Por Felipe Marton dos Santos Em Santo Padre

Francisco do século XXI

“Francisco, vai e reconstrói a minha Igreja, que está em ruínas!”. Há cerca de mil anos, essas palavras ecoavam no coração de um jovem em Assis, que deixou-se maravilhar pela grandeza de Deus em Sua criação e sentiu-se completo, a ponto de deixar aquilo que aos olhos do mundo parecia tudo para abraçar a invisível totalidade do amor de Deus. O jovem Francisco de Assis passou então a confrontar o mundo com suas ideias revolucionárias: Ater-se ao essencial, focar-se na imensidão simples e, ao mesmo tempo, absoluta, da misericórdia de Deus que parecia, naquele momento, estar preso nas grades de uma instituição preocupada com tudo menos com o real objetivo de sua obra - apresentar o rosto salvífico de Cristo aos homens.

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O irmão de Assis começa então a ganhar adeptos, a reunir forças e tomar forma, como mais uma instituição detentora da custódia de Deus. Porém, o coração que se encontra verdadeiramente com o amor de Deus não se preocupa com poder ou status, quer apenas transmitir a seus semelhantes a mesma experiência desse amor capaz de mudar toda a trajetória da vida humana. Então, quando chamado pela autoridade máxima da Igreja a que servia e, obsequiosamente, convidado a escrever uma Regra que determinasse as linhas de ação daquele grupo de pessoas que partilhavam dos mesmos ideais, apresenta, prontamente, ao sumo pontífice os Evangelhos de Cristo. Não há regra maior do que os ensinamentos do Filho de Deus aos homens. Em uma mensagem sucinta e humilde, lembra à Igreja fundada por esse mesmo Cristo que quando o caminho torna-se incerto não é a sabedoria dos homens que nos garantirá a salvação, mas as palavras de Jesus, perpetuadas no Evangelho, que nos servirão de base sólida durante a tribulação.

 

"Com sua vida, com seu testemunho, Francisco reconstruiu a Igreja de Cristo que estava em ruínas". 

Com sua vida, com seu testemunho, Francisco reconstruiu a Igreja de Cristo que estava em ruínas. A ação misericordiosa do Cristo, através de um jovem sem grandes atributos físicos ou intelectuais, fez com que Sua Igreja perdurasse por mais mil anos.

Mas o coração do homem é duro. E sendo a Igreja formada por homens, ela muitas vezes envereda-se por caminhos marcados pelo egoísmo, pelo desamor, pelo poder. E não foi diferente nos mil anos que se seguiram ao acontecimento de Assis. Se a presença do próprio Deus em meio aos homens não foi capaz de garantir a plenitude da ação evangelizadora da Igreja, não seria diferente com um homem, ou com os tantos outros que conseguiram entender a mensagem do Evangelho no decorrer da história. A Igreja é formada por homens, mas é fundada no Espírito Santo! E se mil vezes os homens caírem, Deus virá ao socorro de Sua Igreja em todas elas, até que se chegue à plenitude dos tempos em que não haverá mais erro, não haverá mais engano.

Mas enquanto aguardamos esse glorioso dia, necessitamos de amparo, necessitamos de um recanto seguro onde possamos recuperar as forças dispendidas nas batalhas diárias de um mundo repleto de dor. E Deus não esteve alheio aos diversos enganos cometidos no decorrer dos anos; em toda a história Ele agiu para garantir que, mesmo em meio aos erros, a Igreja estivesse presente no mundo para levar os homens à salvação. Por diversas vezes, Deus intervém em realidades particulares para que seu amor seja levado aos homens. Mas em alguns momentos a intervenção acontece de modo global.

A dinâmica entre erros e acertos da Igreja Católica é visível, e até o mais descrente irá aceitar o fato dos inúmeros benefícios que a Igreja traz à humanidade. Fato é que para Deus, em sua infinita misericórdia, os erros não são relevantes: Ele os perdoa, mas para os homens os erros começam a tornar-se mais importantes do que a graça, e é aí que Deus age nos Franciscos de nossos dias.

O mundo assistiu atônito nos últimos anos a ação de Deus reconstruindo Sua Igreja. Desta vez, novamente, o mais improvável dos fatos lançou no coração dos mais altos cargos hierárquicos da Igreja o apelo de Cristo: “vai e reconstrói a minha Igreja, que está em ruínas!”. Um Papa, em seu poder soberano, reinante na Instituição mais poderosa em um mundo sedento por poder, tachado de “triunfalista”, repete o gesto do jovem de Assis, e deixa tudo para seguir a inspiração divina que seria responsável por abalar o mundo crente e não crente. Um novo Francisco brota da renúncia histórica de Bento XVI. Ele Bento XVI, Joseph Ratzinger, torna-se imediatamente um Francisco mostrando ao mundo que não era o poder que o movia, mas o desejo sincero de levar o mundo a encontrar-se com Deus. E reconhecendo-se incapaz de levar adiante tal tarefa, realiza o “absurdo” ato de deixar o papado, entregando ao mundo cristão católico as chaves da salvação da Igreja. Deus não se cansa de nos surpreender e, novamente, pasma o mundo ao abrir as janelas do balcão papal e anunciar, através da trêmula voz de um idoso cardeal, um nome que encheria os corações de esperança e que levaria adiante a missão iniciada por Bento ao renunciar o papado: Francisco!

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"Surge então o bondoso senhor, ornado em vestes brancas, de semblante tranquilo mesmo diante da pesada cruz que acabara de assumir... Era Francisco."

Surge então o bondoso senhor, ornado em vestes brancas, de semblante tranquilo mesmo diante da pesada cruz que acabara de assumir. Uma cruz de prata, um sorriso singelo. Curva-se diante do mundo católico pedindo que orem por ele. Era Francisco reconstruindo a Igreja de Deus. Naquele momento a Igreja parecia retornar às mãos do povo, certa de que sua instituição é necessária mas que compõe-se não por um grupo restrito de pessoas, capazes de acorrentar Deus e dosá-lo de acordo com os próprios desejos àqueles a quem bem entendesse, mas por todos aqueles que trabalham pela obra.

O Francisco do século XXI é, portanto, formado por uma dupla identidade. Da humildade pontual de um homem ciente tanto de sua pequenez, quanto da necessidade da Igreja reconstruir-se. E da bondade generosa e coerente de um homem que, acima de tudo, vive aquilo que acredita. Sabemos que, provavelmente, nos anos vindouros erros serão cometidos. Mas fatos como esses, da ação visível e palpável do amor de Deus pelos Seus, nos impulsionam a abraçar a essência que um dia tomou conta de um jovem desejoso de viver a intensidade do amor de Deus, e que hoje se repete no sim de um homem a deixar o poder e na escolha de outro em seu nome, identidade para o serviço a ser iniciado: Francisco!

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