Por Redação A12 Em Igreja Atualizada em 23 JAN 2019 - 12H11

Missionários da Consolata relatam drama vivido por indígenas em Boa Vista (RR)

“Precisamos de ajuda. Estamos dormindo na Praça. Não podemos entrar no abrigo”. Este pedido de socorro é do jovem indígena warao Jean Luís Jimenez. Jean Luís é um dos milhões de imigrantes que deixaram a Venezuela rumo aos países vizinhos.

O caso de Jean Luis chegou à Equipe Missionária Itinerante do Instituto Missões Consolata através do padre Vilson Jochem, missionário da Consolata que atua na capital venezuelana, Caracas. O relato do jovem indígena reafirma a grave realidade pela qual passam os imigrantes na cidade de Boa Vista, em Roraima.

A Equipe Itinerante é um pequeno grupo formado por três padres, que tem como trabalho principal acompanhar as pessoas mais vulneráveis e, especificamente, a tribo indígena warao. Estão no grupo os padres Jaime Patias, Luiz Carlos Emer e Manolo Loro.

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Na visita ao bairro Pintolândia, zona Oeste de Boa Vista, onde funciona o abrigo destinado aos indígenas, a equipe encontrou inicialmente 17 indígenas warao, sendo nove adultos e oito crianças, vivendo em local improvisado na Praça Augusto Germano Sampaio. Dois dias depois, eles contavam 30 indígenas, sendo 17 crianças menores de 12 anos. O abrigo acolhe atualmente 665 indígenas e não recebe novos ingressos devido a superlotação.

Doente e fragilizado, Jean Luís foi internado no Hospital Geral de Roraima. “Aqui pelo menos está melhor do que na Praça”, conta o jovem à equipe enquanto observa deitado em uma maca os demais pacientes, muitos deles venezuelanos. Quando tiver alta, Jean vai ficar na rua outra vez.

No abrigo, chama atenção ainda o caso de Mardelia Rattia, 25 anos, que chegou com cinco filhos, incluindo uma bebê de dois meses. “A nossa situação é difícil. Penso nas crianças”, lamenta Mardelia, constrangida. Ela quer seguir viagem para Manaus (AM), onde está a sua sogra com outros parentes.

Instituto Missões Consolata
Instituto Missões Consolata
Mãe warao Mardelia Rattia com seus filhos na Praça em Boa Vista.


Diante de toda essa realidade, a equipe vivenciou ainda o drama da insegurança. No último dia 18 de janeiro, soldados do Exército, que também são responsáveis pela infraestrutura e segurança nos abrigos, passaram pela praça e abordaram alguns warao dizendo que eles não poderiam mais dormir ali. "A ameaça assustou a todos", relatou a equipe. Na mesma noite, o grupo foi até o local para evitar uma possível retirada.

Depois de alguns diálogos com representantes do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), responsável por abrigar e proteger os refugiados, os warao tiveram a garantia de continuar na praça. Naquela noite, os soldados chegaram em dois carros, mas não se aproximaram do grupo. "O fato trouxe muita insegurança e, por isso, é urgente encontrar uma solução", enfatiza o grupo missionário.

“O pouco que conseguimos fazer já é muito para aliviar o sofrimento de quem deixou para trás tudo em busca da sobrevivência”, afirma o padre Luiz Emer.

Entre os imigrantes, a equipe encontrou também vários profissionais qualificados, como a médica warao Fiorella Lisenni, que veio com uma criança, uma irmã professora e um irmão formado em direitos humanos. Ela improvisa atendimentos aos que precisam e organizou um cadastro do grupo. “Como o Brasil concede refúgio, mas não oferece uma acolhida digna? Estão nos ameaçando tirar até da praça” ,questiona Fiorella.

Instituto Missões Consolata
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Médica warao Fiorella atende a pequena Roidelis Rattia na Praça.


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Indígenas gozam de direitos diferenciados, garantidos pela Constituição e leis internacionais. Além disso, antropólogos lembram que os warao deveriam poder exercer a liberdade transfronteiriça de ir e vir, como um fundamento cultural que, historicamente, se sobrepõe às nacionalidades do Brasil e Venezuela, esclarecem os missionários.

A falta de vagas nos abrigos é constante. De 200 pedidos feitos semanalmente, apenas 40 são atendidos.

Mais de 85 mil venezuelanos já solicitaram refúgio ao Brasil desde 2015. Estimativas apontam que mais de 30 mil vivem em Roraima atualmente.

A vulnerabilidade aumenta ainda mais os riscos de exploração, uso de drogas, roubos, insegurança, fome e doenças em uma população já ameaçada pelo fato de ser migrante.

A Cáritas Brasileira e outros organismos se uniram recentemente no lançamento da campanha #EuMigrante para a sensibilização desta realidade e também na busca de soluções para a questão.


Fonte: Pe. Jaime Patias, Instituto Missões Consolata

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