José Maria Urruchi Ortiz

CURTO DE INTELIGÊNCIA, MAS MODELO DE ESTUDANTE

Padre José Maria Urruchi Ortiz foi o mártir mais jovem da perseguição comunista: morreu aos 27 anos. Os fuzis não lhe deram tempo para fazer história, a não ser aquela que vale por todas: seu holocausto e seu triunfo.

Em 11 de fevereiro de 1909, nasceu José Maria em Ayuelas, povoado não muito distante do Colégio Nossa Senhora del Espino, dos Redentoristas. Seus pais, Marcos e Laureana, eram lavradores pobres, o que dificultou a entrada do menino no Seminário, que já desde muito pequeno havia manifestado essa inclinação.

Por fim, o padre Diretor, vendo as boas disposições de José Maria, abriu-lhe bondosamente as portas, e no dia 21 de setembro de 1921, chorando de alegria, o garoto vestiu o uniforme do colégio.

Como ele mesmo contou, teve dificuldades nos estudos, além de uma doença nos olhos, que o afligiu muito. Com extremo esforço conseguiu chegar ao Noviciado em Nava del Rey, fazendo sua profissão religiosa aos 24 de agosto de 1927.

Nos estudos de Filosofia e Teologia, a curteza de inteligência, a enfermidade nos olhos e outras limitações foram para ele verdadeiro pesadelo, só vencido à força de muita tenacidade. Quase que contrastando com tudo isso, eis o que deixou escrito sobre ele padre Labastida, seu companheiro de estudos e meio conterrâneo: “Nosso padre Urruchi foi sempre modelo de estudante e modelo de religioso, aplicado no estudo, amigo da vida recolhida, humilde, amante da oração, e sofrido. Nunca alguém lhe quis mal e ele jamais ofendeu ninguém”.

Esse calvário de sofrimentos, entretanto, causou estragos em sua personalidade. Tornou-se um homem escrupuloso, tímido, reservado. Mas conseguiu chegar ao sacerdócio, dando-se sua ordenação em 2 de outubro de 1932, em Astorga. Após a ordenação, teve ainda um ano de estudos, como era norma na Congregação, e fez em seguida seu segundo Noviciado em preparação para a vida apostólica.

Findo este, foi destinado, em fevereiro de 1934, a La Coruña, iniciando aí um verdadeiro périplo por diversas casas, buscando sempre onde melhorar sua saúde. Morava em Cuenca em 1935, quando pregou uma missão, junto com padre Ibarrola, nos arredores de Madri. Não há notícias de que tenha pregado outras, e morou pouco tempo em Cuenca. Dali, foi a Vigo e, alguns meses depois, encontrava-se na Comunidade do Perpétuo Socorro, em Madri. A crônica da casa, ao registrar sua chegada, diz: “Padece grande debilidade de cabeça”. Era outubro de 1935; em julho de 1936, morreria.

Quando saiu do convento, em 20 de julho, padre Urruchi, juntamente com irmão Máximo, refugiou-se na casa de Roberto González Nandín, alta patente da Marinha. Refúgio pouco estratégico, uma vez que a casa estava na mesma rua e a poucos metros do convento. Além da proximidade física, havia a proximidade afetiva de González Nandín, que era cristão de firmes princípios religiosos e grande amigo dos Redentoristas, tanto que estes lhe haviam confiado a guarda de vários objetos sacros da igreja e do convento do Perpétuo Socorro. A casa tinha capela, permitindo assim que padre Urruchi celebrasse missa diariamente. E os dois, ele e irmão Máximo, tinham ali uma vida quase conventual.

Mas a companhia do irmão Máximo durou poucos dias. Precisou ceder seu lugar ao irmão Pascual, que estava correndo grande perigo onde se achava escondido. Só quem não entende a linguagem de Deus é que não consegue ver sua mão providencial nessa troca. Padre Urruchi e irmão Pascual viveriam de tal forma unidos em amizade, ajuda  e conforto mútuos, oração e modo de vida, que juntos seriam levados ao martírio e juntos morreriam. Dona Concepción Fernández de la Puente, esposa e logo mais viúva de González Nandín, testemunhou que os dois passavam o dia e boa parte da noite diante do Santíssimo, ou lendo e rezando em seus quartos.

Às dez da manhã de 21 de agosto, chegam os milicianos para uma vistoria. Conta dona Concepción que quando os levaram, estavam muito serenos. Mas não fala nada de seu marido que, com a mesma atitude, foi levado junto. E mais: levaram também cálices, castiçais e outros objetos religiosos além de jóias da família. Difícil dizer se os representantes da Frente Popular eram mais assassinos ou mais ladrões.

Na mesma noite do dia 21, o porteiro da casa dava a seguinte notícia a dona Concepción: “Do senhor Roberto nada sei; aos religiosos, vão matá-los esta noite”. Na verdade, mataram aos três.

Não há notícia certa de para onde os levaram. O corpo do senhor Nandín apareceu, no dia 23, no depósito de cadáveres do hospital São Carlos, com a seguinte ficha: “Traído de Getafe”. Junto a seu cadáver, havia outros dois, que o médico, Dr. Ricardo Pérez Ortiz, não pôde identificar, pois não os conhecia, e não se pode afirmar com segurança que seriam dos dois Redentoristas. É muito provável, no entanto, que foram assassinados no mesmo lugar, e, seus corpos, recolhidos juntos.

Felizmente (felizmente?), em 1944, depois de muito esforço e buscas incansáveis, o padre Lucas Pérez pôde anunciar o encontro dos restos mortais dos dois mártires. Isso se deu graças às fotos que a Cruz Vermelha costumava fazer quando conseguia entrar clandestinamente nos locais de execução. Revolvendo uma porção de álbuns de fotos dos assassinados, padre Lucas encontrou as do padre Urruchi e do irmão Pascual, com suas correspondentes fichas.

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