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Uma homilia em homenagem a Cristiana Lôbo

Escrito por Redação A12

12 NOV 2021 - 14H41 (Atualizada em 12 NOV 2021 - 15H45)

Reprodução/G1/Globoplay cristiana-lobo (Reprodução/G1/Globoplay)

Morreu na quinta-feira (11), aos 64 anos, a jornalista e comentarista de política da Globonews, Cristiana Lôbo. Ela estava internada no Hospital Albert Einstein, em São Paulo (SP) e contraiu, nos últimos dias, pneumonia, o que agravou o quadro de mieloma múltiplo. Ela tratava da doença há alguns anos.

Cris, como era conhecida dos colegas de profissão, era jornalista há mais de 30 anos e passou primeiro pelo jornalismo impresso, Folha de Goiás, Estadão e O Globo. Depois atuou também em outros meios de comunicação do Grupo Globo, onde, desde 1997, fez história no jornalismo político da Globonews, G1 e TV Globo. Em nota, o diretor-geral de Jornalismo da Globo, Ali Kamel, classificou a colega como “um ser humano doce, gentil, amigo das pessoas".

“Cris era uma profissional ímpar. Eu comecei a trabalhar com ela em 1991, em Brasília, quando dirigi a sucursal do Globo. Nesses 30 anos, Cris sempre se mostrou uma profissional exemplar, correta, zelosa, ansiosa pela notícia em primeira mão. Pude sempre reconhecer nela um ser humano doce, gentil, amigo das pessoas. O jornalismo perde um talento enorme. Pelos depoimentos que ouvi, porém, a generosidade dela ajudou a deixar incontáveis discípulas e discípulos. É um grande legado”, disse o diretor.

A missa de corpo presente ocorreu às 9h, nesta sexta-feira (12), em Brasília (DF), na Paróquia Perpétuo Socorro, localizada no Lago Sul. Uma comunidade cuidada desde a fundação pelos redentoristas, a qual Cristiana costumava frequentar em algumas ocasiões. A celebração foi restrita a familiares e amigos e presidida pelo missionário redentorista e também jornalista, Padre Rafael Vieira.

Reprodução/G1/Globoplay
Reprodução/G1/Globoplay


"Estamos diante de um mistério profundo. A vida e a morte. Tanta gente partindo. Ontem, 11 de novembro, partiu nossa querida Cristiana Lôbo. Toda reverencia que nos for possível será necessária", disse o padre em sua homilia.

"A reverência que se pede aqui é cheia de ternura e gratidão, amorosa, íntima na fé, e não aquela distante e sem vínculo com a pessoa que reverenciamos. O Apóstolo Paulo, provado no amor e falando aos cristãos de Roma, nos situa de maneira correta e profunda nesse ambiente de reverência. Ele sabe que o nosso coração sofre, se angustia. Mas, ele sabe também “que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,38-39).

O mistério que celebramos hoje, diz o padre, é o mistério da vida em Cristo Jesus: 

"Não pagamos nenhum tributo e não fazemos reverência à morte e aos seus estragos na consciência do que a humanidade é e realiza nesse mundo. A morte, vencida por Cristo, na cruz e por amor, não pode nos separar e nem ameaçar o amor que sentimos e vivemos. Portanto, nesse momento, estamos aqui para celebrar a vida eterna da Cristiana, no amor. Celebrar a vida da Cristiana vivida, com sentido. Celebrar o sofrimento vivido pela Cristiana nessa última fase da vida, com sentido. Celebrar essa despedida que estamos fazendo no momento, com sentido. E esse sentido é o amor de Cristo. O Cristo que nos acolhe e que, conosco, se oferece por nós, ao Pai no sacrifício da Eucaristia".

Leia MaisPerdas sentidas e o que delas podemos aprenderPadre Rafael também pontua:

Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus. Na casa de meu Pai, há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós, e quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós” (Jo 14,1-3).

A homilia continua com palavras fortes de respeito à jornalista:

A palavra de Jesus nos introduz no mistério da vida após a morte de maneira simples, tranquila e confortável. O termo morada é muito bonito. O pós-morte é chamado de lugar que, mesmo com os descontos filosóficos, é um imaginar e compreender.

