumulou experiência nas Missões Populares e no Santuário Nacional de Aparecida.

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