Nos últimos tempos, o latim está voltando a ser uma “língua de moda”, sobretudo, na liturgia, especialmente para aqueles grupos que dizem representar a “verdadeira tradição da Igreja”, clamando pela volta de ritos litúrgicos antigos, rezando a santa liturgia necessariamente em latim.
O latim, porém, nunca foi abandonado pela Igreja, mesmo em tempos de renovação. Documentos pontifícios e dos diversos Dicastérios da Cúria Romana, como encíclicas, bulas e outros, têm sua versão oficial em latim. Em muitas celebrações no Vaticano ou em outras igrejas de Roma, o latim continua a ser a língua utilizada.
Por essa razão, é interessante conhecer a gênese dessa língua e sua aplicação em diversas outras que, como o nosso bom e velho português, têm muitos de seus vocábulos nela originários.
Saber latim
Saber latim ou, ao menos, compreender suas palavras, facilita muito a compreensão de termos presentes em textos científicos, teológicos, filosóficos e do direito. O fato de o latim ser o ponto de partida de outras línguas como português, italiano, francês, romeno, espanhol, inglês, ajuda muito na compreensão dessas línguas e no modo correto de falar e de escrever.
Das palavras que compõem o vocabulário do Brasil, de Portugal e de outros países, 80% procedem do latim e apenas 20% têm outras origens. Na língua inglesa formal, por exemplo, o número de vocábulos originários do latim atinge 60%.
Língua latina antiga e educação clássica
Origem da língua latina
A língua latina teve origem no início do I milênio a.C. na região do Lácio ou Lázio, chamada de Latium, na Itália central. No começo, surgiu como um dialeto falado pelos latinos, um pequeno grupo de pastores e agricultores que vivia na margem do rio Tibre.
Como nenhuma língua é estática, o latim arcaico evoluiu com as influências recebidas dos etruscos e dos gregos antes da expansão de Roma, que depois dominaria uma vasta região, formando um dos maiores impérios de todos os tempos.
No início, a língua se concentrava mais entre os rios Tibre e Liri, área conhecida como Latium Vetus. Com a fundação de Roma, cuja versão lendária tradicionalmente indica o ano 753 a.C., o dialeto latino foi se impondo sobre as outras línguas devido à expansão político-cultural da cidade.
Visão aérea do rio Tibre que atravessa Roma, Itália
A gênese de uma nova língua e suas influências
Com a influência das outras línguas já existentes na Península Itálica, o latim foi ganhando uma configuração própria, podendo ser dividido em vulgar ou erudito, respectivamente usados pela classe alta e baixa.
O latim popular ou vulgar, como ainda hoje acontece com qualquer língua, não se apegava tanto a regras gramaticais, por ser mais utilizado pelo povo e pelos soldados romanos. Já o latim clássico era a língua erudita utilizada pelas pessoas mais letradas. O primeiro, falado pela massa popular, foi o que mais se disseminou e se deixou influenciar pelas línguas dos povos com os quais o império foi mantendo contato, seja pela expansão militar, como também pelas atividades comerciais.
Além destes dois, existia uma terceira classificação, que era o Latim Eclesiástico, a parte da língua que passou a ser utilizada pela Igreja, no período de expansão do cristianismo pelo Império Romano. Conforme o poder da Igreja foi se fortalecendo, com o desaparecimento do culto aos deuses, o latim foi se consolidando como a língua oficial da Igreja. A partir daí, a liturgia, os textos publicados e a documentação oficial terão como base a língua latina adaptada às novas formas de utilização.
Com as variações do latim e com as diferenças oriundas das línguas dos povos vizinhos e daqueles que foram conquistados, fez-se a mistura e adições de palavras. Com isso, outros idiomas autônomos foram sendo criados e transformados.
Não podemos nos esquecer de que não foram os eruditos que trouxeram o português para o Brasil, mas aqueles que, livre ou forçadamente, vieram como colonizadores. Isso explica, ao menos em parte, as diferenças entre o português falado no Brasil em relação ao de Portugal.
O mesmo processo aconteceu com o latim, que passou por muitas mudanças, começando com o latim pré-histórico, que veio antes dos registros escritos, seguido pelo latim proto-histórico, que constava nos primeiros documentos da língua. Depois veio o latim arcaico que, mesmo não tendo um vocabulário muito extenso, esteve presente em alguns textos literários. Por fim, o latim clássico pode ser considerado o “pai” de grandes obras literárias e do aspecto mais erudito da língua. Já o latim vulgar falado pela maioria da população foi o que mais influenciou na composição da nova língua e de outras que se formaram mundo afora.
Uso da língua vernácula na liturgia
Aos poucos, o latim foi deixando de ser utilizado na Igreja, especialmente na liturgia. As reformas que antecederam o Vaticano II, sobretudo com o Papa Pio X, possibilitaram a utilização da língua vernácula para a proclamação do evangelho e homilia dentro da santa missa. Muitos sacerdotes, especialmente aqueles que viviam nos rincões do interior do Brasil, mal sabiam falar o português e como falariam ainda o latim!
Tabuleta de cera antiga com marcas de impressão de estilete
Com a reforma advinda do Vaticano II, passou-se então a celebrar toda a Santa Missa na língua vernácula, mas o latim ainda se manteve como a língua oficial da Igreja.
Antes disso, no período medieval e no início da Idade Moderna, a constituição do Sacro Império Romano-Germânico, com a ascendência de povos de outras regiões, obrigou a uma maior variação das línguas.
A língua italiana tornou-se oficialmente a língua da nação em dois momentos-chave da história:
1°- Com a unificação da Itália, a partir de 1861, o italiano, então baseado no florentino literário, tornou-se a língua oficial do estado, embora na época fosse falado por uma pequena porcentagem da população, que se comunicava principalmente por dialetos locais.
2°- Em 1948, o italiano foi reconhecido e protegido como língua oficial da República Italiana com a entrada em vigor da Constituição Italiana. Apesar disso, estudiosos da língua estimam que existam cerca de 34 grandes grupos de dialetos na Itália atual, que se dividem em centenas de dialetos menores.
Em tempos de tantas mudanças e variações culturais, dificilmente o latim retornará como a língua exclusiva utilizada na liturgia da Igreja, mas não diminuirá o seu valor, especialmente porque existe um passado de mais de mil anos que não pode ser abandonado. Os historiadores são prova disso!
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