Por Ir. Afonso Murad Em Artigos Atualizada em 18 MAR 2019 - 12H15

Maria das Dores

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Os vizinhos, parentes e amigos a chamam carinhosamente de “Dozinha”. Mas seu nome de batismo é “Maria das Dores”. Dozinha trabalha como vendedora de produtos de beleza. Gosta de usar alguns deles. “Fico mais bonita e cheirosa, diz ela”.

Faz muitos anos, Dozinha se casou com aquele que acreditava ser o homem de sua vida. Mas não deu certo. O marido era irresponsável, infiel e dependente de bebida alcoolica. Depois de alguns anos, ele a deixou sozinha, com três crianças para criar. “E a vida foi uma luta só”, conta Dozinha. Sem desanimar, ela aprendeu a ser pai e mãe ao mesmo tempo. E o tempo passou. Dozinha viu os filhos crescerem. Ela tinha uma especial afeição por Rodrigo, o filho mais novo. Este era carinhoso para com ela. Elogiava a comida que fazia, sabia dizer “muito obrigado, mãe!”. Nos dois últimos anos Rodrigo começou a ficar meio estranho. A mãe desconfiou que ele estava consumindo droga. Conversou com o filho, mas Rodrigo lhe respondeu que “tudo estava bem”.

Numa trágica sexta-feira, Rodrigo chegou em casa tarde, vindo do serviço. Comeu rapidamente, deu-lhe um beijo e disse para Dozinha que ia sair com os amigos. Seu coração de mãe sentiu um aperto. Veio uma dor forte, intensa, como nunca tinha acontecido. Dozinha começou a rezar umas Ave-Marias. Ela tinha a intuição que algo muito ruim iria acontecer. Escutou então uns estampidos de tiros. Logo chegou a vizinha e lhe disse: “Seu filho foi baleado”. Dozinha correu, rezando e chorando. Encontrou o filho ensanguentado. Segurou-o nos braços, já sem vida.

A morte do filho provocou uma crise de fé profunda em Dozinha. Primeiro, ela se sentiu anestesiada. Não podia acreditar naquilo. Parecia um pesadelo sem fim. Depois, veio a grande sensação de perda, sem volta. E a pergunta que não calava: “Por que Deus permitiu isso? Por que me tirou o dom mais precioso?” Ela começou a clamar, a brigar com Deus,. Toda sua longa vida de cristã, com muitas certezas, parecia ter se dissolvido rapidamente.

Então, um dia se lembrou de Maria, a mãe de Jesus. Imaginou as suas dores na hora da cruz, o abandono que ela também tinha passado. E pensou: “eu acho que Maria teve a mesma crise. Perdeu o filho amado, quase perdeu a esperança de viver”. Ela me entende. Assim, Dozinha passou a rezar para que Maria lhe desse a força para “sair do túmulo”.

Lentamente, Dozinha está fazendo o caminho de acolher a perda do filho. Repensa também as outras perdas que teve na vida, como a do ex-marido. Aprendeu a saborear as conquistas e a alegrias. “A vida de Maria não acabou na sexta-feira da paixão. A minha também não vai terminar desse jeito”, diz ela. Ao olhar para Maria, Dozinha vê a mulher forte, que não cedeu diante da dor e do sofrimento. Enfrentou-os com a cabeça erguida. Maria se tornou sua companheira de caminho, a mãe que lhe dá colo, a amiga entre as amigas. “As coisas ainda não estão resolvidas, mas fiz as pazes com Deus”.

Se a gente olha a vida de Maria nos Evangelhos, compreende porque a devoção popular desenvolveu o título de “Nossa Senhora das Dores”. Não pode ser uma forma de justificar as injustiças ou de criar nas pessoas aquele sentimento de passividade ou de resignação diante da dor. Ao contrário. Maria se mostra como uma mulher forte, que enfrenta com energia as adversidades, junto com José e com Jesus. Simbolicamente, os evangelhos nos falam destas dificuldades, como a matança das crianças inocentes, a fuga para o Egito, a vida em terra estrangeira, a perda do menino no templo. E, para terminar, a dor na hora da cruz.

A partir de Jesus, nos sentimos solidários com todos os homens e mulheres que padecem. Afirmamos que Jesus é nossa esperança, o vencedor. Maria testemunha esta vitória de Cristo. E ela nos acompanha como mãe amorosa. Como faz com Dozinha e tantas outras pessoas.

 

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