Mundo

A República e a preocupação com a “coisa pública”

Linkedin
Pe Jose Inacio de Medeiros

Escrito por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

11 JUN 2026 - 09H01 (Atualizada em 17 JUN 2026 - 13H46)

AlphaHan/Adobe Stock

“A Constituição uniu o país. Preocupam-nos a pobreza, o declínio demográfico e o isolamento individual. As nossas comunidades rejeitam a guerra como meio de resolução dos conflitos e, inspiradas pelo ensinamento do Papa, sentem como urgente a tarefa de educar para a paz e construir comunidades unidas” Cardeal Matteo M. Zuppi, Presidente da CEI

No último dia 02 de junho, a Itália, com feriado nacional, desfiles e outros eventos, comemorou os 80 anos da implantação da República no país. Tudo aconteceu em 1946, no período imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial em que a nação havia, guiada por Benito Mussolini, implantado o regime fascista e se aliado à Alemanha Nazista e ao Japão Imperial, formando a chamada “Tríplice Entente”.

Derrotada pelos aliados encabeçados pelos Estados Unidos, a Itália entrou numa fase de recuperação, já que o país saiu tremendamente maltratado pela guerra, processo lento que levaria décadas para ser concluído.

Diferentemente do Brasil, onde a substituição da monarquia pela república se deu por meio de um Golpe de Estado, na Itália a República foi implantada por meio de um plebiscito em que a população foi chamada a participar.

Takranik/Adobe Stock Takranik/Adobe Stock

Plebiscito vota pela República na Itália

O plebiscito que decidiu pela transição da Itália de monarquia para república ocorreu no dia 2 de junho de 1946, com a vitória da república por 54,3% dos votos contra 45,7% dos que eram favoráveis à monarquia.

Primeira votação com sufrágio universal realizada no país, o voto feminino foi permitido pela primeira vez em eleições nacionais. O referendo foi convocado num contexto de agitações e divisões, uma vez que o Rei Vitorio Emanuel III, desacreditado por ter levado Mussolini ao poder, abdicou em favor de seu filho, Humberto II, numa tentativa desesperada de salvar a monarquia, pois Humberto II era mais “aceitável” pela população.

As urnas mostraram a nítida divisão da Itália. O Norte, fortemente industrializado, encabeçado pela cidade de Milão, e com histórico de resistência ao fascismo, votou em massa pela república. O Sul, mais agrário e tradicional, manteve seu apoio à monarquia.

O referendo colocou fim à monarquia da Casa de Savoia que governava a Itália desde o século XIX, abrindo caminho para a criação da República Italiana. A vitória republicana também levou à formação da Assembleia Constituinte que elaborou a nova Constituição que entrou em vigor em 1948, permanecendo como base da democracia italiana.

“As Igrejas na Itália olham para este aniversário com gratidão pelo caminho percorrido e com preocupação pelas feridas atuais: a pobreza crescente, a queda da natalidade, a desconfiança, as desigualdades, a violência verbal, a indiferença e a tentação de se fechar em um destino individual. Nossas comunidades rejeitam a guerra como meio de resolução de conflitos e, inspiradas pelo ensinamento do Papa Leão, sentem como urgente a tarefa de educar para a paz, zelar pela democracia e construir comunidades, antídotos fundamentais contra toda forma de individualismo”.

kanonsky/Adobe Stock kanonsky/Adobe Stock Igreja Duomo di Milano em Milão, Itália


As relações entre a Igreja e o Estado Italiano

A implantação da República levou as relações entre a Igreja e o Estado Italiano a um novo patamar, que não é, contudo, isento de dificuldades e conflitos.

As relações entre a Igreja e o Estado na Itália são definidas pelos princípios da separação e cooperação. Embora a Itália se declare como um Estado laico, a Igreja Católica exerce uma grande influência social, cultural e política no país.

As bases das relações foram definidas pelo Tratado de Latrão (1929), que criou o Estado da Cidade do Vaticano como um território independente, dando soberania à Santa Sé frente ao governo italiano. Após a queda do fascismo, a Constituição italiana de 1948 reconheceu e protegeu esse tratado por meio do Artigo 7.

Luca/Adobe Stock Luca/Adobe Stock

Em 1984, o Estado italiano e a Santa Sé assinaram o “Acordo de Villa Madama”, fazendo uma revisão do tratado original. Pelo acordo, o catolicismo deixa de ser a "religião de Estado", estabelecendo oficialmente a laicidade do Estado italiano.

Entretanto, apesar da separação institucional, foi também definida a cooperação formal em várias áreas da vida civil, como o Ensino Religioso, a possibilidade dos cidadãos destinarem 0,8% de seu imposto de renda para a Igreja Católica ou para outras confissões religiosas que possuem acordos com o Estado. O Artigo 8 da Constituição também garantiu igualdade de direitos e deveres perante a lei para todas as confissões religiosas.

Na atualidade, a proximidade geográfica e histórica frequentemente gera debates públicos, especialmente sobre questões de bioética, casamento homoafetivo, aborto e imigração. O Vaticano, por vezes, comenta assuntos da política interna italiana, gerando debates entre os defensores da independência do Estado e aqueles que valorizam a herança cristã do país.

A República e o Bem Comum

O conceito de república (do latim res publica, "coisa pública") como forma de governo na qual o Estado pertence ao povo e não a um monarca, sendo o poder exercido por representantes eleitos, traz uma série de implicações na vida dos cidadãos.

O fato de os governantes serem escolhidos por meio do voto para exercerem um mandato com prazo determinado destaca a responsabilidade de cada cidadão no seu correto uso.

Como o poder não é propriedade de uma família ou de um indivíduo, implica que a lei deva ser aplicada de forma igual para todos, sem favorecimentos pessoais. E nem sempre é isso que se percebe, devido aos inúmeros privilégios concedidos a determinadas pessoas ou grupos.

Parte do bom funcionamento republicano é a responsabilização dos governantes pelos seus atos, estando sujeitos à fiscalização e punição no verdadeiro espírito da lei. Por fim, a rotação nos cargos políticos, seja na república presidencialista, onde o presidente é chefe de Estado e de governo, ou parlamentarista, com divisão entre Chefe de Estado e Primeiro-Ministro, serve para evitar a concentração vitalícia de poder e a tirania.

Embora sejam frequentemente associadas, existem princípios diferentes entre a democracia, que define quem detém o poder, e a república, como o poder deve ser exercido para o bem comum, independentemente de quem governa.

E, como parte de todo o processo, está a busca do amadurecimento das instituições que garantem o bom funcionamento da sociedade e o correto exercício do poder por aqueles que o ocupam, com o constante aperfeiçoamento e bom funcionamento das instituições da sociedade.

.:: Conheça também: Santuário na Itália dedicado a São Geraldo Majella

Escrito por:
Pe Jose Inacio de Medeiros
Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

Missionário redentorista que atua no Instituto Histórico Redentorista, em Roma. Graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da antiga Província Redentorista de São Paulo, tendo sido também diretor da Rádio Aparecida.

Seja o primeiro a comentar

Os comentários e avaliações são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site.

0

Boleto

Carregando ...

Reportar erro!

Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou de uma informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:

Por Redação A12, em Mundo

Obs.: Link e título da página são enviados automaticamente.

Carregando ...

Enviar por e-mail