Por Pe. Amarildo Luciano, CSsR Em Igreja

Gratidão: A força transformadora do mundo

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“Dou graças ao meu Deus cada vez que me lembro de vocês e em minhas orações rezo por vocês com alegria por causa da sua participação no anúncio do Evangelho desde o primeiro dia até agora. Esta é a minha convicção: Aquele que começou em vocês uma obra excelente prosseguirá em sua conclusão até o dia de Jesus Cristo” (Fl 1,3-6).

Ao receber o convite para colaborar com o portal A12.com, logo pensei em externar a minha gratidão escrevendo sobre esse assunto. Ademais, a gratidão parece merecer uma especial atenção por parte da humanidade. Sem gratidão, as relações correm o risco de tornarem-se descartáveis e sem compromisso.

Albert Nolan, no seu livro Jesus Hoje, reflete profundamente sobre a necessidade de se ter um coração agradecido. Aliás, o mundo que, no tempo da vida terrena de Jesus, andava desarrumado e que Jesus veio endireitar, ainda precisa da colaboração humana para manter-se em ordem.

 

Sem gratidão não há liberdade, posto que o coração ingrato é um 'espaço fechado', orgulhoso, que torna impossível o desenvolvimento do amor que liberta.

E essa ordem será alcançada quando as relações forem marcadas pela justiça, fraternidade, liberdade e gratidão. Sem gratidão não há liberdade, posto que o coração ingrato é um “espaço fechado”, orgulhoso, que torna impossível o desenvolvimento do amor que liberta. A vida de Jesus é marcada por expressões de gratidão.

“Jesus tinha uma consciência constante de Deus a mover-se e a agir com amor e solicitude nos acontecimentos da vida de cada dia. Ele experimentava Deus como aquele que alimenta as aves, que veste os campos e que olha por cada ser humano (Mt 6,26-30). Nos sinais do seu tempo, principalmente nas efusões surpreendentes de cura e alegria, Jesus via e experimentava “o dedo de Deus” (Lc 11,20). Tudo isso era obra de Deus, a obra de um Deus íntimo, cordial e cheio de amor”.

Isso significa que Jesus tinha consciência de que tudo, na vida, era um dom de Deus, uma bênção. Jesus não tomava tudo como se lhe fosse devido. Ele sentia uma gratidão profunda por tudo.

Segundo Nolan, a vida de Jesus devia estar cheia de orações de ação de graças, embora só algumas delas tenham chegado até nós: “Graças te dou, ó Pai, porque revelaste estas coisas não aos sábios e aos inteligentes, mas aos pequeninos” (Lc 10,21).

Podemos deduzir, a partir daqui, que Jesus terá feito outras orações de ação de graças pelos inúmeros dons e bênçãos de Deus. Jesus tinha um coração agradecido.

 

Ecumenismo maos unidas

"A sua resposta ao amor de Deus era a gratidão".

A sua resposta ao amor de Deus era a gratidão. Nos evangelhos, vemos o quanto Jesus apreciava de verdade as atitudes de gratidão das pessoas com as quais ele tinha algum contato. Isso é expressivamente revelado no episódio narrado por Lucas em que uma mulher “lavou” os pés de Jesus com as próprias lágrimas (Lc 7,36-50).

Ela decidira ungir os pés do Mestre com um unguento perfumado como sinal da sua gratidão pela Boa-Nova de que todos os seus pecados tinham sido perdoados. Supostamente, essa mulher sofria muito com um terrível sentimento de culpa e agora não conseguia parar de chorar, e a torrente das suas lágrimas começou a cair sobre os pés de Jesus.

A mulher tentou limpar-lhe as lágrimas com o cabelo, e depois não resistiu a beijar-lhe os pés. As suas copiosas lágrimas expressavam a sua alegre gratidão pelo perdão imenso que recebera. Simão, o fariseu na casa de quem isso aconteceu, porém, não sentia o mesmo amor agradecido, pois não achava que tivesse muita necessidade de perdão ou que estivesse particularmente em dívida para com Jesus, a expressão humana de Deus no mundo.

Jesus sentiu-se tocado pela mulher e apreciou grandemente os seus gestos tão expressivos de amor cheio de gratidão. Ali estava alguém com um coração verdadeiramente agradecido. Por outro lado, ao examinarmos a parábola sobre o servo inclemente (Mt, 18,23-34) e o relato da cura dos dez leprosos (Lc 17, 11-19), vemos como Jesus ficava “desconcertado” com a ingratidão.