Não um lugar solto no ar, mas um lugar seguro, um lar, uma morada, um lugar onde dependuramos nossas memórias, celebramos nosso cotidiano, descansamos de nossa fadiga, curtimos nosso tempo livre. Um lugar de convivência íntima, de amparo para quem amamos. Ao nos evangelizar dizendo que a eternidade é uma morada, Jesus nos dá as respostas básicas da nossa natureza humana ansiosa. Uma morada. Um lugar onde poderemos viver em paz e para sempre.

Outra palavra forte e densa dessa passagem proclamada hoje: é o próprio Jesus que vai preparar para nós essa morada. E precisou ir antes para fazer isso. Viveu entre nós, nos ensinou o caminho da justiça e do amor e, incompreendido, foi acusado injustamente, condenado injustamente, assassinado numa cruz. E a tudo isso venceu. Ressuscitou. Livre, ele foi nos preparar uma morada. Foi antes de nós. Mas, segundo o que o Evangelho de hoje afirmou, voltou para nos buscar. Muito além de todos os questionamentos sobre a conveniência da hora e as circunstâncias físicas do modo como ocorre a nossa morte, interessa colocar em relevo que é o próprio Cristo que nos busca. Não envia intermediários para nos deixar inseguros quanto ao destino que nos foi reservado. Ele próprio vem nos buscar. Ao vê-lo, o destino está seguro e acompanha-lo, já é o inicio da melhor vida que podíamos imaginar.

Uma última palavra na declaração de Jesus sobre o que nos aguarda após a nossa morte também merece uma atenção no dia de hoje. É como se Ele dissesse, em termos de hoje: '"Faço tudo isso porque gosto de estar com você e quero sempre estar com você! Vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós”. Não há o que temer, portanto. Não há o que lamentar, portanto. Como todo mistério, restarão ainda muitas facetas desconhecidas, perguntas sem resposta e a impressão de que há muito o que conhecer. Mas, as luzes da palavra de Jesus são suficientes para realizarmos agora um ato de gratidão, de ação de graças, de homenagem e de louvor pela vida da Cristiana Lôbo.

Junto com o Murilo, esposo da Cristiana, e com toda a sua família, estamos unidos num só coração nesse momento. Pulsando junto, rezando. Creio que quase todas as pessoas aqui presentes devem ter uma linda história de vida com a Cris. Eu peço que, espiritualmente, todos coloquem essas memórias no altar junto do pão e do vinho para a nossa oferta final, junto com Jesus, ao Pai, na luz e na força do Espírito Santo.

Eu tive a oportunidade de participar da Eucaristia muitas vezes na companhia da Cris e, por isso, sinto-me espiritualmente amparado. Mas, gostaria de colocar no altar do Senhor duas situações nas quais a Cris se mostrou absolutamente entregue ao que Jesus testemunhou entre nós: dando a vida pelo outro. Eu me lembro que, aqui mesmo nessa igreja, na paroquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Lago Sul, em Brasília, na missa de sétimo dia do jornalista Jorge Moreno, a Cris se multiplicou em várias pessoas para ajudar na celebração, reunindo amigos e, em meio às lágrimas que brotavam, ela esteve firme, fez leitura e rezou pelo amigo querido que partiu.

Outra vez, pedi a ela que me apresentasse um jovem jornalista que faz aparições ao vivo na Globo News e ela nos convidou para um almoço, na casa dela. Bastava muito menos. Bastava um contato. Ela ia muito além, sempre. Eu acompanhei depoimentos de muita gente de ontem pra hoje na rede social e na TV e essa postura, essa atitude estava por detrás de todas as histórias. Um dos seus colegas escreveu: querida, amável, afetiva, carinhosa, gentil. Eu acrescento: uma amiga generosa, cuidadosa, discretíssima e muito especial.

Outras várias situações, penso ser compartilhadas por meio mundo de assinantes de TV, foram aquelas em que a Cris nos ajudou a entender o Brasil. Entender o Brasil nunca foi uma tarefa fácil, mas hoje em dia, tem sido quase impossível. Ela enfrentava esse ofício com grandeza, ética, competência, elegância e sabia dizer coisas graves com uma doçura singular. A grande profissional que a Cris foi não precisa dos meus enfeites. Mas, penso que seremos milhões de pessoas nesse país que foram tocados pelo trabalho da Cris e que poderíamos colocar, juntos, essa vida consagrada ao jornalismo sério ali no altar do Senhor.

Cristo conheceu a Cristiana melhor que nós. Cristo preparou para ela uma morada. Cristo a buscou e a levou Consigo. Cristo está aqui, entre nós. A Cris também.

Amém.

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