Por Ana Alice Matiello Em Artigos Atualizada em 25 MAR 2019 - 16H45

A Linguagem devocional de Santo Afonso de Ligório a Maria

linguagem

Quem teve a oportunidade de ler a obra Glórias de Maria, de Santo Afonso Maria de Ligório, certamente percebeu com que alegria e seriedade ela foi escrita. Quando lembramos no Evangelho de São Lucas (5,45) que a boca fala daquilo de que o coração está cheio, é de se admirar quão cheio de amor por Maria está o coração do nosso Santo Afonso, nada do que foi dito peca pela falta ou excesso, o que vemos é a abundante fonte de vida que só deseja uma coisa: comunicar o amor. Porém, o que parece a primeira vista uma tarefa fácil, permanece e continuará permanecendo um esforço árduo e angustiante. Inúmeras foram as descobertas na literatura e inúmeros foram os seus saltos linguísticos – desde uma apreciação puramente estética ao um conteúdo ético-religioso do amor. Quando nós, por outro lado, nos adentramos no âmbito do Cristianismo, nós nos deparamos com uma encruzilhada, porque o Cristianismo, com a sua cruz fincada no coração do mundo, instaura uma nova qualidade incomunicável outrora pela linguagem  que herdamos de Homero e de toda as categorias de existência trágico-cômica do mundo grego.

Um estudo de Erich Auerbach, na obra Mimesis, mostra com grande nitidez como a linguagem reflete a percepção da realidade ao comparar duas civilizações paralelas como a Grécia antiga e o Judaísmo. Segundo o autor, na linguagem homérica o elemento de tensão é quase nulo senão débil, o estilo homérico só conhece o primeiro plano, “só um presente uniformemente iluminado, uniformemente objetivo”. Diferente da Odisseia, Abraão e Deus não estão localizados num primeiro plano, não se sabe de onde vem a voz de Deus e nem de onde Abraão responde. A linguagem Bíblica narra uma tensão interior presente entre os interlocutores, isto é, uma tensão opressiva. Porém, se o poema homérico nos parece mais elaborado, a linguagem bíblica consegue atingir uma riqueza de camadas simultaneamente sobrepostas da consciência e o conflito entre as mesmas que a linguagem direta não consegue captar.

Com a entrada do Cristianismo a tensão da linguagem bíblica se torna absoluta por carregar o paradoxo do Deus-homem. Incomunicável pela linguagem direta, Santo Afonso consegue comunicá-lo através do amor de Maria que sustenta sozinha o paradoxo da cruz, ou como bem ressalta o Santo nas palavras do Eclesiástico (24,8) conferidas a ela: “Eu sozinha rodeei o giro do céu”. Não é por acaso que Santo Afonso encerra cada subcapítulo com um Exemplo e Oração, pois são elementos da linguagem devocional. Se muitos estudiosos enfatizaram tanto o fato de que Santo Afonso não cometeu nenhum deslize teológico e doutrinal ao afirmar a mediação de Nossa Senhora, então, deve-se, igualmente, enfatizar a sua insistência nos relatos históricos que testemunharam o amor de Maria, não como um apêndice à prova teológica, mas como uma nova camada da consciência humana, a saber, da presença continua de Maria que se comunica no mundo através da devoção.           

 

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