Por Leonardo Caetano de Almeida Em Artigos Atualizada em 17 AGO 2018 - 11H12

Aparecida: Um convite à restauração pessoal e social

CDM / Santuário Nacional
CDM / Santuário Nacional
Imagem da Padroeira do Brasil sendo entronizada na Basílica Velha em 19 de agosto de 1978.

Em agosto, mês vocacional, o calendário litúrgico da Igreja do Brasil nos convida a celebrar, este ano a 19 de agosto, a Assunção de Maria. Mas outro importante acontecimento mariano marca a vida eclesial em nosso país nessa mesma data: a comemoração dos 40 anos da restauração da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil.

No dia 16 de maio de 1978, na Basílica velha de Aparecida, um jovem, perturbado por problemas mentais, tentou furtar a imagem original da Virgem, prodigiosamente encontrada no Rio Paraíba em 1717. Após quebrar o vidro protetor do nicho da imagem, o rapaz tomou-a, mas, na fuga, deixou-a escapar. A imagem de terracota caiu e fragmentou-se em cerca de 200 pedaços. A cabeça praticamente se desfez. O país soube, consternado, do ato sacrílego.

Após o atentado, orientados pelo próprio Vaticano, os missionários redentoristas responsáveis pelo Santuário de Aparecida encaminharam a imagem ao MASP para ser restaurada. A competentíssima restauradora Maria Helena Chartuni foi a responsável pelo trabalho minucioso e complicado. Ela mesma testemunha que, enquanto restaurava a imagem, tinha sua vida restaurada por Nossa Senhora. Em 33 dias, a artista conseguiu o que parecia impossível: devolveu, “milagrosamente”, o aspecto original à imagem, que foi trazida, em carro aberto dos bombeiros, do MASP de volta a Aparecida. Durante o trajeto, um cordão humano ininterrupto pelas ruas e rodovias saudou a Padroeira do Brasil com emoção e amor filial.

Para marcar e fazer memória dos exatos 40 anos dessa restauração “prodigiosa”, o Santuário Nacional programou uma série de celebrações, que vão culminar em 19 de agosto. Neste dia, será celebrada uma Missa na Catedral da Sé, em São Paulo, às 07h30, seguida da grande Carreata da Restauração até Aparecida, refazendo o mesmo caminho de quatro décadas, quando a imagem foi conduzida da Capital a Aparecida. Chegando ao Santuário Nacional, a imagem será acolhida para o início de uma Missa Solene presidida por Dom Orlando Brandes, Arcebispo de Aparecida. Leia MaisCelebre os 40 anos do restauro da Imagem de Aparecida com o SantuárioCerimônias que recordam 40 anos do restauro da Imagem de Aparecida começam sábado

A imagem de Nossa Senhora da Conceição, de barro cozido e originalmente dotada de policromia, foi modelada, acredita-se, por Frei Agostinho de Jesus no século XVIII. É provável que a imagem tenha sido arremessada ao rio após a cabeça ter se separado do corpo. E aquilo que parecia ser lamentável e desprezível – uma imagem de cabeça quebrada – tornou-se instrumento de graça pela Providência Divina... Diante da imensidão das águas do Paraíba do Sul, mesmo que a imagem estivesse intacta, com corpo e cabeça unidos, já seria surpreendente que fosse “pescada”; quanto mais sendo encontrados, separadamente e em sequência, o corpo e a minúscula cabeça. Esse fato, somado à abundância de peixes até então inexistentes, é que caracteriza a pesca daquele outubro de 1717 como milagrosa. Maria, então, livra os pobres pescadores do momento de aflição de uma pesca sem sucesso. Tornando-se “tutores” da imagenzinha “aparecida” das águas e fragmentada, os pescadores fixam, a seu modo, a cabeça ao corpo. É o primeiro de muitos restauros e intervenções por que a imagem passou ao longo dos séculos. Após o atentado de 1978, como dissemos, a mesma imagem passou pelo seu maior processo de restauração, realizado por Maria Helena Chartuni.

