Mundo

A crise da Igreja Anglicana e a migração para o catolicismo

Linkedin
Pe Jose Inacio de Medeiros

Escrito por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

23 OUT 2026 - 09H00 (Atualizada em 23 OUT 2026 - 14H19)

Imagem Nishi Sharma Adobe Stock

No dia 11 de setembro de 2026, a arcebispa anglicana de Canterbury, Sarah Mullally, entregou o Prêmio Hubert Walter de Reconciliação e Cooperação Inter-religiosa ao clérigo muçulmano paquistanês Hafiz Muhammad Tahir Mehmood Ashrafi.

A entrega imediatamente gerou forte indignação porque coincidiu com o aniversário de 25 anos dos ataques terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos.

Pouco após a cerimônia, vieram a público declarações feitas por Ashrafi em 2007, nas quais elogiava Osama bin Laden, chamando-o de "guerreiro muçulmano" e sugerindo conceder-lhe o título honorífico de "Espada de Deus". Vieram a público também certas declarações feitas por ele relacionadas aos direitos das mulheres.

Diante da repercussão negativa e das críticas públicas, a arcebispa voltou atrás e retirou o prêmio do clérigo cerca de uma semana após a entrega. Ashrafi defendeu-se, alegando que suas falas antigas foram tiradas de contexto.

Imagem PicsArt Adobe Stock Imagem PicsArt Adobe Stock

No entanto, a polêmica fez reacender a crise pela qual há muito tempo passa a Igreja Anglicana, que vem perdendo sistematicamente muitos membros, a maioria dos quais tem passado para a Igreja Católica. O movimento, que já vinha acontecendo desde o final do século XIX, aumentou muito no século XX, especialmente nas últimas décadas, entrando no século XXI afora.

Crise do anglicanismo

Imagem Marieke Adobe Stock Imagem Marieke Adobe Stock

A atual crise da Igreja Anglicana ou Comunhão Anglicana pode ser explicada por vários fatores, entre eles a profunda divisão teológica, moral e geopolítica que culminou em um cisma histórico. O enfraquecimento da instituição baseia-se em fatores principais: a discussão doutrinária e o desacordo moral.

O ponto central da discórdia relaciona-se com a interpretação das Sagradas Escrituras frente a algumas pautas sociais contemporâneas consideradas mais “avançadas”.

As províncias ocidentais, como a Inglaterra e os Estados Unidos, adotaram uma postura mais progressista, avançando em temas como ordenação de mulheres para o presbiterado e episcopado, bênção litúrgica a casamentos e uniões de pessoas do mesmo sexo e eleição de clérigos abertamente homossexuais ou transsexuais para cargos de liderança.

Para as alas mais conservadoras, essas concessões representam um abandono da autoridade bíblica em favor do consenso cultural secular.

Pouco a pouco a Comunhão Anglicana foi se rachando ao meio geograficamente.

O Norte Global (Ocidente), liderado historicamente pela Sé de Canterbury, na Inglaterra, concentra a maior parte do poder institucional e financeiro, mas conta com uma base de fiéis cada vez mais reduzida e envelhecida. O Sul Global, por sua vez, formado pelas igrejas da África, Ásia e América Latina, se organiza em blocos como a Conferência Global de Futuro Anglicano, representando a maioria demográfica dos fiéis, chegando a quase 80% dos fiéis anglicanos.

Wikimedia Commons Wikimedia Commons

Os líderes do Sul Global rejeitam o que chamam de "colonialismo teológico" do Ocidente, recusando-se a aceitar certas decisões liberais impostas pela Inglaterra.

Como resposta, em eventos recentes, como no sínodo da Igreja, a conferência se estruturou de forma paralela e deixou de reconhecer o Arcebispo de Canterbury como o líder espiritual global da igreja, efetivando o cisma institucional.

Se o anglicanismo cresce no Sul Global, na Inglaterra e nos Estados Unidos, enfrenta uma acelerada queda devido ao envelhecimento e diminuição da população, tendo como consequências templos esvaziados e centenas de paróquias fechadas nas últimas décadas, também reflexo do cenário de indiferença religiosa e secularização acelerada, como acontece no resto da Europa.

Leia também: África supera Europa em número de católicos, aponta Vaticano

Escrito por:
Pe Jose Inacio de Medeiros
Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

Missionário redentorista que atua no Instituto Histórico Redentorista, em Roma. Graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da antiga Província Redentorista de São Paulo, tendo sido também diretor da Rádio Aparecida.

Seja o primeiro a comentar

Os comentários e avaliações são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site.

0

Boleto

Carregando ...

Reportar erro!

Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou de uma informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:

Por Pe. José Inácio Medeiros, C.Ss.R. , em Mundo

Obs.: Link e título da página são enviados automaticamente.

Carregando ...

Enviar por e-mail