Donato Jiménez Bibiano

UM MENINO QUE NÃO PROMETE MUITO

Missionário: esta palavra define bem a personalidade e a vocação do padre Donato Jiménez, que nasceu em Alaejos, província de Valladolid, aos 21 de março de 1873, e foi batizado no dia 25 do mesmo mês. Seu nome, Donato, era um presságio, pois passaria a vida dando-se às almas por amor a Deus.

Miguel Jiménez, pai de Donato, faleceu quando ele tinha apenas quatro anos. Como próspero exportador que era dos bons vinhos de Alaejos e de Nava del Rey, parecia ter deixado assegurada a boa situação econômica da família. Não foi bem assim, entretanto. Com a incumbência já enorme de manter e levar avante a educação dos sete filhos, dona Brígida Bibiano viu-se assoberbada pelos negócios, e só à custa de sua força e confiança em Deus, e com a colaboração de todos os filhos, conseguiu não deixar atolar o carro da economia doméstica. Até Donato, o caçula, para ajudar, se pôs a vender castanhas. Ganhou, com isso, o apelido de Castanheira.

Donato começou a ir à escola aos seis anos, com o irmão mais velho. Gostava mais, no entanto, de correr pelas ruas e brincar. Tinha de ser seguido e vigiado para se ter certeza de que entrava mesmo na escola. Às vezes, era só à força que a mãe ou o irmão maior o levavam até lá e entregavam nas mãos do professor. Mesmo assim, vez ou outra conseguia fugir. Aos oito anos, foi reprovado pelo pároco no exame de catequese, não podendo então fazer a primeira comunhão. Isso mexeu com seu amor próprio, e ele se pôs a estudar com mais empenho o catecismo para, no ano seguinte, receber a Eucaristia. Conseguiu.

Com um amigo, foi até a ermida da Virgem e lhe prometeu ser melhor dali em diante. Aliás, todos pensavam que, com a primeira comunhão, ele mudaria. E mudou... mas, para pior. Suas peraltices cresceram em número e em qualidade. Ia cada dia menos à igreja. Suas companhias não eram das melhores. Dona Brígida nada sabia por que caminhos andava seu caçula. Já aos treze anos, por bem ou por mal, entrava em cassinos, bilhares, teatros e bailes. Tudo parecia dizer que ia de mal a pior. Sinais de vocação ao sacerdócio? Por enquanto nenhum. Só uma esperança: como ele mesmo testemunhará mais tarde, nunca deixou de recomendar-se à Virgem.

De 17 a 30 de março de 1887, dois missionários de Nava del Rey, padres Negro e o francês Lorthioit, pregaram missão em Alaejos. Donato sentiu-se atraído por eles. Brigava com outros para ser ele o coroinha nas missas que eram celebradas pelos missionários sempre antes de o dia amanhecer. Ao final, ainda de acordo com seu testemunho, o que mais lhe agradou na missão foi um solene ato de desagravo à Virgem do Perpétuo Socorro.

E Donato começa a converter-se. Aos poucos, deixa a companhia dos amigos, que já o estavam transformando num verdadeiro depravado, e passa a fazer amizade com o sacristão da paróquia de São Pedro. Um dia, este lhe conta que estava se preparando para entrar em Nava del Rey. Donato se pôs a pensar: “Que bela vocação escolheu. Porque não faço eu o mesmo?” Passa a ajudar a uma ou duas missas todos os dias, depois fica na igreja por boa meia hora rezando o rosário, comunga pelo menos aos domingos... Já era outro Donato.

Ao falar com a mãe de sua vontade de se tornar sacerdote, recebe dela forte recusa. Uma paroquiana devota, que o via rezar na igreja, ofereceu-se para rezar por sua vocação e a falar com sua mãe. Quando Donato falou com dona Brígida pela segunda vez, esta não só não lhe fez oposição, mas o ouviu com muito agrado.

Convencida a mãe, teve depois de convencer a seu padrasto. A devoção a São José o ajudou. E dinheiro para pagar os estudos no colégio? Novamente com a ajuda da paroquiana que convencera sua mãe, e do Arcebispo de Alaejos, venceu também este obstáculo. Por fim, com mais três companheiros, em 19 de setembro de 1887, entra no seminário.

Aberto e expansivo, dava-se bem com todos. Muito bem igualmente nos estudos e no comportamento, terminou o colégio sem maiores novidades. A 12 de agosto de 1892 davam entrada no Noviciado dois dos quatro de Alaejos que haviam entrado juntos: Donato e Saturnino Martín. Os outros dois saíram por motivos de saúde.