Restaurar implica em devolver as características primitivas, isto é, trazer à tona a originalidade da obra, que estava comprometida por alguma razão. Tal como o talentoso Frei Agostinho, há mais de três séculos, modelou a imagenzinha barroca da Senhora da Conceição, Deus, nosso Pai e Oleiro, modelou-nos, do barro, à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,26-27). Da mesma forma que as mãos habilidosas de Maria Helena restauraram a imagem de Aparecida, Cristo é o grande Artista que, quando feridos pelo pecado, pela dor e pelo sofrimento, restaura-nos a dignidade de filhos e filhas amados e feitos à semelhança de nosso Criador (cf. II Cor 5,17). Pelo Batismo, somos resgatados por Jesus Cristo, que, na Penitência, regenera-nos, restaura-nos, devolve-nos a originalidade de filhos adotivos do Altíssimo chamados à santidade. Quando enfermos e tomados pelas fragilidades próprias da vida humana, restitui-nos a saúde e o vigor do corpo e dá-nos o alívio e o conforto para a alma por meio da Unção dos Enfermos. Eis aí a restauração que Jesus opera em todo ser humano que se une a Ele e segue por seus caminhos.


O belo e indispensável ofício do restaurador exige desse profissional que seja também um conservador, isto é, o responsável por zelar pelas obras ou lugares para que não sofram alguma adversidade ou intempérie. Ou ainda, o restaurador-conservador se incumbe de fazer a manutenção e o acompanhamento daquilo que restaurou a fim de que sejam garantidas condições adequadas à peça ou ao espaço, evitando, assim, que seja necessário um novo restauro em pouco tempo. A própria Maria Helena Chartuni retorna anualmente ao Santuário Nacional para realizar uma manutenção da veneranda imagem da Senhora Aparecida.

Com efeito, podemos, mais uma vez, estabelecer uma analogia desses ofícios artísticos com a missão salvífica exercida por Jesus Cristo, Filho de Deus e Senhor nosso: além de “Restaurador”, Cristo também é o grande “Conservador” de nossa vida para que nada de mal aconteça conosco. O encontro pessoal com o Senhor tem um caráter transformador e nos aproxima de sua Verdade. Cristo possibilita a “conservação” de nossas vidas à medida em que nos abrimos à sua Palavra, unimo-nos a Ele pela oração, reconhecemo-lo em nossos Pastores e nos irmãos e irmãs mais sofredores e participamos ativamente da vida eclesial, principalmente da Eucaristia, Pão da Unidade e mistério ímpar da nossa fé.

Restaurar, como já expusemos, é trazer à tona, ao máximo possível, a originalidade da peça ou do espaço que passaram pelo processo de restauração.

Na verdade, restaurar não é repintar, camuflar, realizar intervenções indevidas ou refazer uma obra de acordo com o gosto pessoal do “restaurador”. Restaurar, como já expusemos, é trazer à tona, ao máximo possível, a originalidade da peça ou do espaço que passaram pelo processo de restauração. Temos, dessa forma, exemplos catastróficos de “restauros” não bem sucedidos na História da Arte. Assim também é o poder temporal que, revestido de linguagem sedutora e persuasiva, tenta dar nova “roupagem” ao ser humano, ludibriando-o.


