Por Joana Darc Venancio Em Igreja Atualizada em 02 ABR 2019 - 16H23

Sentidos da Autoridade Docente

O professor, em muitas situações, para que seja aceito ou valorizado, assume para si vários papéis, sendo confundido com pai, mãe, amigo, companheiro, orientador..., satisfazendo-se com o esvaziamento, mesmo sem perceber, seu singular papel e lugar: ser professor.

Educação (reprodução Shutterstock)

A rotina do professor é envolvida pelos sentimentos humanos. Não há possibilidade de descartar essa condição, pois o professor também traz em si, e não poderia ser diferente, as condições humanas tanto quanto seu aluno. No entanto, se esses sentimentos não forem harmonizados, acabam sendo um risco para o processo pedagógico, pois lidar com gente é envolver-se em pequenas e grandes histórias de vida, é descobrir-se ou esconder-se no outro, é consolidar o ser humano como ser incontestavelmente dependente das relações. Papa Bento XVI na Carta Encíclica Caritas In Veritate afirma: 

"Com o termo 'educação', não se pretende referir apenas à instrução escolar ou à formação para o trabalho — ambas, causas importantes de desenvolvimento — mas à formação completa da pessoa. A este propósito, deve-se sublinhar um aspecto do problema: para educar, é preciso saber quem é a pessoa humana, conhecer a sua natureza".  

A tentativa de constituir a confiança na relação pedagógica parece impelir e até provocar outra questão: para implementação de uma relação pedagógica autêntica, poderá ser necessária uma retomada dos lugares de cada um: professor e aluno. Neste contexto, caberá a não aceitação da destituição de um lugar próprio, mas o fazer desse lugar o sentido próprio que a existência humana adquire em cada um. Nesta rotina, o professor necessita de uma grande habilidade para não se confundir em sua autoridade. Seu lugar e papel devem fazer diferença, como também urge que o seu discurso seja discernido dos demais. Ele, o professor, assim como cada um que assume o seu lugar e papel, deve ser um e não simplesmente mais um. O Catecismo da Igreja Católica fundamenta o sentido da autoridade:

 

"Na autenticidade e no assumir de sua condição de professor, ele colabora para a harmonia da rotina..."

"Cabe aos que exercem a função de autoridade fortalecer os valores que atraem a confiança dos membros do grupo e os incitam a se colocar a serviço dos semelhantes. A participação começa pela educação e pela cultura. Podemos pensar com razão em depositar o futuro da humanidade nas mãos daqueles que são capazes de transmitir às gerações do amanhã razões de viver e de esperar". 

Na autenticidade e no assumir de sua condição de professor, ele colabora para a harmonia da rotina, pois ao sair de sua omissão, ao desvendar-se, ao expor-se e ao assumir seu lugar, não gera confusões sobre sua autoridade, mas cria a possibilidade de recorrerem a ele sempre que necessitarem do professor, buscando-o de forma condizente com a categoria que representa, dando espaço para que as demais categorias atuem assumindo também seu lugar e papel. Assim, é possível que o próprio aluno, por vontade própria, lhe devolva a autoridade abdicada, assim como Emílio agiu com Rousseau: 

"Meu amigo, meu protetor, meu mestre, retomas a autoridade de que queres abdicar no momento em que é mais importante para mim que permaneças; até agora só a tinhas por causa de minha fraqueza, mas agora a terás por minha vontade, e assim ela será mais sagrada para mim. Defende-me de todos os inimigos que me assaltam, sobretudo, dos que trago comigo e que me traem; cuida de tua obra para que eu permaneça digno de ti. Quero obedecer as tuas leis, quero-o sempre, é a minha vontade constante; torna-me livre protegendo-me contra as minhas paixões que me violentam; impede que eu seja escravo delas e força-me a ser meu próprio senhor não obedecendo aos sentidos, mas a razão". (cf. Emílio, ou da Educação. 1995) 

Não se trata do esfriamento das relações afetivas, pois o profissionalismo não se caracteriza pelo embrutecimento das relações humanas cotidianas, até porque essa condição seria negar a própria natureza do ser pessoa. Essas manifestações são aliadas da construção do humano em sua plenitude. Ser profissional não é negar a própria natureza, ao contrário, é promover a construção de relações firmes, sensatas, eficazes, evitando a qualquer custo o sentimentalismo e o esvaziamento de sua condição de ser social. Cada situação educativa é única.