Seu conterrâneo e companheiro, padre Martín, assim escreveu sobre ele em suas recordações: “No Seminário, Donato foi sempre edificante, piedoso, aplicado, obediente, caritativo, sincero e franco com os Superiores. Como era dócil, expansivo, de bom caráter e prestava-se a tudo com boa vontade, os professores tinham grande confiança nele... No Noviciado, continuou cada vez mais piedoso, alegre e comunicativo. Tinha muita ordem em suas coisas, muito esmero e asseio consigo mesmo; estava com a batina sempre limpa e bem passada”.

Padre Chavatte, mestre de Noviciado, cedo percebeu em frater Jiménez um fundo de vaidade que teria de combater, e não se enganava em sua percepção. Mandou-o que colocasse, nas costas, um avental de cor azul e com ele ficasse durante todo o dia. Seus companheiros riam-se dele, mas ele suportou a provação com humildade e paz interior.

Superando assim vaidade e outros defeitos, terminou o Noviciado e, em 8 de setembro de 1893, pronunciou, com grande fervor, os votos religiosos. Vai para Astorga e inicia os estudos de Filosofia e Teologia. O mesmo padre Martín, companheiro dos anos de estudantado, assim escreveu sobre ele: “No Seminário Maior, continuou sua vida de piedade e até a fez crescer. Por isso o padre Prefeito lhe dava cargos de confiança. Fez os estudos maiores com grande aplicação: embora não chegasse a ser extraordinário, tinha muito talento e era esforçado. Ordenou-se sacerdote em 27 de maio de 1899”.

Passou seu primeiro ano de atividade sacerdotal em Nava del Rey, como auxiliar do Mestre de noviços. Era religioso de vida edificante que contribuía, e muito, para o clima de piedade que devia reinar na casa. Já nesse ano, ao pregar os exercícios anuais para a Confraria de São Francisco de Paula, começou a colher os primeiros frutos de sua boa oratória. As senhoras pertencentes a essa Confraria, de uma maneira geral, não iam lá muito bem tanto na vida de piedade quanto nas atividades próprias da Confraria. Um dos motivos disso era porque, nos últimos anos, não haviam tido um bom pregador que lhes avivasse o ânimo. Padre Jiménez, no entanto, teve tamanho êxito que, ao final, as velhas senhoras choravam de alegria dizendo que ninguém até então lhes havia tocado tanto a alma.

Em 23 de setembro é designado para o El Espino como professor de latim e como segundo auxiliar do Diretor do Seminário. Logo nos primeiros dias de outubro vai a Solduengo, um lugarejo próximo, para pregar um tríduo. Grande foi o sucesso e tanto gostou o povo que, tendo ido a pé para lá, deram-lhe, para voltar, um fogoso cavalo. Como testemunhará mais uma vez o padre Martín, “... seus sermões eram substanciosos e bem trabalhados”.

O fervor e elevada espiritualidade do padre Jiménez puderam ser apreciados por quantos com ele conviveram, e são comprovados por alguns de seus escritos espirituais que foram salvos no meio de todo aquele naufrágio de coisas religiosas levado a efeito pelos perseguidores, para quem qualquer papel em que se encontrasse escrito o nome de Deus podia levar o autor à morte.

Teceu para si uma espécie de regulamento de vida, no qual se pode ler, entre outras normas: “Ao ouvir o toque da campainha, eu me levantarei prontamente da cama, oferecendo essa primeira mortificação a Jesus Cristo... Ao colocar a batina, eu a beijarei, pedindo a Nosso Senhor e à Santíssima Virgem ser enterrado com ela. Entregarei o coração a Jesus Cristo, não permitindo que se apegue às criaturas... E os olhos, que para mim são o maior perigo, como me disse o padre Prefeito... Vem depois o ‘eu’ pessoal, tão querido. Quanto à minha honra, já a depositei nas mãos de Jesus Cristo... Quero ser um defensor da Santa Regra e defensor acérrimo da autoridade; nas sugestões contrárias, eu me conduzirei como nas tentações contra a fé e a castidade”.

Em 1923, pregou exercícios espirituais para 550 homens em Nava del Rey, conseguindo muitas conversões. Segundo a crônica da casa, “falou como um verdadeiro missionário”. Mesmo sem técnica de voz, pois começava em um tom muito alto e já na metade do sermão estava meio afônico, fazia seu auditório suspirar e derramar lágrimas. Com o tempo, foi moderando esses fervores de principiante e aprendeu a economizar a voz. Era afável, sorridente, entusiasmado e prestativo, e com isso ganhava os corações.

Residindo em Astorga, Pamplona e Santander, foi o grande missionário da Galícia, León, Astúrias, Santander, Burgos e Navarra. Era chamado com freqüência para pregações solenes, como também para pregar exercícios espirituais a religiosos e religiosas. Muitos conventos, tanto masculinos como femininos, lhe devem bom número de vocações, tal era sua habilidade em conquistar jovens para a vida religiosa.

