Mundo

França, um país tradicionalmente católico em vias de transformação

Que nação o Papa Leão XIV encontrará em sua visita apostólica?

Linkedin
Pe Jose Inacio de Medeiros

Escrito por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

24 SET 2026 - 10H04

rparys/ Adobe Stock

Em sua viagem à França, de 25 a 28 de setembro, o Sumo-Pontífice visitará a capital, Paris; estará em Lourdes, onde se encontra um dos santuários marianos mais visitados do mundo, e também visitará a cidade de Metz.

A viagem está sendo esperada com bastante curiosidade, cercada de especulações, esperando-se a repetição de grandes manifestações de fé e religiosidade, como aconteceu em sua viagem à Espanha em junho passado, por ser a França uma das grandes nações católicas do mundo, apesar das profundas mudanças sociais e religiosas que vêm ocorrendo no país desde a década de 1960.

Reprodução/ Vatican Media Reprodução/ Vatican Media

Catolicismo em mudança

A Igreja Católica francesa vive hoje um paradoxo entre a profunda secularização da sociedade e um ressurgimento surpreendente de conversões e batismos de pessoas jovens e adultas.

Os números reforçam o crescimento da secularização, uma vez que cerca de 51% das pessoas adultas não declaram filiação religiosa e somente 8% frequentam a igreja regularmente. Nas últimas décadas, a ausência de religião tornou-se estatisticamente dominante em comparação à prática religiosa ativa.

Apesar da queda de participação, o que se reflete na sua própria organização, a Igreja vem se tornando uma comunidade menos envelhecida do que em décadas passadas. Os católicos são menos numerosos, mas vem se notando um crescimento de sua presença de forma mais visível e comprometida no espaço público.

As estatísticas mostram que apenas 20% dos recém-nascidos são batizados nos sete anos seguintes ao nascimento, o que faz com que a religião católica já não seja mais o credo religioso predominante no país.

Causas religiosas e socioculturais tentam explicar a diminuição do espectro católico da França, todas elas bastante comuns nos demais países da Europa Ocidental, embora a França seja justamente o país onde esse processo está mais intenso e avançado.

Contrariamente ao período posterior à Segunda Guerra Mundial, em que o catolicismo era predominante na sociedade, hoje ele divide a preferência religiosa das pessoas com o islamismo e com o protestantismo, sobretudo evangélico, fazendo com que o panorama religioso seja muito menos desequilibrado.

O que esperar da visita do Papa à França?

Uma França menos católica: expressividade dos números

Na França, que sempre foi um país de tradição cultural católica amplamente majoritária, 90% a 95% das pessoas eram batizadas nos anos 1960, mas isso mudou bastante e agora o país é um dos mais afetados pela secularização.

A transformação social e religiosa que começou a ser mais intensa a partir da década de 1960 foi provocada pela queda da natalidade, pela diminuição do número de casamentos, pela diminuição do número de famílias tradicionais e pelo envelhecimento geral da sociedade, aliado a mudanças culturais e no modo de viver das pessoas. Isso acabou provocando uma queda acentuada no número de padres e religiosos, que passou de quase 39 mil em 1980, para cerca de 12,5 mil em 2024.

A diminuição também se fez notar na vida religiosa consagrada. O número de religiosos, que em 1980 era cerca de 92,4 mil, passou para 19,6 mil em 2024, em ambos os casos, somando homens e mulheres consagrados. O número de bispos caiu de 197 para 186.

Em 1980, havia 38,4 mil paróquias na França, ao passo que, em 2024, esse número havia sido reduzido para 10,9 mil.

Ainda que não haja registros oficiais ou notícias do número de templos que tenham sido fechados na França, o fechamento ou desconsagração de templos tem crescido, impulsionado pela falta de recursos para manutenção de edifícios históricos, pela secularização e pela diminuição da frequência ao culto. Relatórios apontam que centenas de igrejas históricas enfrentam riscos de abandono, demolição ou venda ao longo dos anos, mas não há dados específicos de fechamento.

Mistervlad/ Adobe Stock Mistervlad/ Adobe Stock

Renasce a esperança de uma acentuada transformação

Graças aos imigrantes cristãos que chegam de fora da Europa, a Igreja Católica hoje se faz mais presente nas periferias, com alguns estudiosos falando em “crioulização do catolicismo francês”.

O país tem visto também o despertar visível da fé, com mais de 20 mil batismos de adultos, jovens e adolescentes registrados na Páscoa desse ano, impulsionando um movimento de criatividade apostólica e acolhimento nas dioceses e paróquias.

Por essas razões, as diferenças de idade são hoje menores do que num passado recente, porque o afastamento iniciado nos anos 1960 e 1970 começa a ficar um pouco distante. Aqueles que se afastaram, nascidos nos anos 1950, estão agora na faixa dos 75 anos e a pirâmide etária, portanto, se reequilibrou um pouco mais.

O número de batismos, que havia caído consideravelmente, passando de 400 mil nos anos 2000 para 200 mil por ano, começa a se reequilibrar com o aumento do número de catecúmenos.

Outro fator que precisa ser mencionado é a ação dos influenciadores católicos nas redes sociais. A Igreja, que sempre acompanhou as mudanças tecnológicas, possui agora representantes entre os influenciadores e, como ainda mantém uma presença pública, eles encaminham parte do mundo presente nesses espaços virtuais para as paróquias.

Elemento que ganhou visibilidade, especialmente após a reconstrução da Catedral de Notre-Dame, é o apreço pelo patrimônio histórico e pela cultura cristã. Deve ser também anotado o engajamento caritativo da Igreja, que ajuda a aproximar parte da sociedade novamente do catolicismo.

A Igreja na França tem atuado como uma minoria vigilante e engajada em debates públicos importantes, manifestando-se frequentemente sobre questões éticas e sociais do país, como as discussões recentes em torno de leis de fim de vida e eutanásia.

Espera-se que a visita do Papa Leão XIV, assim como havia acontecido nas visitas realizadas pelos papas anteriores, possa gerar uma nova retomada da fé, consolidando o movimento que vem acontecendo nas últimas décadas, com reflexos importantes nas vocações à vida religiosa consagrada e sacerdotal.

LEIA TAMBÉM: Papa Leão XIV visitará a França em setembro

Escrito por:
Pe Jose Inacio de Medeiros
Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

Missionário redentorista que atua no Instituto Histórico Redentorista, em Roma. Graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da antiga Província Redentorista de São Paulo, tendo sido também diretor da Rádio Aparecida.

Seja o primeiro a comentar

Os comentários e avaliações são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site.

0

Boleto

Carregando ...

Reportar erro!

Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou de uma informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:

Por Redação A12, em Mundo

Obs.: Link e título da página são enviados automaticamente.

Carregando ...

Enviar por e-mail