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Conflitos no Irã afetam a Igreja Católica na região

Em meio à escalada de violência no Oriente Médio, o Papa Leão XIV apela pelo diálogo enquanto comunidades cristãs enfrentam vulnerabilidade extrema e perseguição religiosa

Pe Jose Inacio de Medeiros

Escrito por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

10 MAR 2026 - 11H50 (Atualizada em 10 MAR 2026 - 13H34)

Johannes/ Adobe Stock

Desde dezembro de 2025, o Irã vem enfrentando protestos cada vez mais intensos, e mesmo a forte repressão promovida pelas forças policiais do Estado não tem surtido os efeitos necessários. E agora o país sofre com a guerra.

Um dado preocupante é o continuado aumento de vítimas, em grande parte jovens, mortos pelas forças policiais que usam e abusam da violência. Números não-oficiais falam em mais de 13 mil vítimas.

O Irã, desde 1979, quando aconteceu a Revolução Islâmica, é um Estado Teocrático, com o poder maior exercido pelo Aiatolá. Desde então, o islamismo se tornou a religião oficial de Estado e as demais religiões minoritárias, como o cristianismo, o judaísmo e o zoroastrismo, são toleradas como religiões reveladas.

Apesar das dificuldades, a Igreja Católica possui seis dioceses — dos ritos latino, caldeu e armênio — no país, que naturalmente enfrentam muitas dificuldades.

A preocupação com a proteção dos cristãos tem aumentado em meio à tensa situação de segurança em que vive o país, especialmente porque as igrejas no Irã, tanto as que são oficiais quanto as igrejas clandestinas, mantêm laços espirituais e de organização fora do país, e isso sempre foi visto com desconfiança pelas autoridades governamentais.

Segundo a Article 18, uma organização sem fins lucrativos sediada em Londres e dedicada à proteção e promoção da liberdade religiosa no Irã, vários cristãos iranianos de origem armênia foram mortos pelas forças de segurança.   Mas, apesar do medo e da repressão, os cristãos têm desempenhado um papel humanitário nos protestos, fornecendo comida e água aos manifestantes.

tanaonte/ Adobe Stock tanaonte/ Adobe Stock

Expansão missionária em meio às extremas dificuldades

A Igreja Católica no Irã é formada por uma minoria, com cerca de 3 a 8 mil fiéis, inserida num contexto de maioria muçulmana xiita, numa população de mais de 90 milhões de habitantes, enfrentando sérias restrições.

Composta por ritos caldeu, latino e armênio, a Igreja vive sob uma constante e rigorosa supervisão estatal, com a proibição de proselitismo, em que a conversão é considerada uma das formas de influência do Ocidente.  Apesar de sua presença histórica, a Igreja Católica opera em um ambiente teocrático que limita severamente as atividades religiosas fora dos locais de culto tradicionais.

Os povos habitantes da região da Pérsia, precursora do atual Irã, foram citados como parte dos primeiros seguidores de Jesus, conforme a narrativa dos Livros dos Atos dos Apóstolos na narrativa de Pentecostes.

Sabe-se que, no início, o cristianismo alcançou baixa adesão entre os persas, sobretudo por causa do mazdeísmo, uma antiga religião monoteísta fundada pelo profeta Zaratustra entre o II e o I milênio antes de Cristo. Essa religião era centrada no culto a Ahura Mazda (o "Senhor Sábio"), criador do universo e princípio do bem, em luta cósmica contra o espírito do mal, Angra Mainyu (Ahriman). Era também conhecida como a "religião do fogo", sendo uma das mais antigas, influenciada pelo dualismo ético e moral, fundamentada sobre um texto sagrado chamado de Avestã. Seus seguidores ainda deviam praticar os princípios de "bons pensamentos, boas palavras, boas obras".

Na região foram criadas as primeiras comunidades cristãs fora do Império Romano, mas limitavam-se essencialmente a grupos étnicos minoritários, formados, sobretudo, pelos sírios. O advento do islamismo fez com que, assim como acontece no restante do Oriente Médio e regiões adjacentes, essa religião se tornasse predominante e a maioria das comunidades cristãs fosse extinta.

Após a Idade Média, expedições de missionários enviados à Pérsia trabalharam com pouco sucesso. Os dominicanos, por exemplo, foram ativos do século XIV ao XVIII. Outras ordens religiosas, como agostinianos, carmelitas, capuchinhos e jesuítas, chegaram a partir do século XVII. A liberdade religiosa foi concedida em 1834, mas até 1918, os cristãos foram massacrados na Pérsia. Depois de 1830, o rito predominante do cristianismo era a Igreja Caldeia, que, depois de um longo período de dissidência, voltou à plena comunhão com Roma.

A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que, antes da guerra, existiam cerca de 250 mil cristãos no Irã. Outras organizações independentes elevam essa estimativa para 500 e até 800 mil. No período em que o país foi uma monarquia governada pela dinastia do Xá Reza Pahlevi, as religiões puderam se propagar mais livremente e a maioria dos convertidos do islamismo para o cristianismo pertenciam a denominações protestantes.

Os cristãos armênios e assírios até gozavam de um pouco mais de liberdade, sendo tolerados pelo governo, mas, como todos os outros cristãos, incluindo os católicos, são considerados cidadãos de segunda classe, impedidos de assumir cargos no governo ou posições de influência no sistema. A intolerância tem aumentado devido a uma alegada expansão do cristianismo no país nos últimos anos, inclusive entre filhos de líderes políticos e clérigos.

Organização eclesial

Hoje existem 6 circunscrições eclesiásticas no Irã, sendo 4 sedes metropolitanas e 2 dioceses de diferentes ritos. O episcopado conta com 06 bispos católicos dos ritos latino, caldeu e armênio. O núncio apostólico reside em Teerã.

A organização pastoral se fazia por meio de 18 paróquias e 18 centros de atendimento pastoral. Entretanto, havia 15 sacerdotes (oito padres do clero secular e 7 membros do clero religioso ou regular), 3 diáconos permanentes, 3 seminaristas, um irmão consagrado, 26 religiosas consagradas e 41 catequistas. Esses números, porém, são muito imprecisos diante das dificuldades vividas no país e pela falta de comunicação confiável.  A presença de sacerdotes e religiosas consagradas (como as Filhas da Caridade) é extremamente reduzida, enfrentando enormes desafios, sobretudo para a renovação de vistos.

A conversão de muçulmanos ao catolicismo é punível até com a morte, mas tem acontecido e o proselitismo é ilegal. A construção de novas igrejas é proibida e os poucos templos existentes sofrem para conseguir a sua manutenção. O contexto de dificuldades fez com que muitos cristãos imigrassem para os Estados Unidos, Canadá e Europa, diminuindo a presença local.

Em 2024, o Irã foi classificado pela organização Portas Abertas como o 9.º país do mundo que mais persegue cristãos. Com isso, ser cristão e ser membro da hierarquia ou do clero católico é verdadeiramente uma atitude de risco e, a exemplo dos cristãos dos primeiros séculos, expressar e viver a sua fé significa colocar em risco a própria vida.

Agora, com a guerra, tudo se torna imprevisível!

Escrito por:
Pe Jose Inacio de Medeiros
Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

Missionário redentorista que atua no Instituto Histórico Redentorista, em Roma. Graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da antiga Província Redentorista de São Paulo, tendo sido também diretor da Rádio Aparecida.

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