Além disso, ocupou na Congregação, postos de responsabilidade: foi Superior das Comunidades de Pamplona (nove anos), Santander (três anos), e Vigo (dois anos). Sempre se destacou por sua atividade; costumava dizer que, em suas Comunidades, não queria mais que gente que pudesse trabalhar. Sabia conduzi-las nos caminhos de profunda piedade e sólido crescimento espiritual. Não era homem perfeito, contudo: em seu otimismo não tinha olhos senão para ver seus triunfos.

 

Ao deixar o cargo de Superior em Vigo, em junho de 1936, foi destinado para a Comunidade de São Miguel, em Madri. Fazia apenas duas semanas que estava ali quando estourou a guerra civil. No dia 20 de julho, abandona a casa religiosa e se refugia na casa de um amigo e conterrâneo seu, o senhor Jerônimo Fernández Puertas. Aí permanece até o dia 12 de setembro, levando vida de recolhimento e oração, e saindo unicamente para celebrar missa na Nunciatura.  Otimista, estava convicto de que a vitória da Espanha nacionalista não passaria de dias.

De repente chega a seus ouvidos que umas mulheres estavam comentando que no número 8 da Cava Baja – endereço do senhor Jerônimo – estava escondido um frade. Para não colocar em perigo a vida de seu amigo, decidiu sair. Este se opôs, dizendo: “Padre, não se vá. O que lhe acontecer que aconteça também a nós”. Apesar disso, padre Jiménez se julgou na obrigação de sair para não comprometer o amigo. Escondido o mais que pôde, no dia 12 estava na casa de Lola Moreno.

Tudo parecia tranqüilo... até o meio dia do dia 13, quando se apresentaram sete milicianos, armados de fuzis e pistolas. Lola e o padre combinaram que ele seria apresentado como uma visita sua. De nada adiantou, pois eles já lhe sabiam o nome e condição. Levaram os dois para a casa de detenção e interrogatórios. Lola Moreno, diante de perguntas ofensivas e trapaças canalhas, respondeu-lhes com toda valentia: “Podem matar-me, mas nunca negarei o que sou: católica, apostólica, romana. Não me impressionam as calúnias que quiserem inventar”.

Às cinco da tarde, padre Jiménez foi colocado no porão da casa de detenção, onde não havia nem luz nem ventilação direta. Ali encontrou padre Jenaro Javier Vallejos, célebre escritor, que entretanto conseguiu ocultar sua condição de sacerdote e acabou se salvando. Foi ele quem, mais tarde, forneceu interessantes dados sobre seu companheiro de prisão.

Conta, por exemplo, que os que já estavam ali, ao verem aquele homem de batina negra, sorridente e de semblante sereno, logo pensaram: “Este é frade. Não dá para dissimular”. E ele, de fato, já nas primeiras conversas, declarou abertamente: “Senhores, sou religioso redentorista; por isso me prenderam”. Ficou feliz em conhecer padre Jenaro. E não deixou de exercer seu sacerdócio, animando e encorajando os mais desesperados, e confessando a muitos deles.

Lá pelas oito da noite do mesmo dia foi chamado para depor novamente. Ao subir para a sala, foi visto por Lola Moreno, mas não se falaram. Pouco depois ela foi posta em liberdade. Depois de demorado interrogatório, voltou ao porão, agora pensativo e preocupado. E explicou o motivo: entre os inquisidores havia um que o conhecia, a julgar pelas perguntas que lhe fizera: “Onde está o padre provincial? Onde estão padres fulano e sicrano? Não é verdade que pregou muito na Galícia e em Navarra, e que o chamavam ‘picareta de ouro’?”. Não podia afirmar com certeza, mas acreditou ter reconhecido um apóstata de antes da guerra que havia sido redentorista, Gregório García Muñoz.

A partir de então, já não era tão otimista nem tinha o mesmo bom humor. Mas continuou ajudando e animando a todos, inclusive ao padre Jenaro. Um a quem muito ajudou foi o jovem Antônio Gómez Fernández, que depois ganhou a liberdade. Ao falar mais tarde com os padres Lucas e Colmenares, Antônio não conseguia conter as lágrimas: “Eu sou muito agradecido a ele. Depois de me confessar e confortar, disse estas palavras: ‘Em último caso, meu filho, se nos matam, já sabemos o que temos de fazer: gritaremos com todas as nossas forças: Viva Cristo Rei!, e entraremos no céu’”.

Isso aconteceu em 16 de setembro. No dia 17, já altas horas da noite, soou o chamado na porta do porão: “Donato Jiménez, depor. Toma!”. E o oficial de ordem entregou-lhe um envelope branco, que era a senha da sentença de morte.

O padre Jiménez não mais voltou. Provavelmente naquela mesma noite ou na madruga de 18 de setembro de 1936, frente ao pelotão de execução, pôde colocar em prática seu programa: Viva Cristo Rei! Foi sua última missão, sua última pregação. 

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