A intervenção cirúrgica em meninos para manter a voz fina já foi um ato considerado normal. Essa foi uma moda que, no início do século XVIII, chegou a envolver cerca de quatro mil crianças por ano. Durante o século XVIII, calcula-se que cerca de cem mil meninos tenham sido submetidos ao procedimento a fim de preservar suas vozes agudas de soprano ou contralto.
Em geral, eles eram provenientes de famílias pobres, mas não só, sendo introduzidos ao ambiente do canto na esperança de se tornarem cantores famosos, com a possibilidade de “dar uma vida melhor” às suas famílias. Essa prática, comum na Itália, preparava pessoas para coros religiosos e ópera, suprindo a ausência de vozes femininas no canto da igreja. Alguns se tornavam superestrelas, embora tenham sido submetidos a uma intervenção tão severa.
O termo "castrados" — castrati, em italiano — indicava um tipo de cantores que, não tendo desenvolvido qualquer característica sexual como resultado de uma intervenção precoce, apresentavam reflexos e poder de voz adulta e timbre de laringe quando crianças. Realizada antes da puberdade, a interrupção das funções testiculares comprometia o aparecimento das principais características sexuais e, em particular, interrompia o desenvolvimento da laringe.
À medida que o corpo do jovem crescia, a falta de testosterona não permitia que as articulações ficassem rígidas, de modo que os membros desses cantores eram anormalmente longos, assim como as costelas da caixa torácica. Essas peculiaridades anatômicas, às quais se somava um treinamento musical intenso, permitiam que tivessem poder vocal e capacidade respiratória incomparáveis, gerando vozes agudas de grande potência e fôlego.
A intervenção ocorria com diferentes métodos e técnicas, em geral sendo feita entre os sete e doze anos. O procedimento consistia na interrupção do desenvolvimento testicular e ligamento dos vasos. O menino era sedado por infusão de ópio ou induzido à perda de consciência temporária por pressão na artéria carótida, interrompendo a circulação. A prática para fins musicais era quase exclusivamente italiana e, segundo o direito, ilegal por ser uma mutilação e, como tal, punível até mesmo com a excomunhão, em se falando do Direito Canônico.
O procedimento não era isento de riscos, às vezes fatais, tanto pelas más condições higiênicas quanto pelo limitado conhecimento médico-cirúrgico. Os principais riscos eram infecções e sangramentos. Como a prática foi formalmente proibida, os dados sobre as operações são escassos, não sendo fácil saber quem realizou o procedimento. Informações indicam que Norcia foi um importante centro dessas intervenções e, por isso, presume-se que as pessoas responsáveis pelo procedimento trabalhassem também com animais. Os poucos documentos existentes, por outro lado, referem-se a operações realizadas por médicos e cirurgiões.
Além dos riscos à saúde dos meninos, outro risco era que a voz não fosse adequada para o canto e, nesse caso, os jovens afastados do palco podiam ser enviados para o estudo de um instrumento ou até mesmo para o sacerdócio. As crianças frequentemente tinham sua tutela confiada a empreendedores, tipo de empresários, que pagavam pela sua formação numa escola, com o estudo durando geralmente de 6 a 7 anos. Durante esse período de formação, as crianças passavam por um intenso treinamento musical de alta qualidade, que as preparava para subir ao palco em pouco tempo.
Uma percentagem significativa das crianças submetidas ao procedimento sofria graves consequências de saúde ou permanecia com sequelas para o resto da vida. O risco, no entanto, era assumido pelas famílias, principalmente por estar ligado ao grande número de filhos de famílias italianas na época e à impossibilidade de os pais sustentá-los ou proporcionar uma vida melhor. No caso de uma criança se tornar famosa, toda a família saía beneficiada, como aconteceu com o cantor Francesco Bernardi, conhecido como Senesino (1696-1758), submetido à intervenção, que colaborou durante a maior parte de sua vida com o compositor Georg Handel.
Mas é claro que nem todos os "cantores" alcançavam fama e a grande maioria acabava integrando corais, formações de igrejas ou até mesmo em trabalhos braçais, convivendo com o impacto da intervenção sofrida. Entre os cantores que se tornaram verdadeiras celebridades, destaca-se Farinelli (1705-1782), nome artístico de Carlo Broschi, o mais famoso entre todos. Sua habilidade musical o tornou uma verdadeira "estrela" da ópera, e seus ganhos eram imensos. Ele se deslocava continuamente pela Itália, Londres, França e Espanha, onde também interpretou o papel de cantor particular do rei Filipe V da Espanha. Quando Fernando VI subiu ao trono, sua importância na corte aumentou ainda mais, apenas para ser dela removido em 1759, ano da ascensão de Carlos III ao trono. Outro cantor que alcançou fama e riqueza foi Gaetano Majorano, conhecido pela alcunha artística Caffarelli (1710-1783).
Embora fossem considerados grandes amantes e celebridades, a intervenção era muitas vezes feita sem consentimento, refletindo uma época de grande valorização da arte vocal acima da integridade física dos meninos. A prática caiu em desuso e foi proibida, com o último castrado conhecido, Alessandro Moreschi (1858-1922).
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