O mal acaba corrompendo nossa dignidade de filhos e filhas do Senhor e dá-nos o seu “tom”, a sua “pintura”, como se essa fosse a configuração verdadeira que deveríamos assumir, mas que, na verdade, afasta-nos da nossa essência verdadeira de pertencentes a Cristo. As “tendências da modernidade e do progresso”, os “falsos profetas” – à medida em que nos alienam e fecham os nossos olhos para o drama da guerra e dos refugiados; da corrupção; da fome e da miséria; da doença; da desunião das famílias; da destruição do meio ambiente; dos desastres naturais; dos perseguidos por razões étnicas, sociais, políticas e religiosas; da exploração no mundo do trabalho; do tráfico humano; da segregação das sociedades; da violência urbana e rural; do consumismo exacerbado; do fechamento das pessoas em mundos virtuais; do contrabando; das fake news; do indiferentismo religioso; dos preconceitos de qualquer espécie; do terrorismo; dos programas de líderes e governantes que não estão em nada comprometidos com a justiça e a libertação próprias do Reino de Deus – absolutamente não podem reger nosso modo de pensar e agir como se fossem as verdadeiras fontes restauradoras da vida. Essas tendências nada mais estão fazendo senão cobrir a sociedade com “camadas” de pecado e morte, assemelhando-a a uma obra repintada e distanciada de sua originalidade.

CDM - Santuário Nacional
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São 40 anos da restauração da imagenzinha bendita da Rainha e Padroeira do Brasil. E o numeral 40, biblicamente, carrega importante significação para nossa vida eclesial. Recorda-nos o dilúvio; Moisés no Monte Sinai; a caminhada do povo de Deus à Terra Prometida; Jesus no deserto, entre outros fatos citados nas Escrituras. É imprescindível, nesse sentido, percebermos que, em todos esses episódios, passado o período de 40 dias ou anos, vida nova se fez, algo importante aconteceu ou se transformou. É a ação da graça divina sempre surpreendente na vida do seu povo!

Dessa forma, passados os 40 anos do restauro da imagem de Aparecida, a Mãe de Deus nos convida a trazermos ao Brasil, do qual é Rainha e Padroeira, um novo tempo, de renovação e esperança. Restaurados por Cristo, com Cristo e em Cristo, cabe-nos, como leigos e leigas engajados socialmente e conscientes de nossa missão, sermos sujeitos transformadores da História de nosso país, restaurando-o, particularmente, a partir das eleições que se aproximam, elegendo governantes verdadeiramente comprometidos com a justiça e a dignidade humana almejadas pelo Deus Libertador.

Assim cantava Padre Zezinho à Mãe de Jesus no Hino do Jubileu dos 300 anos de Aparecida: “Pequenina, restaurada, a tua imagem nos ensinou a ser um povo que não sabe esmorecer...”. Ora, a imagem frágil de Aparecida estimula-nos e educa-nos na luta diária pelo surgimento de uma sociedade que busca o bem comum e a justiça. Tal como a imagem de Maria (hoje seguramente conservada num belíssimo nicho projetado e executado por Cláudio Pastro no Santuário Nacional), somos de “barro”, frágeis, pequenos, sujeitos à queda diante dos “atentados” que a corrupção e as injustiças promovem; no entanto, também como a imagem de nossa Mãe, somos passíveis de “restauração”, tornando um só corpo esta nação fragmentada, desde que devidamente fundamentada nos princípios do Evangelho e comprometida com a vida do povo.

:: Saiba mais sobre as comemorações dos 40 anos do restauro

Bendito seja Deus pelo “sim” de Maria, nossa Mãezinha e Senhora, imagem perfeita da humanidade reconciliada com o seu Criador! Bendito seja Deus pelas mãos criativas de Frei Agostinho de Jesus, o religioso que nos modelou a Virgem da Conceição! Bendito seja Deus pelos três humildes pescadores, leigos que foram instrumentos indispensáveis no encontro providente da imagem e na reunião de sua cabeça ao corpo! Bendito seja Deus pelas mãos habilidosas e certeiras de tantos restauradores, especialmente de Maria Helena Chartuni, leiga que reconstituiu a imagem tragicamente fragmentada há 40 anos! Bendito seja o Deus Artista-Restaurador-Conservador que, a partir da imagem de Aparecida – fragmentada, restaurada e preservada – sinaliza para nós que não estamos mais segregados pelo pecado, mas restaurados, por Cristo, na graça divina!

Leonardo Caetano de Almeida
Associado da Academia Marial de Aparecida




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