Ingratidão para com Deus e para com o próximo. “A ingratidão é obra do ego. O egocentrismo impede o ego de alguma vez sentir-se verdadeiramente agradecido a alguém, nem que seja a Deus. O individualista considera-se obra das suas mãos, independente, não dependente nem em dívida para com ninguém. Admitir que alguma coisa poderia ser não merecido significa admitir que se poderia ser dependente de outra pessoa qualquer. Para uma pessoa ingrata, não há dons gratuitos”.

São Paulo, ao contrário, preferiu dizer: “Sou quem sou pela graça de Deus” (1Cor 15,10). Isto basta para que a gratidão invada todo o nosso ser, e todas as nossas ações sejam motivadas por uma vontade imensa de corresponder ao amor imerecido que Deus nos concede cotidianamente.

 

(...) a pessoa que tem um coração agradecido aprecia a gratuidade de tudo na vida.

Segundo Nolan, a pessoa que tem um coração agradecido aprecia a gratuidade de tudo na vida. Não considera nada como um direito que lhe é devido. A minha própria existência é um dom. Eu não criei a mim próprio. Eu nunca poderia ter ganhado, merecido ou conquistado a minha existência humana.

Tudo o que eu tenho é um dom. As outras pessoas são-me enviadas como bênçãos. A gratidão é uma atitude alternativa a tudo na vida. Permite-nos ver o mundo na posição correta. O coração agradecido é uma manifestação do verdadeiro eu da pessoa. Nada ultrapassa o ego de forma mais eficaz do que o coração agradecido.

“Ser santo”, diz o autor espiritual Ronald Rolheiser, “é ter por combustível a gratidão, nem mais, nem menos”. Além disso, segundo Gustavo Gutiérrez, teólogo da libertação, há só um tipo de pessoa capaz de transformar espiritualmente o mundo: quem tem um coração agradecido.

A pessoa com um coração agradecido se relaciona com Deus de uma maneira surpreendente. Coloca-se alegremente numa atitude de submissão e não faz cobranças e nem insiste apenas numa petição sem fim, mas eleva a Deus cânticos de louvor cheio de alegria e esperança, de confiança e de agradecimento. “Orai sem cessar. Em tudo dai graças” (1Ts 5,17-18).

É interessante a observação de Nolan: “Temos por hábito fazer listas, pelo menos mentalmente, de todas as nossas queixas, de todas as coisas que aparentemente desejamos ou nos fazem falta, de todas as coisas que não temos. É por isso que as orações de intercessão, pedindo a Deus por isto e por aquilo, são muito mais populares do que as orações de ação de graças.

Também há lugar para intercessão, mas, de um modo geral, nós precisamos gastar mais tempo exprimindo a nossa gratidão pelos dons enumeráveis que foram derramados sobre nós. Se a única oração que eu fizesse fosse Obrigado... isso seria suficiente”.

Um fator importante no desenvolvimento e na manutenção de um coração agradecido, como já expressamos acima, é a confiança. Jesus punha toda a sua confiança em Deus. Ele tinha esperança e nunca a perdia, apesar de toda dor e sofrimento, apesar de toda crueldade e de todo mal, apesar de todos os fracassos e desilusões.

 

Deus está em ação no mundo de hoje, e também estará no mundo futuro.

Nós seremos capazes de desenvolver e manter um coração agradecido não só quando reconhecemos tudo na vida como um dom, mas também quando aprendemos a pôr a nossa confiança em Deus. Deus está em ação no nosso mundo de hoje, e também estará no mundo futuro. Por fim, não podemos deixar de falar, ainda que brevemente da gratidão às pessoas. Pessoas que fazem parte da nossa vida e nos ajudam no nosso processo de crescimento.

Não podemos esquecê-las ou simplesmente deixá-las de lado quando não nos servem mais. É a gratidão que dará esperança aos idosos, aos jovens e às crianças. É por meio da gratidão que o ser humano se empenhará no cuidado por amor de todas as pessoas que participaram ou participam da nossa vida (pais, irmãos, professores, padres, freiras, amigos, colegas de trabalho, etc.).

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Pe. Amarildo Luciano, CSsR

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