O profissional, deve priorizar em sua atuação as condições básicas para a construção e desconstrução do outro e de si mesmo nas relações cotidianas. No caso do professor, sendo este apenas professor - apenas no sentido de assumir neste momento somente esta categoria - será por consequência competente, justo, solidário, comprometido com o conhecimento e com cidadania, não necessitando ser nomeado e/ou reconhecido por adjetivos positivos e/ou negativos. O professor necessita prestar conta ao aluno, apresentando-se e confirmando sua autoridade, possibilitando assim, a descoberta de que sua atuação - a educação - não é uma casualidade, mas consciência de que o que dela resulta não deveria ser fruto da fatalidade, mas de uma escolha. Ele não pode deixar de cumprir o que é de sua competência.

 

"O aluno deve encontrar na identificação com o seu professor o sentido de busca de sua cidadania".

Parece claro que enquanto o professor achar que necessita se demitir de seu lugar, não será possível construir uma educação verdadeira. O professor deve provocar no aluno o desejo de busca e de desvelamento e, nessa tentativa construir sua autonomia. O aluno deve encontrar na identificação com o seu professor o sentido de busca de sua cidadania. Mesmo que ele faça uma imagem ainda que irreal de seu professor, essa é a sua forma de pensá-lo e de vê-lo e que necessita ser respeitada. O aluno vê, na figura do professor, a imagem de alguém que é depositário do conhecimento. Ele, o aluno, não pode ser desiludido. Não cabe ao professor dar provas contrárias para decepcioná-lo, assim também como não cabe ao professor o domínio da imagem que o aluno faz dele. Preservando seu lugar, permitindo que o outro faça dele a imagem deste "suposto saber", que ele não é, e ao mesmo tempo, sabendo que se tudo der certo, o aluno descobre por si mesmo como superar essa imagem ilusória, o professor poderá, ainda que de forma precária, garantir a construção de uma convivência transparente.

Um dos maiores gestos de respeito que se pode ter com o aluno é tratá-lo como aluno, ou seja, dedicar-se à sua causa: cientificidade, descoberta de novos conceitos, busca da intelectualidade e sua formação de cidadão consciente e que não se deixa enganar pelas ideologias. Igualmente assim, o aluno não será demitido de seu lugar de aluno. Assumindo com nitidez sua categoria de aluno e gozando dos privilégios de aluno, poderá construir-se com mais precisão para que suas outras categorias, no tempo e lugar exato, sejam igualmente respeitadas. Talvez, dessa forma, poderá ser plenamente cidadão.

O dicionário da Língua Portuguesa (Houaiss. 2001 ) define aluno como: "Aquele que foi criado e educado por alguém; aquele que teve ou tem alguém por mestre ou preceptor; indivíduo que recebe instrução ou educação em estabelecimento de ensino ou não". Não parece haver nenhuma injustiça no fato de tratá-lo como aluno, assim como não parece haver nenhum descaso em que ele reconheça seu professor apenas como professor, pois essa é a relação que deveria ter lugar privilegiado na sala de aula e na escola. Cada um assumindo o seu papel e seu lugar viabiliza a implantação de uma rotina mais tranquila e respeitosa, onde cada ser poderá olhar para o outro com a certeza de quem ele é, e de qual lugar ele fala no dia-a-dia. Dessa forma é permitido ao aluno que ele se identifique com o professor, criando uma imagem a partir do que é real para ele - mesmo que não seja para o professor. A partir desse novo modo, o professor não necessitará sair de seu lugar para que o aluno se identifique com ele, mas ao contrário, a identificação ocorrerá exatamente pelo fato dele não ter deixado o seu lugar vazio.

Escrito por
Joana Darc Venancio (Redação A12)
Joana Darc Venancio

Pedagoga, Mestre em educação e Doutora em Filosofia. Especialista em Educação a Distância e Administração Escolar, Teóloga pelo Centro Universitário Claretiano. Professora da Universidade Estácio de Sá. Coordenadora da Pastoral da Educação e da Catequese na Diocese de Itaguaí (RJ)

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